Entrevista concedida por Hélio Daniel Cordeiro
à Rádio CBN - Central Brasileira de Notícia.
Desde quando você pesquisa sobre os marranos brasileiros?
Eu comecei a trabalhar esse tema a partir de 1990, dado ao insistente número
de pessoas que me procuravam, fosse pessoalmente, ou através de cartas
e telefonemas, buscando informações sobre suas possíveis
origens judaicas.
Comecei a receber, também, regularmente, através
do Consulado de Israel, Federação Israelita do Estado de São
Paulo, Congregação Israelita Paulista e outras entidades judias,
várias correspondências de todas as partes do Brasil, e até
do Exterior, de pessoas buscando informações sobre genealogia,
história e religião judaica.
Foi quando decidi aprimorar a divulgação do assunto, para
oferecer respostas mais completas aos milhares de interessados que me contatavam.
Desde quando existem marranos no Brasil?
Isso tem pelo
menos 500 anos. Tudo começou com a expulsão dos judeus da
Espanha em 1492, antes ainda do Descobrimento do Brasil. 1492 é um
ano que coincide (sem ser exatamente uma coincidência, por paradoxal
que seja) com a Descoberta da América. O que se sabe hoje (e há
muito ainda por ser desvendado) é a grande presença de pessoas
de origem judaica na frota do descobridor Cristóvão Colombo
e, posteriormente, na frota de Pedro Álvares Cabral.
Qual foi a participação dos judeus na Descoberta da América?
É evidente o fato da participação judaica, num primeiro
plano, e de judaizantes (judeus ocultos), num segundo momento, que atuaram
em campos da astronomia e no financiamento das expedições
marítimas para o Novo Mundo.
O termo "marrano" ainda é usado?
Sim, o termo "marrano" ainda é usado até hoje. Há
uma grande controvérsia sobre sua origem e significado. Eu em particular
(juntamente com uma linha de pesquisadores), entendo que o termo "marrano"
é originário da palavra hebraica anussim, ou seja,
"conversos forçados". É exatamente o caso daqueles
judeus que tiveram de abandonar o judaísmo, ao menos formalmente,
e passar a aparentar uma vida pública como católicos.
Como você tomou contato com o rabino reformista Jacques Cukierkorn?
O rabino Jacques Cukierkorn é brasileiro, fez a faculdade rabínica
nos Estados Unidos e ali vive e trabalha como líder espiritual de
uma sinagoga.
Eu tenho contato com o Cukierkorn desde o início dos anos 90, justamente
quando ele preparava uma dissertação rabínica nos Estados
Unidos. Foi quando ele voltou ao Brasil para levantar informações
para sua tese e solicitou minha ajuda para seu projeto.
Desde então, nosso intercâmbio é regular justamente
pelo seu interesse no assunto e por eu estar inserido, vamos dizer assim,
no campo fértil que é o Brasil, onde estão os marranos
buscando descobrir suas raízes.
A que se deveu a recente visita do rabino Cukierkorn e do professor James
Ross ao Brasil?
Como normalmente acontece, uma coisa leva à outra. Cukierkorn teve
contato com este pesquisador estadunidense, James Ross, que foi contratado
pela tradicional editora anglo-americana Penguin Books, justamente para
levantar informações no Brasil para a edição
de um livro sobre grupos judaicos ao redor do mundo, livro este que já
está com o contrato assinado.
Ross e Cukierkorn passaram por São Paulo, ocasião em que lhes
forneci uma série de informações de vivência
pessoal e de arquivo sobre os marranos brasileiros. Eles depois seguiram
para Recife, Natal e Manaus.
Qual foi a participação dos cristãos-novos na história
do Brasil?
A participação dos cristãos-novos, ou judaizantes,
foi muito importante em toda a história brasileira.
- O tradutor da frota de Cabral era um converso, Gaspar da Gama.
- Grande número de bandeirandes, aqueles corajosos desbravadores
das selvas brasileiras, era constituída por elementos claramente
cristãos-novos. João Ramalho fundou o primeiro município
do Brasil, São Vicente, em 1532.
- O padre José de Anchieta, poeta e fundador da cidade de São
Paulo (1554) era filho de mãe judia, logo, pela Halachá
(o código das leis judaicas), pode ser também considerado
judeu.
- Jorge Fernandes é considerado o primeiro médico a atuar
no Brasil. Chegou junto com o segundo governador-geral, Duarte da Costa.
- No final do século XVI e início do XVII, um dos primeiros
autores sobre as terras brasileiras foi Ambrósio Fernandes Brandão,
cristão-novo autor da célebre Diálogos das Grandezas
do Brasil (c.1618).
- Mais ou menos na mesma época apareceu outro poeta marrano, Bento
Teixeira, autor da clássica Prosopopéia.
- Diogo Fernandes foi o maior técnico em cana-de-açúcar
do período colonial.
- A segunda metade do século XVII viu aparecer em Recife a primeira
comunidade judaica organizada do Novo Mundo, sob a liderança religiosa
do rabino Isaac Aboab da Fonseca.
- Estou inclinado a crer (e há outros estudiosos também) que
o padre Antônio Vieira era de origem cristã-nova.
- No século XVIII viveu no Rio de Janeiro o primeiro dramaturgo brasileiro,
Antônio José da Silva, queimado pela Inquisição
em Lisboa por práticas judaizantes. Sua vida foi tema do premiado
filme de Jom Tob Azulay, O Judeu.
- No final do século XIX outra figura importante de origem marrana
foi Deodoro da Fonseca, o presidente que inaugurou a República no
País.
- No século XX, são conhecidas as origens e afinidades marrânicas
do cineasta Glauber Rocha, do pedagogo Anísio Teixeira, dos cantores
Elis Regina e Alceu Valença, dentre outras figuras artísticas
e públicas.
Além de origem genealógica judaica, todas estas pessoas vão
além porque existe nelas uma identidade de mentalidade, com aspectos
miscigenados de judaísmo, catolicismo, protestantismo e agnosticismo.
Como tem sido a divulgação destas pesquisas?
O interesse pelo tema dos judeus na formação do Brasil tende
a crescer de uma forma mais intensa nos próximos anos, em virtude
das comemorações dos 500 anos do Descobrimento.
Ainda existe muita coisa por ser pesquisada, mas já recolhi bastante
material inédito, que está sendo trabalhado e que será
divulgado ao grande público brevemente, não apenas à
sociedade brasileira, mas para pesquisadores de todo o mundo.
