O nome árabe de Alepo é Halab. Os judeus
da Idade Média a chamavam de Aram Zobá. Sua população
atual é de aproximadamente 600 mil pessoas, o que a faz ser a segunda
maior cidade síria. Segundo dados do Beth Hatefutsoth (Museu da Diáspora
Judaica), em 1976 viviam 1.200 judeus nesta cidade, concentrados nos bairros
de Bahsita e Jamiliya. Mas Alepo já
teve muito mais judeus em outros tempos, quando poderia ser comparada à
época de ouro de outras "cidades judaicas" da Diáspora:
Babilônia, Alexandria, Córdoba, Amsterdã e Salônica.
Com a criação do Estado de Israel (1948) e o crescimento do
nacionalismo árabe, a situação de vida para os judeus
na Síria foram se tornando inviáveis e a maioria deles buscou
asilo em outros países. Nos anos 50 o Brasil recebeu muitos dos judeus
alepinos.
Um deles é o empresário César Khafif, que entrevistamos
em seu apartamento em Higienópolis. Radicado desde 1959 em São
Paulo, Khafif fala um pouco da história desta antiga cidade do Oriente
Médio. Colaborou também com as informações desta
reportagem, sua mãe, Linda Nehmad Khafif.
Khafif e sua mãe explicam que no apogeu da vida
judaica em Alepo, no início deste século, viviam ali 70 mil
judeus. A principal razão apontada por preferirem Alepo, à capital,
Damasco, é que a primeira tinha uma forte tradição comercial,
além de ali habitar judeus desde a época do rei David, cerca
do século 9 a.C.
Segundo os dados do Beth Hatefutsoth, os judeus chegaram
a Alepo uns dois séculos mais tarde. Há uma inscrição
numa sinagoga local que remonta ao ano 834 a.C. Em 921, o sábio Saadia
Gaon fundou academias judaicas em Alepo e no século XII a comunidade
alepina manteve contatos com a grande ieshivá (seminário
rabínico) de Bagdá e com o filósofo espanhol Moshe ben
Maimon.
Outros judeus espanhóis se estabeleceram definitivamente
em Alepo no século XVI, após o decreto da Expulsão dos
reis católicos Fernando e Isabela. Mais tarde, chegaram também
judeus de Portugal, França e Itália, cujos descendentes em Alepo
ou em várias partes do mundo, até hoje levam consigo esta herança
latina, presente em muitos sobrenomes (Lisbona, Silvera, Picciotto). Depois
da Primeira Guerra Mundial, a comunidade judaico-síria começou
a se dispersar, mas, como conta Khafif, foi em novembro de 1947 que a população
judaica de Alepo ficou reduzida a poucos milhares.
As causas deste êxodo são fáceis de
se explicar. Neste ano aconteceu a Partilha da Palestina pela ONU, prenunciando
o renascimento do Estado de Israel seis meses depois. "Quando foi decretada
a Partilha, já no dia seguinte os sírios queimaram todas as
nossas sinagogas. Tivemos uma 'Noite de Cristal'(1) na Síria, que infelizmente
não é lembrada. Na ocasião, cerca de 130 instituições
judaicas e lojas de judeus foram destruídas", explica César
Khafif. Detalhe: apesar desta violência material, nenhum judeu foi morto.
Khafif e sua mãe narram um episódio em que os sírios
arrastaram à força para fora da sinagoga um rabino, antes de
atear fogo ao templo.
Os entrevistados explicam que antes da criação
do moderno Israel e da Questão Palestina, os judeus estavam muito bem
integrados na Síria. Não havia discriminação,
ocupavam cargos importantes no governo e até as leis do país
colaboravam para a comemoração das chaguim (festas judaicas).
Uma dessas leis, por exemplo, proibia a realização de concurso
público nos Shabat e feriados judaicos.
A partir de 1948 a situação dos judeus sírios
mudou drasticamente. Muitos conseguiram sair do país nos primeiros
dias após a Partilha, pois os sírios não esperavam uma
fuga tão rápida dos judeus. Com as fronteiras vigiadas e a restrição
de vistos de saída para o Exterior a todos os membros de uma mesma
família, a emigração judaica praticamente se extinguiu,
motivada basicamente pelo boicote dos países árabes contra Israel.
A Síria é um dos principais países
que não admitem uma solução diplomática para o
conflito árabe-israelense. Dois indicadores desta política de
linha-dura nos últimos 25 anos são: a Síria foi a última
nação a assinar o acordo de separação de forças
no Sinai (Genebra, 1974), e não quis dar sua aprovação
ao acordo de separação de forças egípcio-israelense
assinado em 1975. Os atritos entre Síria e Israel quase levaram os
dois países a um conflito militar em 1981, quando os sírios
instalaram mísseis terra-ar no vale libanês de Bekaa, levando
os israelenses a invadir o Líbano no ano seguinte.
O Relatório da Anistia Internacional dá conta
que três soldados israelenses (Zachary Baumel, Zvi Feldman e Yehuda
Katz), desaparecidos em 1982, se estiverem vivos, estariam sob custódia
síria. O mesmo relatório informa sobre muitas denúncias
de torturas aos presos políticos sírios, libaneses e palestinos
de Hafez Assad, presidente-ditador entre 1971 a 2000, ano de seu falecimento.
O historiador Júlio José Chiavenato, em seu
livro O Inimigo Eleito(2), conta que em 1976 e 1977 vários judeus
foram mortos ao tentarem fugir da Síria. "Depois de 1977 só
podiam sair da Síria a negócios, mesmo assim deixando um grande
depósito em 'garantia'."
César Khafif declara ter poucas informações sobre a comunidade
judaico-síria atual. "Ultimamente, tenho ouvido falar que os últimos
judeus estão vivendo bem na Síria, mas não podem emigrar".
Conta ainda que certa vez viajava com a família de Atenas para a Suíça,
em um avião da Swissair que provinha da Síria. Quando serviram
a refeição, notou que um dos passageiros comia comida casher.
Falando em árabe com ele, descobriu que se tratava de um médico
judeu de Damasco, que por ter amigos no Governo sírio, teve licença
para sair temporariamente.
Anos atrás, em Paris, o Comitê Internacional
em Favor da Liberdade da Minoria Judia da Síria promoveu um encontro
com importantes políticos, intelectuais, artistas e eclesiásticos
franceses, quando discutiram a situação dos cinco mil judeus
que ainda viviam na Síria. As principais conclusões foram as
seguintes: organizar uma campanha entre as nações livres, para
que estas pressionem a Síria a permitir a emigração judaica
e apelo à Declaração Universal dos Direitos Humanos
para que houvesse um fim às perseguições contra os judeus
impedidos de sair do país.
O que estaria levando o governo sírio, semelhantemente
ao governo soviético do tempo dos refuseniks, a impedir a saída
dos judeus de seus países? A filósofa Hannah Arendt aponta algumas
explicações no ensaio Anti-semitismo, Instrumento de Poder.
Arendt conclui que certos sistemas econômicos usam os judeus para sua
evolução às custas do povo, que os identifica como o
bode expiatório que tira a culpa dos verdadeiros criminosos.
Na década de 1990, após muita pressão
dos governos ocidentais e duras negociações, Hafez Assad permitiu
a saída da maioria dos judeus da Síria. Assim, praticamente
chegou ao fim a história da vida judaica em Alepo, um dos capítulos
mais fascinantes da história do povo judeu.
Notas:
1) Alusão à Kristal Nacht, quando os nazistas depredaram
as lojas dos judeus na Alemanha, em 1939.
2) Ed. Mercado Aberto. Porto Alegre. 1985.