MEMÓRIA / CÉSAR KHAFIF
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 023 - Março/1999
Alepo, o Éden perdido
        O nome árabe de Alepo é Halab. Os judeus da Idade Média a chamavam de Aram Zobá. Sua população atual é de aproximadamente 600 mil pessoas, o que a faz ser a segunda maior cidade síria. Segundo dados do Beth Hatefutsoth (Museu da Diáspora Judaica), em 1976 viviam 1.200 judeus nesta cidade, concentrados nos bairros de Bahsita e Jamiliya. Mas Alepo já teve muito mais judeus em outros tempos, quando poderia ser comparada à época de ouro de outras "cidades judaicas" da Diáspora: Babilônia, Alexandria, Córdoba, Amsterdã e Salônica. Com a criação do Estado de Israel (1948) e o crescimento do nacionalismo árabe, a situação de vida para os judeus na Síria foram se tornando inviáveis e a maioria deles buscou asilo em outros países. Nos anos 50 o Brasil recebeu muitos dos judeus alepinos.
        Um deles é o empresário César Khafif, que entrevistamos em seu apartamento em Higienópolis. Radicado desde 1959 em São Paulo, Khafif fala um pouco da história desta antiga cidade do Oriente Médio. Colaborou também com as informações desta reportagem, sua mãe, Linda Nehmad Khafif.
        Khafif e sua mãe explicam que no apogeu da vida judaica em Alepo, no início deste século, viviam ali 70 mil judeus. A principal razão apontada por preferirem Alepo, à capital, Damasco, é que a primeira tinha uma forte tradição comercial, além de ali habitar judeus desde a época do rei David, cerca do século 9 a.C.
        Segundo os dados do Beth Hatefutsoth, os judeus chegaram a Alepo uns dois séculos mais tarde. Há uma inscrição numa sinagoga local que remonta ao ano 834 a.C. Em 921, o sábio Saadia Gaon fundou academias judaicas em Alepo e no século XII a comunidade alepina manteve contatos com a grande ieshivá (seminário rabínico) de Bagdá e com o filósofo espanhol Moshe ben Maimon.
        Outros judeus espanhóis se estabeleceram definitivamente em Alepo no século XVI, após o decreto da Expulsão dos reis católicos Fernando e Isabela. Mais tarde, chegaram também judeus de Portugal, França e Itália, cujos descendentes em Alepo ou em várias partes do mundo, até hoje levam consigo esta herança latina, presente em muitos sobrenomes (Lisbona, Silvera, Picciotto). Depois da Primeira Guerra Mundial, a comunidade judaico-síria começou a se dispersar, mas, como conta Khafif, foi em novembro de 1947 que a população judaica de Alepo ficou reduzida a poucos milhares.
        As causas deste êxodo são fáceis de se explicar. Neste ano aconteceu a Partilha da Palestina pela ONU, prenunciando o renascimento do Estado de Israel seis meses depois. "Quando foi decretada a Partilha, já no dia seguinte os sírios queimaram todas as nossas sinagogas. Tivemos uma 'Noite de Cristal'(1) na Síria, que infelizmente não é lembrada. Na ocasião, cerca de 130 instituições judaicas e lojas de judeus foram destruídas", explica César Khafif. Detalhe: apesar desta violência material, nenhum judeu foi morto. Khafif e sua mãe narram um episódio em que os sírios arrastaram à força para fora da sinagoga um rabino, antes de atear fogo ao templo.
        Os entrevistados explicam que antes da criação do moderno Israel e da Questão Palestina, os judeus estavam muito bem integrados na Síria. Não havia discriminação, ocupavam cargos importantes no governo e até as leis do país colaboravam para a comemoração das chaguim (festas judaicas). Uma dessas leis, por exemplo, proibia a realização de concurso público nos Shabat e feriados judaicos.
        A partir de 1948 a situação dos judeus sírios mudou drasticamente. Muitos conseguiram sair do país nos primeiros dias após a Partilha, pois os sírios não esperavam uma fuga tão rápida dos judeus. Com as fronteiras vigiadas e a restrição de vistos de saída para o Exterior a todos os membros de uma mesma família, a emigração judaica praticamente se extinguiu, motivada basicamente pelo boicote dos países árabes contra Israel.
        A Síria é um dos principais países que não admitem uma solução diplomática para o conflito árabe-israelense. Dois indicadores desta política de linha-dura nos últimos 25 anos são: a Síria foi a última nação a assinar o acordo de separação de forças no Sinai (Genebra, 1974), e não quis dar sua aprovação ao acordo de separação de forças egípcio-israelense assinado em 1975. Os atritos entre Síria e Israel quase levaram os dois países a um conflito militar em 1981, quando os sírios instalaram mísseis terra-ar no vale libanês de Bekaa, levando os israelenses a invadir o Líbano no ano seguinte.
        O Relatório da Anistia Internacional dá conta que três soldados israelenses (Zachary Baumel, Zvi Feldman e Yehuda Katz), desaparecidos em 1982, se estiverem vivos, estariam sob custódia síria. O mesmo relatório informa sobre muitas denúncias de torturas aos presos políticos sírios, libaneses e palestinos de Hafez Assad, presidente-ditador entre 1971 a 2000, ano de seu falecimento.
        O historiador Júlio José Chiavenato, em seu livro O Inimigo Eleito(2), conta que em 1976 e 1977 vários judeus foram mortos ao tentarem fugir da Síria. "Depois de 1977 só podiam sair da Síria a negócios, mesmo assim deixando um grande depósito em 'garantia'."
        César Khafif declara ter poucas informações sobre a comunidade judaico-síria atual. "Ultimamente, tenho ouvido falar que os últimos judeus estão vivendo bem na Síria, mas não podem emigrar". Conta ainda que certa vez viajava com a família de Atenas para a Suíça, em um avião da Swissair que provinha da Síria. Quando serviram a refeição, notou que um dos passageiros comia comida casher. Falando em árabe com ele, descobriu que se tratava de um médico judeu de Damasco, que por ter amigos no Governo sírio, teve licença para sair temporariamente.
        Anos atrás, em Paris, o Comitê Internacional em Favor da Liberdade da Minoria Judia da Síria promoveu um encontro com importantes políticos, intelectuais, artistas e eclesiásticos franceses, quando discutiram a situação dos cinco mil judeus que ainda viviam na Síria. As principais conclusões foram as seguintes: organizar uma campanha entre as nações livres, para que estas pressionem a Síria a permitir a emigração judaica e apelo à Declaração Universal dos Direitos Humanos para que houvesse um fim às perseguições contra os judeus impedidos de sair do país.
        O que estaria levando o governo sírio, semelhantemente ao governo soviético do tempo dos refuseniks, a impedir a saída dos judeus de seus países? A filósofa Hannah Arendt aponta algumas explicações no ensaio Anti-semitismo, Instrumento de Poder. Arendt conclui que certos sistemas econômicos usam os judeus para sua evolução às custas do povo, que os identifica como o bode expiatório que tira a culpa dos verdadeiros criminosos.
        Na década de 1990, após muita pressão dos governos ocidentais e duras negociações, Hafez Assad permitiu a saída da maioria dos judeus da Síria. Assim, praticamente chegou ao fim a história da vida judaica em Alepo, um dos capítulos mais fascinantes da história do povo judeu.

Notas:
1) Alusão à Kristal Nacht, quando os nazistas depredaram as lojas dos judeus na Alemanha, em 1939.
2) Ed. Mercado Aberto. Porto Alegre. 1985.

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