O termo sionismo deriva da palavra Sião (Sion), nome de um monte em
Jerusalém, que na Bíblia era usado tanto para designar a terra
de Israel, como sua capital nacional e espiritual, Jerusalém. Assim,
ao longo de toda a história do povo judeu, Sion foi sinônimo
da nação judaica reorganizada na antiga terra dos patriarcas
e profetas.
A expressão "retorno a Sião" foi cunhada pela primeira
vez durante o exílio dos judeus na Babilônia, ocorrida após
a destruição do Templo de Jerusalém, em 587 a.C. Também
lemos num folheto publicado pelo Ministério de Relações
Exteriores da Inglaterra, em 1920, a respeito da Declaração
Balfour, que "O sionismo da Bíblia é bem mais
antigo do que o exílio de Israel, inclusive o primeiro exílio.
Seu início data da época pré-histórica do êxodo
de Israel do Egito, e Moisés foi o primeiro sionista."(1)
Vemos com isso que a idéia do moderno sionismo já estava muito
presente na vida do israelita bíblico, em seu anseio e empenho para
regressar à terra de seus pais.
Salo W. Baron comenta que: "Por detrás do movimento sionista estavam,
obviamente, os antigos anseios judaicos de uma restauração da
terra dos antepassados. No lar, na escola e na sinagoga, inculcava-se em cada
criança esse ideal messiânico, e mais ainda nos momentos tenebrosos
da história do que naqueles eventualmente luminosos."(2) Deste
sionismo com cores messiânicas surgiu a primeira emigração
em massa de judeus para Israel nos tempos modernos. Mas ao longo de todos
os séculos os judeus sempre mantiveram comunidades vivas na terra de
Israel e peregrinações jamais cessavam por completo. Em 1211,
por exemplo, um grupo de 300 rabinos da Europa Ocidental encaminharam-se para
Israel. Em 1700, cerca de mil judeus da Polônia e Alemanha, fizeram
o mesmo.
O sionismo político é resultado, entre outros fatores, da evolução
dos conceitos de nação, povo e Estado ocorridos especialmente
na segunda metade do século XIX, aliado com as reivindicações
nacionais de diversos povos da Europa, a ampliação das idéias
socialistas, o anti-semitismo e os constantes pogroms contra minorias
judaicas no leste europeu e o eclodir do Caso Dreyfus na França.
Alguns nomes merecem destaque entre os fundadores do movimento sionista europeu
na segunda metade do século XIX: Moses Hess, Peretz Smolenskin, Leon
Pinsker e, especialmente, Theodor Herzl. Hess e Smolenskin provocaram o rompimento
do pensamento judaico de abordagem idealista para a concretização
de uma definição da identidade judaica influenciada pelo nacionalismo
da Europa Central e Oriental.
Hess nasceu numa família ortodoxa de Bonn. Afastou-se do judaísmo
na adolescência. Na universidade local, estudou a filosofia dialética
de Hegel. Tornou-se um dos primeiros socialistas na Alemanha e foi quem apresentou
Engels a Marx, colaborando também com eles. Exilado político,
viveu muitos anos em Paris.
Hess escreveu A História Sagrada da Humanidade
por um Jovem Spinozista (1837). Sob influência de Marx, estudou
economia, ciências naturais e antropologia. Rejeitou, porém,
seu determinismo econômico, e ao contrário de Marx, tomou uma
atitude positiva diante do nacionalismo libertário entre os povos oprimidos
da Europa. Estudou a história judaica e, sob inspiração
de Heinrich Graetz, interessou-se pelas condições em que viviam
os judeus da Alemanha, Polônia, Rússia, Ucrânia.
A unificação da Itália (1859-1861) teve para Hess um
significado especial frente à questão dos judeus na Europa Ocidental.
Eles poderiam almejar um renascimento nacional semelhante, inspirando sua
mais conhecida obra: Roma e Jerusalém (1862).
Na Europa Oriental o grande nome do nacionalismo judaico foi Peretz Smolenskin
(1840-1885). Sua infância e juventude foram marcados pela pobreza e
quando adulto, vivendo em Odessa, foi professor de hebraico e colaborador
da imprensa judaica local. Aos 27 anos mudou-se para Viena para estudar na
universidade. Mas mudou de planos ao arranjar um emprego de tipógrafo:
fundou o jornal hebraico Há-Shachar (A Aurora), importante
órgão da haskalá russa.
Conforme reconhece Robert M. Seltzer: "Embora Hess e Smolenskin reconhecessem
que o ódio aos judeus não era simplesmente um preconceito religioso
antiqüado, eles só se preocupavam com isso de passagem. Já
para Leon Pinsker (1821-1891) e Theodor Herzl (1850-1905), as duas figuras
mais importantes do movimento sionista, o anti-semitismo foi um fator crucial
no despertar pessoal que os conduziu ao nacionalismo judaico."(3)
Pinsker escreveu e publicou o panfleto Auto-emancipação:
a Advertência de um Judeu Russo a seu Povo (1821), onde diagnostica
o anti-semitismo como uma forma de "demoniopatia", um medo irracional
do estrangeiro, exacerbado pelo fato de serem os judeus hóspedes em
todos os países e nunca hospedeiros.
Enquanto Pinsker concentrou-se no fator psicológico do anti-semitismo,
Herzl focalizou o fator econômico. Em O Estado Judeu (1896),
Herzl comenta que a "causa remota" do ódio aos judeus teria
sido a segregação medieval imposta às comunidades judaicas,
forçando o judeu a desenvolver sua argúcia financeira para sobreviver
em um meio hostil. Uma vez abertas as portas do gueto, as habilidades adquiridas
proporcionaram ao judeu a capacidade de competir com sucesso frente aos gentios
e de se aprimorar ainda mais.
Foi particularmente o affair Dreyfus que tirou o
jornalista vienense Theodor Herzl de sua apatia frente à questão
judaica para organizar o movimento sionista em moldes políticos e lutar
para criar um Lar Nacional para os judeus na então denominada Palestina.
Herzl e outros intelectuais judeus intensificaram o trabalho neste sentido,
realizando o primeiro Congresso Sionista em Basiléia no ano de1897.
A partir de então, os sionistas empreenderam um intenso trabalho de
negociações políticas junto às principais potências
com influência direta ou indireta na terra de Israel: Turquia, Inglaterra,
Alemanha, Rússia, Vaticano e França. Enquanto isso, Herzl escrevia
e publicava O Estado Judeu, em que esboçava a nova vida judaica
na terra de Israel independente.
O sionismo político estimulou decididamente contínuas emigrações
de judeus da Rússia, Polônia, Ucrânia e Alemanha, entre
outros países, para um Israel ainda sob controle turco (até
o fim da I Guerra Mundial) e sob controle britânico (até 1948).
De maneira que, quando o país obteve finalmente seu reconhecimento
internacional, já ali vivia uma importante comunidade judaica.
Notas:
1. Elyahu Biletzky: Anti-Sionismo, Nova Face do Anti-semitismo (Ed.
Bnai Brith, São Paulo, 1982), p. 45.
2. História e Historiografia (Ed. Perspectiva, São Paulo,
1974).
3. Povo Judeu, Pensamento Judaico (II) (Ed. A. Koogan, Rio de Janeiro,
1989).