SOCIOLOGIA
Sionismo: o judaísmo com práxis política
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 002 - Maio-Junho/1997
"Em Basiléia, fundei o Estado judeu." - Theodor Herzl
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        O termo sionismo deriva da palavra Sião (Sion), nome de um monte em Jerusalém, que na Bíblia era usado tanto para designar a terra de Israel, como sua capital nacional e espiritual, Jerusalém. Assim, ao longo de toda a história do povo judeu, Sion foi sinônimo da nação judaica reorganizada na antiga terra dos patriarcas e profetas.
        A expressão "retorno a Sião" foi cunhada pela primeira vez durante o exílio dos judeus na Babilônia, ocorrida após a destruição do Templo de Jerusalém, em 587 a.C. Também lemos num folheto publicado pelo Ministério de Relações Exteriores da Inglaterra, em 1920, a respeito da Declaração Balfour, que "O sionismo da Bíblia é bem mais antigo do que o exílio de Israel, inclusive o primeiro exílio. Seu início data da época pré-histórica do êxodo de Israel do Egito, e Moisés foi o primeiro sionista."(1)
        Vemos com isso que a idéia do moderno sionismo já estava muito presente na vida do israelita bíblico, em seu anseio e empenho para regressar à terra de seus pais.
        Salo W. Baron comenta que: "Por detrás do movimento sionista estavam, obviamente, os antigos anseios judaicos de uma restauração da terra dos antepassados. No lar, na escola e na sinagoga, inculcava-se em cada criança esse ideal messiânico, e mais ainda nos momentos tenebrosos da história do que naqueles eventualmente luminosos."(2) Deste sionismo com cores messiânicas surgiu a primeira emigração em massa de judeus para Israel nos tempos modernos. Mas ao longo de todos os séculos os judeus sempre mantiveram comunidades vivas na terra de Israel e peregrinações jamais cessavam por completo. Em 1211, por exemplo, um grupo de 300 rabinos da Europa Ocidental encaminharam-se para Israel. Em 1700, cerca de mil judeus da Polônia e Alemanha, fizeram o mesmo.
        O sionismo político é resultado, entre outros fatores, da evolução dos conceitos de nação, povo e Estado ocorridos especialmente na segunda metade do século XIX, aliado com as reivindicações nacionais de diversos povos da Europa, a ampliação das idéias socialistas, o anti-semitismo e os constantes pogroms contra minorias judaicas no leste europeu e o eclodir do Caso Dreyfus na França.
        Alguns nomes merecem destaque entre os fundadores do movimento sionista europeu na segunda metade do século XIX: Moses Hess, Peretz Smolenskin, Leon Pinsker e, especialmente, Theodor Herzl. Hess e Smolenskin provocaram o rompimento do pensamento judaico de abordagem idealista para a concretização de uma definição da identidade judaica influenciada pelo nacionalismo da Europa Central e Oriental.
        Hess nasceu numa família ortodoxa de Bonn. Afastou-se do judaísmo na adolescência. Na universidade local, estudou a filosofia dialética de Hegel. Tornou-se um dos primeiros socialistas na Alemanha e foi quem apresentou Engels a Marx, colaborando também com eles. Exilado político, viveu muitos anos em Paris.
        Hess escreveu A História Sagrada da Humanidade por um Jovem Spinozista (1837). Sob influência de Marx, estudou economia, ciências naturais e antropologia. Rejeitou, porém, seu determinismo econômico, e ao contrário de Marx, tomou uma atitude positiva diante do nacionalismo libertário entre os povos oprimidos da Europa. Estudou a história judaica e, sob inspiração de Heinrich Graetz, interessou-se pelas condições em que viviam os judeus da Alemanha, Polônia, Rússia, Ucrânia.
        A unificação da Itália (1859-1861) teve para Hess um significado especial frente à questão dos judeus na Europa Ocidental. Eles poderiam almejar um renascimento nacional semelhante, inspirando sua mais conhecida obra: Roma e Jerusalém (1862).
        Na Europa Oriental o grande nome do nacionalismo judaico foi Peretz Smolenskin (1840-1885). Sua infância e juventude foram marcados pela pobreza e quando adulto, vivendo em Odessa, foi professor de hebraico e colaborador da imprensa judaica local. Aos 27 anos mudou-se para Viena para estudar na universidade. Mas mudou de planos ao arranjar um emprego de tipógrafo: fundou o jornal hebraico Há-Shachar (A Aurora), importante órgão da haskalá russa.
        Conforme reconhece Robert M. Seltzer: "Embora Hess e Smolenskin reconhecessem que o ódio aos judeus não era simplesmente um preconceito religioso antiqüado, eles só se preocupavam com isso de passagem. Já para Leon Pinsker (1821-1891) e Theodor Herzl (1850-1905), as duas figuras mais importantes do movimento sionista, o anti-semitismo foi um fator crucial no despertar pessoal que os conduziu ao nacionalismo judaico."(3)
        Pinsker escreveu e publicou o panfleto Auto-emancipação: a Advertência de um Judeu Russo a seu Povo (1821), onde diagnostica o anti-semitismo como uma forma de "demoniopatia", um medo irracional do estrangeiro, exacerbado pelo fato de serem os judeus hóspedes em todos os países e nunca hospedeiros.
        Enquanto Pinsker concentrou-se no fator psicológico do anti-semitismo, Herzl focalizou o fator econômico. Em O Estado Judeu (1896), Herzl comenta que a "causa remota" do ódio aos judeus teria sido a segregação medieval imposta às comunidades judaicas, forçando o judeu a desenvolver sua argúcia financeira para sobreviver em um meio hostil. Uma vez abertas as portas do gueto, as habilidades adquiridas proporcionaram ao judeu a capacidade de competir com sucesso frente aos gentios e de se aprimorar ainda mais.
        Foi particularmente o affair Dreyfus que tirou o jornalista vienense Theodor Herzl de sua apatia frente à questão judaica para organizar o movimento sionista em moldes políticos e lutar para criar um Lar Nacional para os judeus na então denominada Palestina. Herzl e outros intelectuais judeus intensificaram o trabalho neste sentido, realizando o primeiro Congresso Sionista em Basiléia no ano de1897.
        A partir de então, os sionistas empreenderam um intenso trabalho de negociações políticas junto às principais potências com influência direta ou indireta na terra de Israel: Turquia, Inglaterra, Alemanha, Rússia, Vaticano e França. Enquanto isso, Herzl escrevia e publicava O Estado Judeu, em que esboçava a nova vida judaica na terra de Israel independente.
        O sionismo político estimulou decididamente contínuas emigrações de judeus da Rússia, Polônia, Ucrânia e Alemanha, entre outros países, para um Israel ainda sob controle turco (até o fim da I Guerra Mundial) e sob controle britânico (até 1948). De maneira que, quando o país obteve finalmente seu reconhecimento internacional, já ali vivia uma importante comunidade judaica.

Notas:
1. Elyahu Biletzky: Anti-Sionismo, Nova Face do Anti-semitismo (Ed. Bnai Brith, São Paulo, 1982), p. 45.
2. História e Historiografia (Ed. Perspectiva, São Paulo, 1974).
3. Povo Judeu, Pensamento Judaico (II) (Ed. A. Koogan, Rio de Janeiro, 1989).