TEOLOGIA
Árabes cristãos no Estado judeu
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 008 - Dezembro/1997
        A história tem ironias interessantes. Vejamos: os primeiros cristãos eram judeus (Jesus, os 12 apóstolos, Paulo de Tarso e outros). Estes judeus saíram da Judéia, Samária e Galiléia (regiões do Estado de Israel atual e disseminaram a mensagem do cristianismo pelo mundo mais metropolitano de então (Ásia Menor, Grécia e Roma).
        Já a partir do segundo século d.C. o número de adeptos à nova fé era majoritariamente de gentios (não-judeus). A conversão do imperador Constantino no começo do quarto século faz do cristianismo a religião oficial no decadente Império Romano.
        O cristianismo ainda ofereceu um último alento de unidade a Roma por suas vastas regiões que cobriam as Ilhas Britânicas, Península Ibérica, Germânia, Dácia (Romênia), Norte da África, Ásia Menor (Turquia), Síria e todo o Israel atual. Submetidos à ferro e fogo à cristandade, uma série de elementos pagãos foram incorporados ao cristianismo, solidificado logo depois no Estado Papal centrado no Vaticano. O cristianismo perdera totalmente sua pureza e fragilidade original e aliara-se com força com o poder temporal. Quanto aos judeus, os Concílios eclesiais cada vez mais tornavam-se anti-semitas na sua teologia e na prática.
        No sexto século a terceira religião monoteísta desenvolvida a partir do judaísmo surge nos desertos da Arábia. A lenda diz que Maomé recebeu visões e a missão de pregar Alá por todo o mundo. Com muita influência judaica e o espírito missionário cristão, o islão impõe-se com violência entre as tribos beduínas árabes e com rapidez varreu vastas regiões que hoje vão do Marrocos à Indonésia, passando por países europeus (Albânia e Bósnia) e quase todas as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, além de grandes países como Turquia e Irã.
        Esta pequena incursão histórica foi apenas para termos o pano de fundo das comunidades cristãs entre a população árabe de Israel. Adaptamos a seguir partes da interessante matéria escrita por Judith Sudilovsky para o Jerusalem Post.
        Num mar de judeus e muçulmanos, as duas únicas aldeias inteiramente cristãs do país usam diferentes métodos para manter suas identidades.
        Numa parede no centro de Miilya alguém pintou com spray uma cruz, um coração e a palavra "paz" em hebraico, inglês e árabe. Cruzes são pintadas nas portas das casas, carros que passam nas ruas ostentam cruzes e adesivos da Virgem Maria (aliás, a jovem judia chamada Miriam, casada com o carpinteiro José) e as pessoas usam crucifixos em volta dos pescoços.
        Durante o Natal os líderes locais se vestem de Papai Noel e vão pelas ruas distribuindo presentes, enquanto no Dia da Lembrança pelos tombados nas guerras de Israel, fecham lojas e restaurantes e no Dia da Independência desfraldam bandeiras azul e branco nos telhados.
        Os residentes de Miilya, na Alta Galiléia, tem vivido em dois mundos, diz o chefe do conselho, Kamel Abed. Quanto à religião, eles dividem sua liturgia entre a grega ortodoxa e a católica romana pela sua fidelidade ao Papa. Na vida secular, são uma ponte entre judeus e árabes muçulmanos. Diz Abed: "Tem sido sempre nossa vocação conectar os dois mundos. Nós nunca fomos uma coisa só. Alguns gostariam que nós nos comportássemos mais como árabes, outros não. Devemos permanecer no mundo moderno e em contato com os judeus. Mesmo com a nossa religião temos problemas. Esse é o nosso destino. Estamos entre o novo e o velho."
        Os cristãos são cerca de 3% da população de Israel. Miilya e sua aldeia irmã, Fassuta, localizada no topo de uma colina no outro lado de um vale, com 2.700 habitantes são as únicas comunidades cristãs remanescentes.
        A Margem Ocidental ostenta uma única aldeia cristã, Zababida, perto de Jenin. Ironicamente, duas das principais cidades intimamente ligadas à história de Jesus, Belém e Nazaré, os muçulmanos são maioria.
        O governo israelense está se preparando para as comemorações do segundo milênio cristão e isso deverá se traduzir em um aumento tremendo em termos turísticos para Israel e para a economia israelense, com reflexos diretos junto às populações árabes-cristãs do país.
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