TRIBUTO
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 014 - Junho/1998
Elias Lipiner: um mestre em judaísmo
português e no trato com as pessoas
        Nascido em 1916 na cidade de Khotin, na região da Bessarábia (território entre a Ucrânia, Rússia, Romênia e Moldávia), veio para o Brasil em 1935 e emigrou para Israel em 1968. Advogado de carreira e historiador por talento e dedicação, foi um dos mais férteis pesquisadores em torno da presença dos judeus em Portugal e, de certo modo, no Brasil. Aos 82 anos de idade, faleceu em Israel dia 25 de abril, deixando uma ampla obra em português, hebraico inglês e iídiche.
        A entrevista a seguir foi realizada no escritório do advogado Hélio Bobrow, em Higienópolis, no final de 1992, quando tive o primeiro encontro pessoal com esta inesquecível e doce pessoa, um tzadik na plena expressão da palavra. Depois tive o privilégio de encontrá-lo mais algumas vezes em seus escritórios-bibliotecas em Tel Aviv (ao lado da Prefeitura), em março de 1994, e em Jerusalém (no Monte Spocus, próximo à Universidade Hebraica), em janeiro de 1996.
        Nos encontramos pela última vez em São Paulo, em novembro de 1996, quando veio para ser homenageado pela comunidade judaica brasileira, no evento que lembrou os 500 anos da Conversão Forçado dos judeus em Portugal.
        Em abril de 1997, recebi sua última carta. Ele lamentou o recente falecimento de meu sogro, Israel Mucinic, seu conterrâneo de Khotin e, com sábio realismo escreveu: "Estamos todos na fila para o céu."
        Descanse em paz, mestre Lipiner e obrigado por ter escrito tão belos livros, por ter me ensinado tanto e, principalmente, por ter me dado a oportunidade de conhecê-lo.
        ENTREVISTA
        O senhor acaba de lançar o livro Izaque de Castro, que foi um mártir judeu da Inquisição portuguesa. Fale um pouco sobre este livro.
        Sempre me pareceu que o adolescente Izaque de Castro realizou um serviço notável para a sua nação e para a luta pela libertação do pensamento humano, mas que sucumbiu tragicamente, ficando abandonado pela História, quando merecia ser recolhido e colocado em evidência no primeiro plano.
        A falha que acaba de ser apontada talvez se deva à natureza da historiografia clássica judaica, habituada a ocupar-se de personagens bíblicos, de biografias de autoridades rabínicas e de relatos reduzidos de ocorrências históricas, como se verifica das obras de Shlomo ibn Verga, Iossef Hacohen, Abraham Zacuto e Guedalia ibn Yehia e seus seguidores.
        Dentro dessa estrutura historiográfica não se encaixam figuras como Izaque de Castro, homem do povo fazendo história.
        Poderia explicar com maiores detalhes como se dá isso?
        Conforme destaco no prefácio do livro, os próprios inquisidores consideravam o caso do mancebo Izaque de Castro "tão grave e poucas vezes visto", que merecia destaque na história da luta secular mantida entre a Igreja e os cristãos-novos em Portugal.
        Como foi sua abordagem ao tratar esta figura da história judaica?
        Empenhei-me na elaboração de uma biografia apelando para todas as forças e recursos à disposição, a fim de restaurar os traços que caracterizassem a sua jovem personalidade. Segui-lhe cada passa e cada sopro de sua vida, que não durou senão pouco mais de 20 anos.
        Passada a infância e a adolescência na França e na Holanda, o vemos chegando a Recife, mancebo de 16 anos de idade, por volta de 1641. Desta cidade sai em missão secreta de ensino para a Bahia, onde o vemos atravessar hesitante a soleira do palácio residencial do bispo, para finalmente ser preso por ele, como suspeito de praticante da Lei Velha (mosaica) e ser embarcado para Lisboa.
        Nesta metrópole, após longos e maduros debates com os maiores teólogos portugueses do século, o vemos a caminho do cadafalso atormentado por conflitos emocionais de adolescente. Conduzido de sambenito nos ombros e de carocha na cabeça ao Auto-de-fé, e observando as janelas dos edifícios em volta da Praça cheias de jovens mulheres, receava que começassem gracejar com ele, ferindo sua vaidade íntima de varão adolescente.
        Sua narrativa histórica lembra-me o estilo do italiano Carlo Ginzburg...
        Interpretações humanas dessa última espécie, encontradas em meu livro, podem induzir alguém a considerar seu enredo como estrutura ficcional na classificação literária.
        Todavia, ainda que no texto se entrelacem fatos verídicos com imaginação interpretativa e com personagens pertencentes a outros lugares e a outras épocas, o enredo na sua totalidade fundamenta-se em documentos históricos citados e até exibidos.
        Trata-se, pois, de uma pesquisa histórica e não de ficcão literária ou narrativa romanesca. É que a própria vida cotidiana de Izaque de Castro, dada à espiritualidade que a caracterizava, assume as dimensões de uma fábula. Daí a sua morte por fábula a que o texto se refere.
        Antônio José da Silva foi outro mártir judeu da Inquisição portuguesa. Quais as diferenças entre essas duas figuras e entre seus processos inquisitoriais?
        São notáveis e elucidativas as diferenças. Elas são determinadas principalmente pelo maior ou menor afastamento cronológico das pessoas julgadas, do ato da conversão forçada de 1497 em Portugal.
        A primeira geração dos conversos ainda mantinha vivas as tradições religiosas de origem e eram condenadas no tribunal em função da prática de ritualismo ativo, original.
        Faziam oração em língua hebraica no ambiente doméstico individualmente, ou em grupo em sinagogas clandestinas, celebravam discreta e desesperadamente todas as datas do judaísmo público de outrora.
        Quais as principais mudanças sentidas nas práticas judaicas das próximas gerações de marranos?
        O judaísmo das gerações intermediárias, de descendentes de conversos, alimentava-se já por preceitos que seus ascendentes tinham deixado por memória. Manifestava-se por meio de um ritual passivo de sincretismo religioso.
        Por não saberem mais hebraico, mas memorizando quanto mais podiam a tradição velha, esses cristãos-novos se encomendavam a seu Deus com as orações cristãs. Recitavam, por exemplo, os Salmos de David, porém sem acrescentar no fim o versículo "Gloria Patri", próprio da doutrina cristã, porque ela condensa o dogma da Trindade.
        À medida que avançava o tempo, afastando-se os descendentes dos conversos ainda mais da época da conversão de seus ancestrais, o seu judaísmo progressivamente se tornava mais reduzido, a ponto de ser praticado muitas vezes não com intenção de judaizar, mas antes por costume, por insinuações de membros mais idosos da família, seguidas por razões de hierarquia doméstica.
        Como se insere Izaque de Castro neste contexto?
Izaque de Castro, pertencente às gerações intermediárias, tendo passado parte de sua vida em ambientes de meia tolerância na França e de tolerância completa na Holanda, seguiu inteiramente nas terras inquisitoriais os preceitos da Lei Velha, disposto a sacrificar por eles a vida.
        Voltando a Antônio José da Silva, o dramaturgo brasileiro é exemplo típico do criptojudaísmo praticado ainda no século XVIII. Tal prática, porém, deriva antes do atavismo e de hábitos familiares, denuncia uma tênue e duvidosa vinculação com o modelo original.
        Por isso mesmo assumem um significado especial as palavras postas na boca do personagem de uma de uma de suas peças: "Se é culpa não ter culpa, então tenho culpa."
        Em verdade, os diferentes graus de judaísmo desses dois mártires refletem-se claramente no curso dos processos contra eles instaurados pelo Santo Ofício de Lisboa.
        Qual a sua análise da obra da historiadora Anita Novinsky e de outros especialistas brasileiros sobre Inquisição e cristão-novos?
        Há algum tempo publiquei um ensaio em defesa, homenagem e louvor da primeira geração de historiógrafos amadores da origem e vida dos cristãos-novos no Brasil. Tais estudiosos pertencem às primeiras décadas do nosso século.
A Dra. Anita Novinsky é a primeira historiadora da geração seguinte que se consagrou ao estudo científico do tema. Produziu nesta área livros e ensaios de real valor, em que constitui fielmente aspectos do passado cristão-novo do Brasil.
        O senhor, que conhece os trabalhos dos Arquivos Cordeiro, como analisa suas atividades?
        Foi com vivo interesse que tomei contato com o início das atividades desta organização. De minha biblioteca particular faz parte destacada a coleção completa dos 156 números da revista Ha-Lapid (O Facho), publicada na cidade do Porto entre 1927 a 1956.
        Essa publicação foi consagrada totalmente à obra de resgate dos remanescentes do marranismo português, descobertos e apresentados ao mundo nas primeiras décadas do século XX pelo engenheiro judeu-polonês, Samuel Schwarz e por Artur Carlos de Barros Basto, capitão do Exército português.
        A história desse movimento pode servir de descoberta e resgate à associação congênere brasileira de fonte inspiradora e, sobretudo, de lição. Isto porque só tem sentido rever os acontecimentos passados, enquando deles se extrai a conclusão necessária, o exemplo para o presente e para o futuro.
        O mundo de aparente harmonia emocional e romântico refletido nas páginas de Ha-Lapid, com efeito viria a se acabar, vítima de real agressão partida de elementos fanaticamente nacionalistas da política e da Igreja em Portugal. Para completar o quadro assim criado, não faltaram desentendimentos entre os idealistas do movimento rude e sincero da cidade do Porto, com o grupo judaico um tanto elitista e ortodoxo de Lisboa.
        Qual o legado da Obra do Resgate de Barros Basto para o judaísmo futuro?
Remanesceram até nossos dias, como sinais da Obra de Resgate, outrora tão intensa e tão formosa, apenas pequenos grupos com tênue apego às tentativas de revitalização judaizante.
        Sobrou, também, o magnífico edifício da sinagoga Mekor Hayim, inaugurada na cidade do Porto em 1938, apelidada de "catedral judaica", a ostentar vestígios de seu passado.
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