Por lei de 17 de julho de 1945 foi promulgado o Fuero
de los Españoles, primeira norma constitucional do franquismo que
regulou o regime das confissões ou comunidades religiosas não-católicas
- entre elas, a judia -, como norma que passou a nível de Lei Fundamental
da nação, depois do referendum de 6 de julho de 1947.
O cardeal primaz da Espanha, Pla y Deniel, manifestou a respeito que judeus
e protestantes eram livres para exercer seu culto privadamente, pois o Foro
dos Espanhóis era "uma espécie de ação amistosa
aos estrangeiros que residiam na Espanha." A prática pública,
todavia, ficava proibida.
Este ato legal criou uma nova e especial situação.
Desde o final da guerra civil até a promulgação do Foro
dos Espanhóis, a comunidade judaica na Espanha sofria um vazio normativo
que a impedia inclusive de exercer o simples culto organizado ou privado.
A Espanha passava de uma confissionalidade doutrinal e excludente, de unidade
religiosa na fé católica, a um regime de mera tolerância
- não liberal - de outros cultos não-católicos.
O influente jornal inglês Jewish Chronicle arremeteu contra a
Espanha e assinalou que "nem sequer a Rússia soviética
impôs semelhantes restrições à prática religiosa."
O Foro dos Espanhóis constituiu o início de um novo
período da vida judia na Espanha. Em 23 de outubro de 1945, Jacques
Danon e Samuel Maytek, em suas condições de vice-presidente
da comunidade judaica de Barcelona e responsável pela Chevra Kadisha
local, respectivamente, solicitaram ao governador civil, Bartolomé
Barba, autorização para "continuar o livre desenvolvimento
de suas atividades, de acordo com as recentes disposições da
Superioridade."
Diante da negativa do governador, Fortunato Benarroch, presidente da comunidade
dos judeus de Ciudad Condal, expôs a contrariedade a Isaac Weissman,
delegado em Lisboa do Congresso Mundial Judaico para a Espanha e Portugal.
Weissman pediu a intervenção de seu amigo Nicolás Franco,
embaixador em Portugal e irmão do chefe de Estado espanhol, que em
seu regresso de uma viagem a Madri, em 6 de dezembro de 1945, lhe comunicou
que depois de haver efetuado diversas gestões junto ao Ministério
do Governo, não existia inconveniente algum em que os judeus residentes
em Barcelona pudessem ter um templo para suas práticas religiosas.
Detalhe: A sinagoga e as celebrações de culto deviam ser feitas
"sem signos exteriores nem manifestações na via pública."
Em 10 de janeiro de 1946 Bartolomé Barba recebeu uma carta do ministro
do Governo, Blas Pérez, informando-lhe que no último Conselho
de Ministros presidido pelo chefe do Estado, Francisco Franco, ficou acertado
"autorizar a abertura de uma Sinagoga em Barcelona." Quatro dias
depois, o governador civil comunicou esta decisão ao chefe superior
da Polícia e ao presidente da comunidade judaica de Ciudad Condal.
A vida comunitária dos judeus residentes em Madri desapareceu no início
da Guerra Civil Espanhola. A pequena comunidade que permaneceu durante o período
da Segunda Guerra Mundial era pouco religiosa. Em fins de 1945, imediatamente
depois da guerra, o número de famílias judias não ultrapassava
50, sendo muitas asquenazitas.
Ao final de 1948 os dirigentes Ignacio Bauer, Moisés Lawenda e José
Cuby solicitaram autorização para abrir um templo de culto judaico.
No anoitecer do domingo, 2 de janeiro de 1949, com um público de 35
judeus, aconteceu a inauguração solene desta sinagoga.
Em 29 de setembro de 1949 chegou à Espanha uma comissão mista
de senadores e congressistas dos Estados Unidos, convidados pelo Governo de
Franco para conhecer a realidade do país. Entre os congressistas, Abraham
Multer, representante de Nova York, se interessou pela situação
dos judeus na Espanha. Tanto em Madri como em Barcelona se entrevistou com
os presidentes de ambas as comunidades.
Bauer e Enrique Benarroya lhe comunicaram suas preocupações
e lhe solicitaram que interviesse por maior liberdade perante o governo espanhol.
Em princípios de fevereiro de 1949 a Espanha pôs em marcha um
mecanismo para se aproximar do novo Estado de Israel. Depois de um desalentador
primeiro intento em Washington, Daniel François Barukh foi o próximo
mensageiro. O então presidente da comunidade judaica de Madri era uma
pessoal ideal para os projetos do Ministério de Assuntos Exteriores,
devido às suas relações e contatos em Israel.
Barukh escreveu a seu primo Elie Eliachar, destacado dirigente sefardita,
deputado da Knesset e durante alguns anos vice-prefeito de Jerusalém,
para que transmitisse ao ministro das Relações Exteriores de
Israel o seguinte:
1) O Governo da Espanha vê com agrado o êxito de Israel. 2) Está
particularmente interessado na amizade e bem-estar dos sefarditas. 3) Se Israel
deseja ser reconhecido e cambiar diplomatas, deve enviar um representante.
4) Um contrato comercial seria bem recebido depois de que os Gabinetes econômicos
de ambos os países realizem um estudo."
Nesta carta, Barukh adiantava que, se Moshe Sharett enviasse um representante
- "preferivelmente sefardita" - com plenas credenciais, teria um
êxito imediato. Por indicação de Sharett e do diretor-geral
de Política Externa de Israel, Walter Eytán, a carta-resposta
de Gershom Hirsh, diretor da Divisão da Europa, diz:
"Depois de muitas consultas e deliberações, o Ministério
de Relações Exteriores decidiu recusar por certo tempo o estabelecimento
deste tipo de relações. Com toda certeza voltaremos a tratar
desta questão dentro de alguns meses."
O caminho seguinte foi articulado através de Paris para Barcelona.
José Erice, por mediação de seu amigo Arístides
Peña, com ótimas relações com a comunidade judaica
de Barcelona, enviou a Benarroya cartas pedindo que intercedesse às
autoridades israelenses por um mútuo reconhecimento.
Após muitos entraves políticos, em abril de 1950 no Ministério
de Assuntos Exteriores de Israel se elevaram algumas vozes que consideravam
benéfica para os judeus da Espanha o reconhecimento mútuo, o
que ocorreu plenamente apenas em meados dos anos 80.
Entre 1960 e 1961 o general Franco ordenou à Presidência do Governo
espanhol cooperar com o Serviço Secreto de Israel, para favorecer a
emigração clandestina dos judeus marroquinos. Isser Harel, chefe
do Mossad de 1953 a 1963, confirmou a ajuda.
Com a operação do Mossad, dos 420 mil judeus que em 1960 viviam
no Marrocos, no ano seguinte restaram apenas 250 mil, dos quais 30 mil conseguiram
emigrar por outros caminhos para Israel e, em menor medida, para França
e Espanha.
A fim de facilitar este êxodo, foi criada uma organização
clandestina para que das cidades de Ceuta e Melilla os judeus embarcassem
com destino a Algeciras, Málaga e Gibraltar, e destes portos, a Israel.
Alguns dos organizadores desta operação vivem hoje em Israel,
como José Suiza Chocarem. O agente secreto do Mossad responsável
pela operação batizada de Yakhin foi Shmuel Toledano.
A década de 60 é sumamente importante para o desenvolvimento
da vida judia na Espanha. O país passou nesse período de um
regime de confissionalidade de Estado, exclusivamente católico, a um
sistema de maior tolerância com a promulgação da Lei de
Liberdade Religiosa de 1967.
Neste mesmo sentido cabe destacar a criação do grupo de Amizade
Judaico-Cristã, a celebração do Concílio Vaticano
II e a promulgação de Declaração Nostra Aetate.
As comunidades judaicas espanholas receberam o reconhecimento legal por parte
das autoridades e seus estatutos foram aceitos. As manifestações
e atos de conteúdo sefardita se intensificaram e o Governo concordou
em criar nesta mesma década o Museu Sefardita e o Instituto de Estudos
Sefarditas.
Graças à liberdade religiosa garantida por lei e ao trabalho
bem oquestrado entre as lideranças judias de Madri e Barcelona, novas
kehilot se desenvolveram por demais cidades.
Em 1966, os judeus que viviam na Espanha se distribuíam geograficamente
da seguinte forma: Barcelona, 3.000; Madri, 2.000; Melilla, 1.500; Ceuta,
400; Málaga, 400; e uns 150 em Valência. Números menores
se encontravam ainda em Sevilha, Córdoba, Maiorca, San Sebástian
e nas Ilhas Canárias.
Caso muito interessante, semelhante aos marranos do vizinho Portugal, são
os chuetas de Maiorca. Tratam-se de descendentes dos judeus que habitavam
a ilha no período mourisco. Ainda que obrigados a se converterem ao
cristianismo em 1435, continuaram vivendo durante séculos como comunidade
criptojudaica, demonstrando como os criptojudeus portugueses uma capacidade
singular de sobrevivência.
Durante a Segunda Guerra Mundial, exatamente no ano de 1942, por solicitação
dos agentes da Gestapo instalados na ilha, a polícia espanhola iniciou
uma investigação sobre a situação e número
de descendentes dos judeus conversos, sob o pretexto de indagar uma possível
conexão entre os chuetas e representantes de organizações
judaicas.
A investigação se concentrou em dados históricos sobre
a identidade familiar das pessoas condenadas pela Inquisição
e foi pedida a um historiador local indicado pelo arcebispo de Maiorca.
Este historiador informou aos investigadores espanhóis e alemães
que 35% dos habitantes da ilha eram descendentes de judeus ou de pessoas acusadas
de judaizantes pela Inquisição. Esta cifra, todavia, parece
ser muito elevada. O mais realista seria 18%. Segundo fontes consultadas,
o número fora duplicado para confundir os nazistas.
O ano de 1992 foi decisivo para a aproximação entre a Espanha,
os judeus de todo o mundo e o Estado de Israel. A data lembrou os 500 anos
do Decreto de Expulsão dos reis de Castela e Aragão, Isabela
e Fernando, mas principalmente foi um marco de revisão histórica,
de mea culpa pública do rei Juan Carlos em nome da Espanha passada
e do nascimento de um novo entendimento.
Que a lição de aproximação de 1992 entre judeus
e espanhóis inspire outros povos a buscar a paz mútua, que inspire
israelenses e árabes, espanhóis e bascos.
Nota: Conferência proferida
no Teatro Arthur Rubinstein, da Hebraica-SP, durante evento "Sefarad,
la España Judía", promovido pelos consulados da Espanha
e de Israel.