A história tem ironias interessantes. Vejamos: os
primeiros cristãos eram judeus (Jesus, os 12 apóstolos, Paulo
de Tarso e outros). Estes judeus saíram da Judéia, Samária
e Galiléia (regiões do Estado de Israel atual e disseminaram
a mensagem do cristianismo pelo mundo mais metropolitano de então (Ásia
Menor, Grécia e Roma).
Já a partir do segundo século d.C. o número de adeptos
à nova fé era majoritariamente de gentios (não-judeus).
A conversão do imperador Constantino no começo do quarto século
faz do cristianismo a religião oficial no decadente Império
Romano.
O cristianismo ainda ofereceu um último alento de unidade a Roma por
suas vastas regiões que cobriam as Ilhas Britânicas, Península
Ibérica, Germânia, Dácia (Romênia), Norte da África,
Ásia Menor (Turquia), Síria e todo o Israel atual. Submetidos
à ferro e fogo à cristandade, uma série de elementos
pagãos foram incorporados ao cristianismo, solidificado logo depois
no Estado Papal centrado no Vaticano. O cristianismo perdera totalmente sua
pureza e fragilidade original e aliara-se com força com o poder temporal.
Quanto aos judeus, os Concílios eclesiais cada vez mais tornavam-se
anti-semitas na sua teologia e na prática.
No sexto século a terceira religião monoteísta desenvolvida
a partir do judaísmo surge nos desertos da Arábia. A lenda diz
que Maomé recebeu visões e a missão de pregar Alá
por todo o mundo. Com muita influência judaica e o espírito missionário
cristão, o islão impõe-se com violência entre as
tribos beduínas árabes e com rapidez varreu vastas regiões
que hoje vão do Marrocos à Indonésia, passando por países
europeus (Albânia e Bósnia) e quase todas as ex-repúblicas
soviéticas da Ásia Central, além de grandes países
como Turquia e Irã.
Esta pequena incursão histórica foi apenas para termos o pano
de fundo das comunidades cristãs entre a população árabe
de Israel. Adaptamos a seguir partes da interessante matéria escrita
por Judith Sudilovsky para o Jerusalem Post.
Num mar de judeus e muçulmanos, as duas únicas aldeias inteiramente
cristãs do país usam diferentes métodos para manter suas
identidades.
Numa parede no centro de Miilya alguém pintou com spray uma
cruz, um coração e a palavra "paz" em hebraico, inglês
e árabe. Cruzes são pintadas nas portas das casas, carros que
passam nas ruas ostentam cruzes e adesivos da Virgem Maria (aliás,
a jovem judia chamada Miriam, casada com o carpinteiro José) e as pessoas
usam crucifixos em volta dos pescoços.
Durante o Natal os líderes locais se vestem de Papai Noel e vão
pelas ruas distribuindo presentes, enquanto no Dia da Lembrança pelos
tombados nas guerras de Israel, fecham lojas e restaurantes e no Dia da Independência
desfraldam bandeiras azul e branco nos telhados.
Os residentes de Miilya, na Alta Galiléia, tem vivido em dois mundos,
diz o chefe do conselho, Kamel Abed. Quanto à religião, eles
dividem sua liturgia entre a grega ortodoxa e a católica romana pela
sua fidelidade ao Papa. Na vida secular, são uma ponte entre judeus
e árabes muçulmanos. Diz Abed: "Tem sido sempre nossa vocação
conectar os dois mundos. Nós nunca fomos uma coisa só. Alguns
gostariam que nós nos comportássemos mais como árabes,
outros não. Devemos permanecer no mundo moderno e em contato com os
judeus. Mesmo com a nossa religião temos problemas. Esse é o
nosso destino. Estamos entre o novo e o velho."
Os cristãos são cerca de 3% da população de Israel.
Miilya e sua aldeia irmã, Fassuta, localizada no topo de uma colina
no outro lado de um vale, com 2.700 habitantes são as únicas
comunidades cristãs remanescentes.
A Margem Ocidental ostenta uma única aldeia cristã, Zababida,
perto de Jenin. Ironicamente, duas das principais cidades intimamente ligadas
à história de Jesus, Belém e Nazaré, os muçulmanos
são maioria.
O governo israelense está se preparando para as comemorações
do segundo milênio cristão e isso deverá se traduzir em
um aumento tremendo em termos turísticos para Israel e para a economia
israelense, com reflexos diretos junto às populações
árabes-cristãs do país.