MARRANOS
Joseph Sebag: missões a Portugal e Brasil
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 007 - Novembro/1997
        O rabino israelense de origem marroquina Joseph Sebag é um nome importante para a história dos marranos portugueses. Ele viveu por alguns anos em Belmonte, iniciando o trabalho oficial de reintegração dos criptojudeus locais à vida judaica. Recentemente ele veio ao Brasil entrevistar-se com grupos de candidatos ao retorno de diversas cidades, quando tivemos a oportunidade de entrevistá-lo e situá-lo sobre as condições históricas, religiosas e sociais do judaísmo-marrânico no País.
        Joseph Sebag foi para Portugal no início de 1990, contratado pela Agência Judaica. Tinha a seu favor a vantagem de dominar a língua portuguesa, pois na década de 60 trabalhara durante quatro anos no Brasil como sheliach (enviado para missão de religião e educação) da mesma organização.
        A questão dos marranos portugueses já era então conhecida pelo grão-rabino sefardita de Israel, Mordechai Eliahu, que deu seu apoio à missão de Sebag.
        Havia em Belmonte (pequena vila onde nasceu o navegador Pedro Álvares Cabral, encravada na Serra da Estrela, centro-norte do país), entre 50 a 60 marranos interessados no judaísmo, todos relativamente jovens, entre 20 e 30 anos de idade, aproximadamente, e com vínculos familiares comuns. Com o trabalho de Sebag, este número aumentaria para cerca de 100 almas.
        Se por um lado os casamentos entre primos de primeiro e segundo graus garantiram a coesão familiar e religiosa, criaram, em conseqüência, o surgimento de doenças genéticas na comunidade criptojudaica local, como não distinguir bem as cores e enxergar com dificuldade à noite.
        Os marranos de Belmonte tinham hábitos muito distintos da população em geral, o que os identificava como judeus. Acendiam velas no anoitecer da sexta-feira, alguns não trabalhavam no sábado, iam raras vezes à igreja, jejuavam no dia seguinte ao Yom Kipur (Dia do Perdão) calculando a data pelas luas de setembro (costume herdado do tempo da Inquisição, para enganar os algozes que vinham espionar), faziam matzá (pão sem fermento) e evitavam carne de porco.
        Em sua investigação, Sebag encontrou marranos em cidades próximas a Belmonte, como Covilhã e Guarda, mas estes não se identificaram com a obra do retorno e se limitavam a dizer que "a terra dos judeus é Belmonte"...
        Sebag conta um fato deselegante ocorrido certa vez, ainda antes de sua ida a Portugal. Alguns marranos de Belmonte foram participar das comemorações de Yom Kipur na sinagoga de Lisboa e acabaram por não receberem boa acolhida dos judeus lisboetas.
        Aliás, histórias desse tipo ouvi várias de pessoas que vieram me procurar já um tanto desiludidas com alguns rabinos brasileiros. Eles me contaram casos ocorridos em São Paulo, Goiânia e Recife que vão desde a grosseria à humilhação.
        Para que tanta estupidez, grosseria e deselegância? Onde está a prática do mandamento bíblico de se acolher o guer, o estrangeiro. E por falar nisso, muitas vezes é o estrangeiro quem não demonstra a gratidão que o da terra merece.
        Lembram-se da passagem em que Abrão recepciona em sua tenda, sem saber, enviados de Deus que lhe farão a promessa do nascimento do filho com a esposa estéril e idosa Sara?
        Quando estes rabinos fecham as portas àqueles que buscam reencontrar suas raízes judaicas, cometem um duplo pecado. Primeiro contra o ser humano, pelo desprezo; em segundo por não fazer da Torá mensagem universal de paz, união, confraternização. Felizmente, no outro lado da balança, há também aqueles rabinos ponderados, coerentes, sensatos e educados.
        É preciso mais luz! "A letra cega e o espírito vivifica."
        BRASIL - Em 1991, em Belmonte, Sebag recebeu a visita do brasileiro Simeão Damasceno. Radicado em Nova York, Damasceno havia retornado formalmente ao judaísmo um ano antes com o rabino novaiorquino Herbert W. Bonzer e viajara a Portugal à procura de suas raízes judaicas. Sebag aconselhou o jovem para que fosse viver em Israel e ali encontrar uma moça judia tradicional com quem se casasse. Damasceno não tinha interesse (ou não podia) ir para Israel naquele momento e regressou aos Estados Unidos.
        Mas alguns meses depois Sebag recebia em Belmonte uma carta de Damasceno vinda de Israel, em que contava que as palavras do rabino o haviam tocado e ele mudara de idéia. Tempos depois Damasceno recebia a cidadania israelense com o nome de Shimon Damaski e o rabino Sebag celebrava seu casamento.
        O segundo contato com marranos brasileiros, Sebag teve com Yaacov de Oliveira (nascido Francisco de Assis Oliveira, no interior do Estado do Mato Grosso), regressado através dos rabinos Efraim Lagniado (Sinagoga Beit Yaacov) e Henrique Begun (Sinagoga Lubavitch), ambas de São Paulo, e enviado para uma ieshivá (seminário rabínico) de Israel, onde vive.
        O caso mais recente é o de Francivaldo de Andrade, que interessou-se efetivamente pelo judaísmo através do intercâmbio que eu mantinha com o grupo marrano de Fortaleza (onde ele vivia). Em 1996 Andrade foi estudar a religião judaica em Jerusalém. No meio tempo submeteu-se ao processo de conversão/retorno. Agora está de volta e vivendo em Brasília.
        Entre o final de agosto e início de setembro Sebag voltou ao Brasil. Veio por conta própria examinar a situação dos grupos de marranos de diversas cidades brasileiras. Esteve no Rio de Janeiro para rever amigos, seguiu depois para Recife (onde, no início do século XVII, durante o domínio holandês, existiu a primeira comunidade judaica das Américas, dirigida por Isaac Aboab da Fonseca). Em Recife Sebag encontrou-se com o grupo de marranos de Natal.
        Esteve depois em Fortaleza, Goiânia e São Paulo, ocasião em que o rabino Sebag visitou a revista JUDAICA.
Marrocos, refúgio da Inquisição
        Assim como a Turquia entre na encruzilhada da Europa com o Oriente Médio, outro país muçulmano, o marrocos, no norte da África e mais próximo da Península Ibérica, foi um dos principais refúgios aos judeus espanhóis e portugueses que fugiam da Inquisição.
        O rabino Joseph Sebag nasceu em Marrakesh, Marrocos, em 1939. A cidade, no começo do deserto do Saara e dentro da área de influência francesa, criou muitos sábios judeus.
        A quantidade da população judaica que vivia na cidade, Sebag desconhece. Mas se recorda que as relações com os muçulmanos eram boas e existia uma lei real de proteção aos judeus e rabinos proeminentes eram inclusive conselheiros da corte.
        Havia dois grupos de judeus no Marrocos. O grupo mais antigo tinha a aparência física dos árabes bérberes, de pele mais amorenada. Muitos deles viviam nas montanhas Atlas (que dá nomes a alguns de seus descendentes, como a cantora belga Natasha Atlas. Eram em geral mais dedicados à agricultura.
        Aqueles que se refugiaram no país após o decreto de expulsão na Espanha, em 1492, tinham cultura européia, eram mais claros e tinham nomes predominantemente ibéricos (Toledano, Cordovero, Valenciano, Sequerra, Suissa...). A família de Sebag era originariamente Pinto. Seu nome foi adaptado para o árabe "porque havia uma certa inveja por parte dos outros judeus contra os de origem ibérica."
        Sebag emigrou para Israel em 1952, onde vive desde então. (HDC)
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