Um dos mais interessantes livros de Elias Lipiner é
Santa Inquisição: Terror e Linguagem. Trata-se de um
trabalho original em todo o mundo, no que toca aos estudos inquisitoriais,
e qual os leitores de língua portuguesa podem se orgulhar, assim como
a intelectualidade de nosso País.
A primeira (e até o presente única) edição do
livro é de 1977. Pela matéria que versa e pela forma adotada,
este trabalho é a primeira contribuição ao estudo sistemático
da ação inquisitorial em Portugal e Brasil, vista principalmente
sob o ângulo lingüístico.
Lipiner observa que o conflito entre a Inquisição
e os cristãos-novos (marranos), que durou desde o batismo forçado
de todos os judeus em Portugal (1497), até o decreto que extinguia
esse tribunal (1821), ocasionou visíveis perturbações
na vida social portuguesa da época, com reflexos também na área
da psicologia da linguagem. O Santo Ofício da Inquisição
vai figurar, assim, entre as causas que produziram a transformação
de sentido sofrido pelos vocábulos da língua portuguesa. "É
uma causa histórica que escapou até hoje, segundo parece, às
várias tentativas existentes de classificação semântica."(1)
O princípio da nova linguagem dos marranos diante do terror inquisitorial
vai ser a resistência judaica diante do credo religioso imposto pela
Igreja católica. Os judeus portugueses que receberam o batismo em 1497,
em idade adulta, não aceitaram a nova crença livremente. A essa
desconformidade e conseqüente duplicidade de pensamento religioso, correspondiam
gestos e atitudes de dissimulação. O marrano pronunciava Jesus,
mas pensava em Moisés. Rezava a Ave Maria com os lábios
e o Shemá Israel(2) com o coração. Citava os apóstolos
Paulo, Pedro e João, mas invocava de verdade os profetas israelitas
Isaías, Jeremias e Ezequiel.
Mantidos sempre no regime de pavor e ante à necessidade urgente de
exprimir as novas situações e os novos estados psíquicos,
não iriam os perseguidos, no ponto de impaciência intelectual
em que se achavam, criar vocábulos novos correspondentes a essas necessidades
particulares. Era mais fácil conservar o elemento físico dos
vocábulos velhos, dotando-os apenas de novo sentido espiritual. Utilizaram-se,
assim, dos termos já existentes, renovando-lhes o conceito, estendendo-o
ou restringindo-o, na medida do necessário, por meio da associação
de idéias, cabível em cada oportunidade.(3)
A simulação adotada pelos marranos como forma de sobreviver
ao ódio e à discriminação religioso oficial, deve
ter gerado mudanças de sentido nos seus meios de expressão.
O mesmo parece se aplicar aos inquisidores. Perseguidos e perseguidores intervieram
nas alterações sofridas pela psicologia da linguagem de seu
tempo, ditando cada qual à sua maneira as leis que regiam esse fenômeno
de magia lingüística.
Num memorial oferecido ao rei Felipe III, em 1600, pelos Inquisidores, estes,
referindo-se aos judaizantes, alegam: "Estejam os presos ou em terras
estranhas, avisam-se uns aos outros, noticiando o que se passa nos autos-da-fé,
servindo-se, quando lhes convém, de cifras que só eles entendem."(4)
Outro exemplo documentado sobre o vocabulário secreto dos marranos
vem do julgamento do antigo cônsul português na França,
Manuel Fernandes de Villa Real, condenado à fogueira e que saiu no
auto-de-fé de 1 de dezembro de 1652: "E usando de particulares
vocábulos e palavras para se entender com outras pessoas quando fazia
ou havia de fazer os ditos jejuns, sem que fossem entendidos ordinariamente,
por o sentido comum das ditas palavras ser muito diferente, comunicando estas
cousas com pessoas de sua nação apartadas da fé, com
as quais se declarava por judeu."(5)
Citaremos a seguir alguns trechos dos vacábulos do livro de Elias Lipiner:
ALGUNS ADÁGIOS INQUISITORIAIS
Amarrado ao potro de ignomínia. Diz-se de quem foi vítima
de contínuas infâmias e desonras. Frase tirada do tormento inquisitorial
do potro, instrumento em que o réu era posto amarrado de cordéis.
Basta o sangue sem culpa, e é culpa o sangue. Expressão
irônica, condenando os excessos dos inquisidores, para quem bastava
uma gota de sangue judaico para presumir culpa de judaísmo.
Dá-mo judeu, dar-to-ei queimado. Nesta frase resumia toda a
sua doutrina sobre os conversos Lucero, o primeiro inquisidor de Córdoba,
de alcunha "O Tenebroso".
Mais breve é o caminho do tribunal aos cárceres, que o da
Europa à Índia, China e Japão. Ironia contra os inquisidores
que mandavam missionários para converter infiéis em longínquas
terras, mas não prestavam o mesmo socorro espiritual aos presos nos
cárceres, suspeitos de heresia.
Adonay, Adonai. Palavra hebraica significando Senhor ou Deus, que aparecia
com freqüência nas declarações e nas rezas dos cristãos-novos
redigidas em português. Nos anos imediatamente posteriores ao estabelecimento
da Inquisição, a língua hebraica ainda vivia na boca
dos cristãos-novos. No dia 31 de maio de 1541 foi denunciado perante
a Inquisição de Lisboa, Pedro Afonso, já defunto, que
fora pelo delator "encontrado de uma vez a rezar em hebraico."
Aos poucos, porém, a língua hebraica das rezas foi sendo esquecida,
dela ficando apenas alguns vocábulos introduzidos nos textos das orações
compostas já em vernáculo, destacando-se assim o vocábulo
Adonai, inserto freqüentemente nessas rezas. "No dia 18 de
fevereiro de 1561- refere A. Baião, resumindo uma denúncia feita
perante a Inquisição de Lisboa - Manuel Marques, cristão-novo
reconciliado, denunciou que, estando doente de cama na casa de suas tias Isabel
Pires, Helena Gomes e Gracia Fernandes, pediam-lhe para ele ler um escrito
onde havia letras hebraicas e faziam jejuns judaicos a fim d'ele melhorar.
Duas delas, depois de lavarem as mãos, puseram-se junto da cama, sentadas
no chão, a rezarem uma oração de que ele só percebeu:
Adonay Rei, Adonay Reynos."
Na sentença dada contra o célebre matemático André
de Avelar, que saiu no auto-da-fé celebrado em Coimbra a 18 de junho
de 1623, condenado à pena de cárcere perpétuo em remissão,
consta que durante as cerimônias judaicas de que o réu participava,
como um dos oficiantes, numa sinagoga oculta, pronunciava a palavra "Jehovah
com admiração e outras palavras em hebraico, as quais repetiam
os circunstantes."
Ajudengado, judengo. À maneira de judeu; que tem modos de judaísmo.
No Cancioneiro Geral organizado por Garcia de Resende (1470-1536),
figura um poeta que, censurando a influência dos judeus de seu tempo
na vida social portuguesa, e "os seus modos viventes", diz: "Não
guardamos nossa lei de Cristo, como cristãos bem fiéis. Nem
servimos nosso rei senão de serviços vãos e revéis.
Isto faz o praticar nossas maneiras judengas..."
Igualmente, no dia 21 de agosto de 1591, uma delatora brasileira levou ao
conhecimento da Mesa da Visitação na Bahia, que a mãe
já falecida de Mecia Roiz, e sogra do célebre sertanista Garcia
Davila, "fazia cousas de judia e a ela denunciante lhe pareceram sempre
mal os modos dela que eram ajudengados."
Marranos. Marranos, pois, na definição do panfletista(6),
não são os que sinceramente adotaram o catolicismo, comportando-se
como os "cristãos lindos", mas unicamente os que, embora
batizados, continuavam porém amarrados à sua lei e a seus rabinos,
marrando (dando marradas, cornadas) na lei nova. Um outro panfletista, autor
da Sentinela contra os Judeus, escreve: "Porque entre os marranos
ou marrões, quando grunhe ou se queixa algum deles, todos os demais
acodem ao seu grunhido, e como assim são os judeus, que ao lamento
de um acodem todos, por isso lhes deram o título e nome de marranos".
(...) As derivações mais remotas e mais aceitáveis, sugerem
a origem hebraica ou aramaica do termo. Mumar: converso, apóstata.
Da raiz hebraica mumar, acrescida do sufixo castelhano ano derivou
a forma composta mumrrano, abreviado: marrano. Tratar-se-ia de um vocábulo
hebraico acomodado às línguas ibéricas. Marít-áyim:
aparência, ou seja, cristão apenas na aparência. Mar-anús:
homem batizado à força. Mumar-anus: convertido à
força. Contração dos dois termos hebraicos, mediante
a eliminação da primeira sílaba. Moharám atá:
Tu és um excomungado.
Nomes Secretos de Judeus. O Monitório de 1536 ordenava que fossem denunciadas
como judaizantes as pessoas que "Quando nasceram ou nascem seus filhos
se os circuncidam e lhes puseram ou põem secretamente nomes de judeus."
Revela-se, assim, a existência, entre os cristãos-novos, de nomes
judaicos mantidos em segredo. Nos papéis da Inquisição
ou do período pré-inquisitorial, consigna-se às vezes
tal duplicidade de nomes, aparecendo o nome judeu secreto dos culpados, ou
então o nome de batismo traduzido para o hebraico.
Assim, em carta de 11 de junho de 1531, o embaixador português em Roma,
Braz Neto, referindo-se ao célebre visionário messiânico
português conhecido sob o nome hebraico de Salomão Molco, escreveu
ao monarca Dom João III: "Aqui (em Roma) está um português,
que quando lá se tratava como cristão se chamava Diogo Pires."
Notas:
1) Elias Lipiner: Santa Inquisição: Terror e Linguagem
(Ed. Documentário, Rio de Janeiro, 1977), p. 5.
2) Shemá Israel (Ouve ó Israel!). Oração
da liturgia judaica que ressalta a unicidade de Deus.
3) Santa Inquisição: Terror e Linguagem, p. 6.
4) Santa Inquisição: Terror e Linguagem, p. 6.
5) Santa Inquisição: Terror e Linguagem, p. 7.
6) Referência a Garcia de Rezende (1470-1536).