Esquecer a própria história é decretar a sua
condenação. Uma das grandes virtudes da tradição
judaica é seu apego aos fatos históricos que marcaram seu desenvolvimento
enquanto povo. Não por acaso, um dos livros de Yosef H. Yerushalmi tem
por título justamente Zakhor: História Judaica e Memória
Judaica.(1)
Dentro da programação cultural do Projeto Morashá da Congregação
e Beneficência Sefardi Paulista, uma das mais concorridas palestras realizadas
foi a de Yosef H. Yerushalmi, que coleciona entre seus títulos e cargos
o de professor-titular da cátedra "Salo Wittmayer Baron" de
História Judaica, Cultura e Sociedade e diretor do Centro sobre Israel
e Estudos Judaicos da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos.
Para um público que tomou todos os assentos do auditório da Sinagoga
Beit Yaacov, Yerushalmi abordou em sua paletra a história dos judeus
sefarditas entre o cristianismo e o islamismo.
O primeiro registro da vida judaica na Península Ibérica, que
em hebraico seria conhecida por Sefarad, data do século 3 d.C.
Trata-se de uma inscrição em latim (idioma dos judeus na Espanha
romana) no túmulo de uma menina. O nome da criança era Annia Saomonula
(Hannah bat Shelomoh). Morreu com apenas um ano, quatro meses e um dia.
No século 5, a Península Ibérica foi conquistada pelos
visigodos, bárbaros germânicos recém cristianizados. Segundo
Yerushalmi, "tudo o que sabemos é originário de fontes não
judaicas, principalmente de códigos legais detalhados dos reis e dos
Concílios Eclesiáticos visigóticos." Até o
final do século 6 o reino visigodo continuou a tradição
de tolerância frente aos judeus, herdada dos romanos. A mudança
ocorreu quando os visigodos passaram do cristianismo arianista para o catolicismo(2).
Em 613 o rei Sisebut ordenou que todos os judeus fossem batizados a força.
Após este período de perseguições religiosas, a
chegada à Espanha dos árabes do Norte da África chefiados
por Tariq, através do Estreito Gibraltar que o homenageia, os judeus
ibéricos puderam outra vez respirar. Os muçulmanos conquistaram
com grande rapidez a maior parte da Espanha, obrigando os cristãos a
se refugiarem no norte.
Começa então o que ficou conhecida como a Idade de Ouro do judaísmo
espanhol. Diz Yerushalmi: "Devo enfatizar que a maioria das esferas da
criatividade judaica na Espanha - a Halachá (jurisprudência),
poesia, filosofia, exegese bíblica, gramática - todas iniciaram-se
na Babilônia e no norte da África, mas os judeus espanhóis
as fizeram alcançar novos picos de desenvolvimento e atribuíram-lhes
estilo e característica próprios.
Mas Yerushalmi não se deixa levar pelo romantismo das propagadas cordiais
relações entre judeus, cristãos e muçulmanos na
Espanha: "Todavia, a 'Idade de Ouro' da cultura não foi tão
'dourada', o quadro de uma tolerância absoluta e compreensão mútua
na Espanha muçulmana é um mito que herdamos de historiadores judaicos
do século 19". A visão da insegurança judaica veio
do poeta Iehuda Halevi, que escreveu: "Haverá para nós, no
Oriente ou no Ocidente, um lugar de esperança, no qual possamos acreditar?"
A Expulsão e a nova conversão forçada dos judeus vai ocorrer
em 1492, no final do qual Fernando e Isabel completam a Reconquista,
vencendo em Granada a última fortaleza muçulmana em solo ibérico.
1492 é, portanto, um ano de pelo menos três grandes eventos: a
Reconquista, a Expulsão dos judeus da Expanha e a Descoberta da América.
Para Yerushalmi, a diáspora sefardita não se iniciou com a Expulsão
em 1492. Teve início aproximadamente um século antes, com os massacres
de 1391. Na época da expulsão, já haviam comunidades judaicas
de origem espanhola no norte da África, Egito, Turquia, Balcãs
e mesmo em Israel.
Durante a expulsão da Espanha, Portugal ainda estava aberto aos judeus,
mediante o pagamento de certas taxas. Muitos refugiados fixaram-se em terras
lusas. Cinco anos mais tarde, em 1497, o rei Manoel, sob influência da
Coroa espanhola, vai decretar a total conversão dos judeus de Portugal.
Poucos conseguiriam fugir. A maioria torna-se cristã por decreto. É
a partir daí que o fenômeno do cripto-judaísmo vai entrar
em cena, marcando gerações de descendentes de judeus.
Outra tese do historiador estadunidense é a de que a partir dos vínculos
familiares e religiosos entre os sefarditas espalhados pela Europa, América,
África e Ásia terá início uma nova forma de relação
comercial e econômica, não somente entre os judeus, como no comércio
em geral. Seria o início do que chamamos hoje de Aldeia Global. Como
cita Yerushalmi, o primeiro escrito teórico dos trabalhos em uma Bolsa
de Valores foi escrito em espanhol, no século XVII, pelo judeu de Amsterdam
Joseph Penso de la Vega, sob o título de Confusión de Confusiones.
Notas:
1) Ed. Imago.
2) Heresia cristã do bispo Arius.