Elias
Lipiner: um mestre em judaísmo
português e no trato com as pessoas
Nascido em 1916 na cidade de Khotin, na região da
Bessarábia (território entre a Ucrânia, Rússia,
Romênia e Moldávia), veio para o Brasil em 1935 e emigrou para
Israel em 1968. Advogado de carreira e historiador por talento e dedicação,
foi um dos mais férteis pesquisadores em torno da presença dos
judeus em Portugal e, de certo modo, no Brasil. Aos 82 anos de idade, faleceu
em Israel dia 25 de abril, deixando uma ampla obra em português, hebraico
inglês e iídiche.
A entrevista a seguir foi realizada no escritório do advogado Hélio
Bobrow, em Higienópolis, no final de 1992, quando tive o primeiro encontro
pessoal com esta inesquecível e doce pessoa, um tzadik na plena
expressão da palavra. Depois tive o privilégio de encontrá-lo
mais algumas vezes em seus escritórios-bibliotecas em Tel Aviv (ao
lado da Prefeitura), em março de 1994, e em Jerusalém (no Monte
Spocus, próximo à Universidade Hebraica), em janeiro de 1996.
Nos encontramos pela última vez em São Paulo, em
novembro de 1996, quando veio para ser homenageado pela comunidade judaica
brasileira, no evento que lembrou os 500 anos da Conversão Forçado
dos judeus em Portugal.
Em abril de 1997, recebi sua última carta. Ele lamentou o recente falecimento
de meu sogro, Israel Mucinic, seu conterrâneo de Khotin e, com sábio
realismo escreveu: "Estamos todos na fila para o céu."
Descanse em paz, mestre Lipiner e obrigado por ter escrito tão belos
livros, por ter me ensinado tanto e, principalmente, por ter me dado a oportunidade
de conhecê-lo. ENTREVISTA O senhor acaba de lançar o livro Izaque de Castro, que foi um mártir
judeu da Inquisição portuguesa. Fale um pouco sobre este livro.
Sempre me pareceu que o adolescente Izaque de Castro realizou um serviço
notável para a sua nação e para a luta pela libertação
do pensamento humano, mas que sucumbiu tragicamente, ficando abandonado pela
História, quando merecia ser recolhido e colocado em evidência
no primeiro plano.
A falha que acaba de ser apontada talvez se deva à natureza da historiografia
clássica judaica, habituada a ocupar-se de personagens bíblicos,
de biografias de autoridades rabínicas e de relatos reduzidos de ocorrências
históricas, como se verifica das obras de Shlomo ibn Verga, Iossef
Hacohen, Abraham Zacuto e Guedalia ibn Yehia e seus seguidores.
Dentro dessa estrutura historiográfica não se encaixam figuras
como Izaque de Castro, homem do povo fazendo história. Poderia explicar com maiores detalhes como se dá isso?
Conforme destaco no prefácio do livro, os próprios inquisidores
consideravam o caso do mancebo Izaque de Castro "tão grave e poucas
vezes visto", que merecia destaque na história da luta secular
mantida entre a Igreja e os cristãos-novos em Portugal. Como foi sua abordagem ao tratar esta figura da história judaica?
Empenhei-me na elaboração de uma biografia apelando para todas
as forças e recursos à disposição, a fim de restaurar
os traços que caracterizassem a sua jovem personalidade. Segui-lhe
cada passa e cada sopro de sua vida, que não durou senão pouco
mais de 20 anos.
Passada a infância e a adolescência na França e na Holanda,
o vemos chegando a Recife, mancebo de 16 anos de idade, por volta de 1641.
Desta cidade sai em missão secreta de ensino para a Bahia, onde o vemos
atravessar hesitante a soleira do palácio residencial do bispo, para
finalmente ser preso por ele, como suspeito de praticante da Lei Velha (mosaica)
e ser embarcado para Lisboa.
Nesta metrópole, após longos e maduros debates com os maiores
teólogos portugueses do século, o vemos a caminho do cadafalso
atormentado por conflitos emocionais de adolescente. Conduzido de sambenito
nos ombros e de carocha na cabeça ao Auto-de-fé, e observando
as janelas dos edifícios em volta da Praça cheias de jovens
mulheres, receava que começassem gracejar com ele, ferindo sua vaidade
íntima de varão adolescente. Sua narrativa histórica lembra-me o estilo do italiano Carlo Ginzburg...
Interpretações humanas dessa última espécie, encontradas
em meu livro, podem induzir alguém a considerar seu enredo como estrutura
ficcional na classificação literária.
Todavia, ainda que no texto se entrelacem fatos verídicos com imaginação
interpretativa e com personagens pertencentes a outros lugares e a outras
épocas, o enredo na sua totalidade fundamenta-se em documentos históricos
citados e até exibidos.
Trata-se, pois, de uma pesquisa histórica e não de ficcão
literária ou narrativa romanesca. É que a própria vida
cotidiana de Izaque de Castro, dada à espiritualidade que a caracterizava,
assume as dimensões de uma fábula. Daí a sua morte por
fábula a que o texto se refere. Antônio José da Silva foi outro mártir judeu da Inquisição
portuguesa. Quais as diferenças entre essas duas figuras e entre seus
processos inquisitoriais?
São notáveis e elucidativas as diferenças. Elas são
determinadas principalmente pelo maior ou menor afastamento cronológico
das pessoas julgadas, do ato da conversão forçada de 1497 em
Portugal.
A primeira geração dos conversos ainda mantinha vivas as tradições
religiosas de origem e eram condenadas no tribunal em função
da prática de ritualismo ativo, original.
Faziam oração em língua hebraica no ambiente doméstico
individualmente, ou em grupo em sinagogas clandestinas, celebravam discreta
e desesperadamente todas as datas do judaísmo público de outrora. Quais as principais mudanças sentidas nas práticas judaicas
das próximas gerações de marranos?
O judaísmo das gerações intermediárias, de descendentes
de conversos, alimentava-se já por preceitos que seus ascendentes tinham
deixado por memória. Manifestava-se por meio de um ritual passivo de
sincretismo religioso.
Por não saberem mais hebraico, mas memorizando quanto mais podiam a
tradição velha, esses cristãos-novos se encomendavam
a seu Deus com as orações cristãs. Recitavam, por exemplo,
os Salmos de David, porém sem acrescentar no fim o versículo
"Gloria Patri", próprio da doutrina cristã, porque
ela condensa o dogma da Trindade.
À medida que avançava o tempo, afastando-se os descendentes
dos conversos ainda mais da época da conversão de seus ancestrais,
o seu judaísmo progressivamente se tornava mais reduzido, a ponto de
ser praticado muitas vezes não com intenção de judaizar,
mas antes por costume, por insinuações de membros mais idosos
da família, seguidas por razões de hierarquia doméstica. Como se insere Izaque de Castro neste contexto?
Izaque de Castro, pertencente às gerações intermediárias,
tendo passado parte de sua vida em ambientes de meia tolerância na França
e de tolerância completa na Holanda, seguiu inteiramente nas terras
inquisitoriais os preceitos da Lei Velha, disposto a sacrificar por eles a
vida.
Voltando a Antônio José da Silva, o dramaturgo brasileiro é
exemplo típico do criptojudaísmo praticado ainda no século
XVIII. Tal prática, porém, deriva antes do atavismo e de hábitos
familiares, denuncia uma tênue e duvidosa vinculação com
o modelo original.
Por isso mesmo assumem um significado especial as palavras postas na boca
do personagem de uma de uma de suas peças: "Se é culpa
não ter culpa, então tenho culpa."
Em verdade, os diferentes graus de judaísmo desses dois mártires
refletem-se claramente no curso dos processos contra eles instaurados pelo
Santo Ofício de Lisboa. Qual a sua análise da obra da historiadora Anita Novinsky e de outros
especialistas brasileiros sobre Inquisição e cristão-novos?
Há algum tempo publiquei um ensaio em defesa, homenagem e louvor da
primeira geração de historiógrafos amadores da origem
e vida dos cristãos-novos no Brasil. Tais estudiosos pertencem às
primeiras décadas do nosso século.
A Dra. Anita Novinsky é a primeira historiadora da geração
seguinte que se consagrou ao estudo científico do tema. Produziu nesta
área livros e ensaios de real valor, em que constitui fielmente aspectos
do passado cristão-novo do Brasil. O senhor, que conhece os trabalhos dos Arquivos Cordeiro, como analisa
suas atividades?
Foi com vivo interesse que tomei contato com o início das atividades
desta organização. De minha biblioteca particular faz parte
destacada a coleção completa dos 156 números da revista
Ha-Lapid (O Facho), publicada na cidade do Porto entre 1927 a 1956.
Essa publicação foi consagrada totalmente à obra de resgate
dos remanescentes do marranismo português, descobertos e apresentados
ao mundo nas primeiras décadas do século XX pelo engenheiro
judeu-polonês, Samuel Schwarz e por Artur Carlos de Barros Basto, capitão
do Exército português.
A história desse movimento pode servir de descoberta e resgate à
associação congênere brasileira de fonte inspiradora e,
sobretudo, de lição. Isto porque só tem sentido rever
os acontecimentos passados, enquando deles se extrai a conclusão necessária,
o exemplo para o presente e para o futuro.
O mundo de aparente harmonia emocional e romântico refletido nas páginas
de Ha-Lapid, com efeito viria a se acabar, vítima de real agressão
partida de elementos fanaticamente nacionalistas da política e da Igreja
em Portugal. Para completar o quadro assim criado, não faltaram desentendimentos
entre os idealistas do movimento rude e sincero da cidade do Porto, com o
grupo judaico um tanto elitista e ortodoxo de Lisboa. Qual o legado da Obra do Resgate de Barros Basto para o judaísmo
futuro?
Remanesceram até nossos dias, como sinais da Obra de Resgate, outrora
tão intensa e tão formosa, apenas pequenos grupos com tênue
apego às tentativas de revitalização judaizante.
Sobrou, também, o magnífico edifício da sinagoga Mekor
Hayim, inaugurada na cidade do Porto em 1938, apelidada de "catedral
judaica", a ostentar vestígios de seu passado.