Diante do choque cultural e político entre o islamismo
e o Ocidente verificado desde a Revolução Iraniana promovida
pelo aiatolá Khomeini em 1979, oportuno se faz entendermos os princípios
da religião islâmica e como ela se relaciona com o político.
Maomé (Mohamed, em árabe) nasceu em Meca
por volta de 570, filho de Abdallah e Amina, do clã dos Beni Hashemi,
um ramo pobre da tribo dos coraixitas(1). Naquela época, a tribo constituía
a célula social básica em toda a Arábia, algo como ocorrera
cerca de 1500 anos antes entre os israelitas. O pai de Maomé morreu
antes do futuro profeta nascer e sua mãe faleceu quando o menino tinha
apenas seis anos.
Aos 25 anos, Maomé passou a trabalhar para uma viúva
rica, Cadija, 15 anos mais velha do que ele, com que se casou. Balzaquiano
ou oportunista?... Teve quatro filhas, das quais apenas uma, Fátima
(que depois se tornaria nome de santa católica) teve descendentes com
Ali, filho de Abu Talib.
A chamada "iluminação" de Maomé(2)
ocorreu em 610, aos 40 anos, no dia 27 do mês de Ramadã(3).
Segundo a tradição, o profeta meditava numa das grutas do Monte
Hira, quando ouviu a voz do anjo Gabriel mandando-o recitar a shahada(4),
que se tornaria a profissão de fé do islamismo. Foi Cadija quem
encorajou-o a revelar sua visão. Maomé continuou recebendo suas
revelações, mas freqüentemente era hostilizado ao pregar
em Meca. Apenas alguns poucos pobres se dispuseram a crer em sua mensagem.
Mas pouco a pouco foram aumentando seus seguidores, incluindo
gente da nobreza, como Abu Bakr, seu primeiro sucessor. Aumentaram, também,
as hostilidades contra a nova religião, e Maomé buscou refúgio
na Abissínia(5) entre 615 e 616. Em 619 morreram seus protetores, Abu
Talib e Cadija e, em 622, depois de sofrer um atentado, decidiu abandonar
Meca definitivamente. Mudou-se para Iatrib(6), um rico oásis a 400
quilômetros ao norte de Meca. Esta transferência ficou conhecida
como a hégira e marca o início do calendário islâmico.
Medina era habitada por uma maioria de pagãos e
por judeus, organizados em torno de sua vida comunitária, com escolas,
rabinos e sistema jurídico próprio. Em pouco tempo Maomé
conseguiu converter a maioria dos pagãos e obrigou muitos judeus a
aceitar sua fé. A partir desta "república islâmica"
que se tornou Medina é que o profeta iniciou sua jihad(7) contra
Meca. No ano 632 Maomé fez nova peregrinação a Meca,
acompanhado de 80 mil seguidores. Foi durante esta peregrinação
que o profeta retirou todos os ídolos da Caaba(8), reservando
o templo apenas a Alá. Pouco depois de regressar a Medina, neste
mesmo ano, Maomé morreu.
Após sua morte, o islamismo conquistou (muitas vezes
pela espada) crescentes adeptos, inicialmente em todo o mundo de fala árabe
e, posteriormente, entre outros povos. As duas fontes do islamismo são
o Alcorão(9) e a suna(10), que está sintetizada
no hadiz(11).
O Alcorão não foi escrito diretamente por
Maomé. A sua versão atual corresponde a uma compilação
feita em 652 pelo terceiro sucessor do profeta, o califa Otman, embora haja
polêmica sobre isso. O livro tem 6.226 versículos agrupados em
114 capítulos (suras), que não estão organizados
em ordem cronológica, mas segundo seus tamanhos, a partir dos maiorres.
Os ulemás(12) dividem o Alcorão em quatro grandes
temas: as crenças da fé (al ágida), os cultos
(al ibáda), a moralidade (al ajilág) e as relações
sociais entre os homens (al muamalát).
Com respeito às duas outras religiões monoteístas
do planeta, o islã critica os judeus por serem considerados, conforme
a Bíblia, o "povo escolhido de Deus" e por não
admitirem que o Alcorão siga a tradição da Torá.
Os cristãos são criticados por afirmarem que Cristo seja o filho
de Deus. Ainda assim, o islã garante (ao menos teoricamente) proteção
(dhimma) aos judeus e cristãos, desde que mantenham seu culto
restrito aos locais adequados (sinagogas e igrejas) e não causem distúrbios
na comunidade islâmica.
Com o passar do tempo, o islã viu-se dividido entre
três correntes básicas: os xiítas, sunitas e sufistas.
A origem da divisão entre sunitas e xiítas é uma questão
sucessória. Ali Ibn Abu Talib, genro de Maomé (casado com sua
filha, Fátima), era o preferido do profeta na função
de seguir sua obra como chefe islâmico, ou seja, califa(13). Mas em
função de uma série de fatos, Ali foi empossado como
quarto califa somente em 655. Em 661 ele foi assassinado e o cargo passou
às mãos do governador da Síria, Mowiya, que conquistou
o apoio da maioria islâmica.
A minoria, os xiítas, simpatizante de Ali, não
aceitou esta situação, preiteando que o califado passasse às
mãos de Hassan e Hussein, filhos de Ali. Mas ambos acabaram também
sendo assassinados, iniciando uma sangrenta tradição de sangue
na religião do deserto.
A seita dos sunitas, que hoje constitui cerca de 90% dos
muçulmanos, originou-se dos primeiros apoiadores de Moawiya. Seu nome
deriva de suna, e tendem a agir de forma mais pragmática quanto
às coisas terrenas.
O terceiro grupo são os sufistas, uma corrente exotérica
islâmica. Estão mais preocupados com as questões espirituais
da mensagem de Maomé, de que com as questões de natureza ortodoxa.
Um dos sufistas mais destacados foi Muhidin ibn Arabi, nascido na Síria
em 1240. Arabi deixou uma obra muito importante.
Notas:
1) Tribo que dominava Meca durante o século VII.
2) É comum as tradições religiosas apresentarem "iluminações"
para seus grandes profetas ou pretensos messias. Exemplos são Moisés,
Buda, Jesus, Constantino, Shabetai Zvi e outros.
3) Nono mês do calendário muçulmano, quando se observa
jejum obrigatório para lembrar a ocasião em que o profeta Maomé
recebeu a Revelação.
4) "Só há um Deus, que é Alá, e Maomé
é o seu profeta." Uma única citação pública
basta para se aderir ao islã.
5) Atual Etiópia.
6) Depois chamada de Medina.
7) Esforço que todo muçulmano deve fazer para difundir o islamismo.
8) Templo em forma cúbica, situado na mesquita central de Meca. Na
Caaba encontra-se a Pedra Negra, que segundo a tradição foi
dada pelo anjo Gabriel a Ismael (filho de Abraão) para selar a aliança
de Deus com os homens.
9) Significa "revelação". Livro sagrado do islã,
a palavra de Deus revelada a Maomé pelo anjo Gabriel.
10) A tradição, o comportamento em vida de Maomé.
11) Coletânea de textos que sintetizam as palavras e os atos de Maomé,
narrados em forma de versos.
12) Doutores da Lei islâmica.
13) O islamismo considera, de modo geral, os quatros primeiros califas iluminados:
Abu Bakr, Omar ibn Abd al-khattab, Otman ibn Affan e Ali ibn Abu Talib. Os
xiítas (shiat) começam a contar a linhagem dos califas
a partir de Ali.
Bibliografia indicada:
ARBEX JR., José. Islã: Um Enigma de Nossa Época
(Ed. Moderna).
BARTHOLDO JR., Roberto S. & CAMPOS, Arminda Eugênia (org.). Islã:
o Credo é a Conduta (Imago Ed.).
HOURANI, Fouad. Uma História dos Povos Árabes (Ed.
Companhia das Letras).
OLIC, Nelson Bacic. Oriente Médio: Uma Região de Conflitos
(Ed. Moderna).
SAID, Edward. Orientalismo (Ed. Companhia das Letras).