MEMÓRIA
Israel Mucinic: de Khotin à conquista de Beer-Sheva
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
        Por coincidência, alguns dias antes de falecer subitamente vítima de parada cardíaca, Israel Sam Mucinic, um dos entrevistados do Survivors of the Shoah Visual History Foundation (Fundação de História Visual dos Sobreviventes da Shoá), organização criada e dirigida pelo cineasta Steven Spielberg, recebera uma cópia em vídeo e assistira com sua esposa Leja ao seu depoimento.
        Assim como ele, outros judeus que sobreviveram à tragédia do Holocausto ou da Segunda Guerra Mundial na Europa ocupada pelos nazistas têm histórias fascinantes para contar às futuras gerações.
        Todos eles são como que heróis do povo judeu e testemunhas oculares de tudo o que ali aconteceu. O registro e a divulgação para todo o mundo destas memórias é a garantia da verdade histórica contra as mentiras dos revisionismos neonazistas.
        Falar de meu sogro, Israel Sam Mucinic (z.l.) ou Israel ben Shlomo Hacohen, falecido dia 12 de março, aos 73 anos de idade, é contar a história de um valente sobrevivente com uma alma angelical. Sua trajetória pessoal por este nosso planeta é a micro-história de parte do povo judeu da Europa Oriental, naquilo que ela tem de mais dramático e emocionante.
        Nascido em 9 de maio 1923, em Khotin, Bessarábia, a cidade tinha metade de sua população judia até a Segunda Guerra Mundial e era disputada por russos, romenos, moldavos e ucranianos. Detalhe à parte: em Khotin também nasceu o advogado e historiador Elias Lipiner, cuja obra histórica sobre os judeus portugueses é das mais completas nos círculos acadêmicos de todo o mundo. O destino aproximou de forma muito curiosa Israel (como todos o chamavam) de seu conterrâneo Lipiner, nascido 16 anos antes. Ambos tinham escritórios lado a lado no mesmo antigo edifício Palacete Luz, número 39 da Rua Prates, no Bom Retiro (onde também nasceu a revista JUDAICA). Desde 1968 Lipiner vive com a família no Estado judeu.
        Em Khotin Israel viu a chegada das tropas nazistas durante a Segunda Guerra e a adesão imediada dos romenos em favor dos alemães. Não chegou a ser deportado para campos de concentração, mas com outros correligionários prestou serviços forçados para a companhia Krumpf. Recordava com satisfação que "a única ponte que construímos foi imediatamente destruída pelos russos depois de pronta." Durante aqueles anos terríveis de guerra os judeus padeciam nas mãos dos nazistas e seus simpatizantes romenos de terríveis humilhações, subnutrição e doenças acompanhados de invernos de até 30 graus negativos. Poucos sobreviveram à somatória destas condições.
        Após a guerra foi enviado pelo governo soviético para o interior da Ucrânia como corpo "voluntário" de mão-de-obra para a reconstrução do país. Foi aí que constatou a hipocrisia do regime comunista local, onde as altas patentes do governo e do exército soviéticos gozavam de direitos e luxos jamais alcançados pela população comum, submetida a regimes quase feudais de trabalho. "Qualquer mínima regalia, como o direito de férias depois de mais de um ano de trabalho longe de casa, só se alcançava com pequenos subornos", costumava dizer.
        Foi assim que conseguiu a guia para uma dispensa temporária e voltar de trem a sua cidade natal, poucos dias antes de seu prazo de férias se expirar. Detalhe: embora tivesse o ticket, ainda precisou dar o relógio ao supervisor do transporte para poder embarcar e mesmo assim só conseguiu lugar em cima do trem. Isso mesmo, em cima! "Eu tinha de dormir só com um olho fechado para não cair", satirizava sem perder o humor. "Lembro que alguns daqueles que viajavam ali em cima comigo não estavam mais lá quando chegamos..."
        De volta a Khotim, decidiu com outros judeus locais escapar do país. Conseguiu papéis poloneses em nome de um fictício Moshe Grabowski. Já na Polônia, integrou-se a um tipo de kibutz local, preparatório para emigrar ao nascente Estado de Israel. Seguiu depois para a Alemanha e já a serviço de organizações judaicas, coordenou a emigração clandestina de judeus sobreviventes do Holocausto para Israel.
        Pouco depois, ele próprio tomou o caminho da Terra dos Ancestrais. Recém chegado, foi incorporado ao Exército de Defesa de Israel e participou da conquista de Beersheva, no Neguev. Conheceu de perto e admirou David ben Gurion.
        Em seu depoimento Israel narrou emocionado as condições precárias das tropas judaicas e as dificuldades na luta contra os árabes, numericamente muito superiores, na Guerra de Independência de 1948. "Utilizamos de moldes de papelão sobre caminhões para que parecessem tanques e de muita determinação para conseguir vencer as primeiras batalhas e a primeira guerra do Estado de Israel. Mas muitos companheiros pereceram por não compreender as ordens em hebraico, falta de experiência militar, minas e ataques árabes de surpresa."
        Antes de vir para o Brasil, nos anos 50, Israel Sam Mucinic viveu na Itália, Estados Unidos e Canadá. Herdeiro da rica tradição judaico-russa, era conhecido por seu contagiante entusiasmo, alegria, bom humor e inesgotável amor à vida e à família. Foram estas forças interiores que o mantiveram vivo durante os últimos seis anos, quando complicações cardíacas tentavam derrotá-lo. Os rabinos Avraham Meir Zajac e David Weitman, presentes em seu enterro no Cemitério Israelita do Butantã e nas rezas em seu apartamento, lembraram aos seus muitos amigos e conhecidos estas suas qualidades.
        Deixou a esposa Leja, os filhos Dora, Sarita e Alberto, genros e netos, muita saudade e um grande exemplo de vida como judeu e ser humano que não serão esquecidos por aqueles que o conheceram de perto.
No. 001 - Abril-Maio/1997
TRIBUTO
Sobel, Weitman e Zajac:
rabinos homenageiam sua memória
        Israel Mucinic era uma pessoa de bem com a vida, de bem com todo o mundo. Profissionalmente corretíssimo no ramo de corretagem imobiliária no bairro do Bom Retiro, conquistou em 35 anos de experiência a simpatia de clientes judeus, gregos, italianos, libaneses, coreanos. Seus clientes diziam freqüentemente que fazer negócio com ele "dava sorte".
        Uma mística otimista. O próprio Einstein, físico da matéria, agnóstico, pendurou uma ferradura na sua porta. "Se todos dizem que dá sorte, porque não vou crer?", brincava.
        Religiosamente, Israel não separava os judeus em ortodoxos e liberais. Mantinha boas relações profissionais e sociais com todos.
        Educou seus filhos no tradicional Colégio Iavne Beith Chinuch e freqüentou por muito tempo a liberal Congregação Israelita Paulista. Recentemente, com sua esposa Leja, era convidado a cantar as antigas e comoventes canções iídiches da Europa Oriental na Sinagoga Menachem Mendel (movimento Lubavitch), dirigida pelo carismático rabino Avraham Meir Zajac, no Alto de Pinheiros.
        Quanto ao Estado de Israel, seu amor era incondicional, estivesse o Avodá ou o Likud no poder. Lamentou demais a morte de Itzhak Rabin e lamentava sempre quando sangue judeu era derramado em atos terroristas.
        Assim, não surpreende a dedicação à memória de Israel Mucinic pelos rabinos Zajac (que oficiou o enterro e conduziu as rezas da semana de shiva com um empenho incomum), David Weitman (do Beit Chabad, que no domingo seguinte ao falecimento, diante dos parentes e amigos de Israel que lotaram seu apartamento para a reza da noite, referiu-se a ele como uma pessoa cheia de luz e fogo que alegrava o próximo) e Henry Sobel (que prestou tributo à sua memória em duas prédicas de Cabalat Shabat na CIP). (HDC)
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