EDITORIAL
Por um judaísmo libertário

        No livro Redenção e Utopia (Ed. Companhia das Letras), o sociólogo brasileiro radicado em Paris, Michael Löwy, traça uma análise bastante apurada dos pensadores judeus da Europa Central, entre a metade do século passado ao final da Segunda Guerra Mundial, que poderiam ser comparados a profetas da contemporaneidade.
        Franz Rosenzveig, Kafka, Freud, Walter Benjamin, Martin Buber e mais uma dezena de intelectuais se enquadram neste esquema cultural.
        Talvez a linha de pensamento e práxis libertária na religião judaica tenha começado com o próprio Moisés, figura polêmica por si. Escravo hebreu ou príncipe egípcio, sua personalidade está envolta em mistério e falta de informações históricas precisas. Mas a revolução social e religiosa que ele desencadeou ultrapassou todas as preocupações historicistas e influenciam o dia-a-dia de milhões de pessoas por todo o mundo.
        A mensagem de Pessach, a Páscoa judaica, é uma mensagem de libertação que transcende a esfera do mundo judeu. Como disse certa vez o rabino Henry Sobel, enquanto houver alguma pessoa padecendo do jugo dos Faraós contemporâneos, pessoas sendo injustiçadas, privadas de suas liberdades de pensamento, expressão ou de movimento, a mensagem de Pessach ainda não estará completa.
        Quando falamos em judaísmo libertário, queremos enquadrar a ação judaica, mesmo aquela não propriamente litúrgica-sinagogal, no campo da ação social para além de obras assistenciais. Falamos de uma participação efetiva no dia-a-dia da sociedade não judaica, cultural, política, educacional ou esportivamente. Não há limites para o diálogo aberto e sem preconceito.
        Pessach é também a libertação dos preconceitos de todas as partes. Do judeu ortodoxo contra o liberal e deste contra aquele. Do gentio frente ao judeu e deste frente ao não-judeu. O espírito libertário da Páscoa deve construir pontes de amizades e não muros de discórdias. (HDC)

Todos nós para todas as correntes
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
        O judaísmo evoluiu muito nestes últimos três milênios. Evoluiu e tornou-se complexo.
        As leis da Torá devem ser aplicadas literal ou metaforicamente? Qual a dimensão da ética judaica para o mundo gentio? Qual o papel social do judeu diante dos não-judeus? Qual a relação entre os judeus e a cultura universal? Como entender o anti-semitismo milenar, a Inquisição, o Holocausto? De que forma o Estado de Israel laico deve lidar com a religião?
        Como o judaísmo pode agir como fator libertário diante das injustiças?
        Kulanu significa "todos nós" em hebraico. Pretendemos com a revista JUDAICA abrir um fórum democrático de discussão das grandes questões judaicas brasileiras e internacionais a partir deste número.
        Todas as correntes do judaísmo estão convidadas a participar.
No. 001 - Abril-Maio/1997
TEOLOGIA
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