LIVRO
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 024 - Abril/1999
Dom Pedro II na Terra Santa
        O professor Reuven Faingold nasceu na Argentina em 1957. Em 1976 viajou a Israel onde realizou seus estudos universitários, obtendo o B.A, M.A e PhD nos departamentos de História e História Judaica da Universidade Hebraica de Jerusalém. Foi sob a orientação do professor Haim Beinart que defendeu suas teses de mestrado e doutorado sobre a história dos judeus em Portugal durante a Inquisição.
        Chegando a São Paulo, outros temas despertaram sua curiosidade, entre eles assuntos relacionados com a história dos judeus no Brasil, principalmente durante o reinado do Imperador Dom Pedro II. Faingold tem 25 trabalhos publicados (70% deles em hebraico) abordando diferentes tópicos, como: a imagem do judeu e do converso na literatura portuguesa, judeus nas cortes ibéricas, judeus e magia, médicos cristãos-novos, judeus e xadrez na idade média, e a genealogia do pugilista judeu Daniel Mendoza (1764-1836).
        Recentemente, concluiu seu primeiro livro no Brasil intitulado Dom Pedro II na Terra Santa lançado pela editora Sêfer. Trata-se de uma pesquisa bem documentada sobre a viagem de Dom Pedro II à Palestina em 1876. Para falar sobre esta obra Faingold nos concedeu com exclusividade a seguinte entrevista:
        Como brasileiro gostaria de saber qual era a imagem de Dom Pedro II fora do Brasil, naquele século XIX caracterizado pelo espírito romântico?
        Dom Pedro II foi uma figura ímpar, o rei-filósofo era um monarca fora dos padrões daquela época. Amado e elogiado, criticado e censurado, o imperador do Brasil era um homem extremamente culto, uma personalidade singular que merece um lugar de destaque na galeria dos grandes vultos do século XIX. Gostaria de ilustrar esta afirmação com algumas frases proferidas por ilustres contemporâneos de Dom Pedro.
        Na opinião do escritor Victor Hugo, Dom Pedro era "o neto de Marco Aurélio" ou seja a perfeição dos imperadores; e para o primeiro-ministro da Inglaterra vitoriana, sir William Gladstone: "Dom Pedro II é um modelo para todos os soberanos do mundo, pelo seu zelo no cumprimento do seus altos deveres..., é o que definiríamos como um bom soberano, um exemplo e uma bênção para sua nação". O compositor Carlos Gomes, autor da ópera O Guarani (1870), certa vez admitiu publicamente: "se não fosse o imperador, eu não seria Carlos Gomes".
        A lista de personalidades que o reverenciaram é realmente extensa, e acho difícil (até injusto) escolher um único personagem, e por meio dele, tentar sintetizar a eloqüente figura de Dom Pedro II. Basta apenas citar os nomes do biólogo Charles Darwin, do escritor americano Henry Longfellow, do cientista Louis Pasteur, do músico e compositor Richard Wagner e do poeta italiano Alexandre Manzoni, entre os que o elogiaram.
        Por que estudar Dom Pedro II quando existem biografias bastante detalhadas sobre este personagem?
        Concordo plenamente com você que existem biografias minuciosas sobre a vida e obra do imperador, e basta folhear as obras de Pedro Calmon e Heitor Lyra. Inclusive, há poucos meses foi lançado um belo livro que procurou dar uma nova interpretação à figura de Dom Pedro II e a seu tempo. Trata-se de uma leitura iconográfica realizada por Lilia Moritz Schwarcz no livro As Barbas do Imperador editado pela Companhia das Letras. No entanto, nenhum destes volumosos livros analisa a relação (quase umbilical) que teve o monarca com o hebraico, com a Bíblia, com o judaísmo e com os judeus. Todos os autores acima mencionados não aprofundam esta relação. É precisamente este tema, seu filosemitismo, seu hebraísmo, que mencionei no meu livro Dom Pedro II na Terra Santa e ainda abordarei numa futura pesquisa sobre o círculo de judeus que colaboraram durante o segundo Império no desenvolvimento de nosso país.
        Como surgiu a idéia de estudar a viagem de Dom Pedro II à Terra Santa?
        Devo confessar que nunca pensei que algum dia iria estudar este assunto, mas as coisas acabam acontecendo. Tudo começou em 23 de agosto de 1995 quando a revista VEJA informou da existência de um belo manuscrito da Torá que se encontrava na Quinta da Boa Vista (hoje Museu Nacional) no Rio de Janeiro. Naquela ocasião, fui enviado pela Casa de Cultura de Israel para avaliar o manuscrito, pois seria interessante, num futuro, expor o dito "Pentateuco" ao grande público. Através de leituras, sabia que Dom Pedro II havia visitado a Palestina em 1876, e havia relatado sua visita nos diários 18 e 19.
        Do Museu Nacional, enquanto examinava os 24 metros do antigo Pentateuco, telefonei a Petrópolis e perguntei se na biblioteca do Museu Imperial constava o "Diário de Dom Pedro à Palestina". Meu pressentimento não falhou. Logo solicitei me enviassem a São Paulo um xerox do material. A minha alegria foi indescritível. Em pouco mais de um semana o "Diário de Dom Pedro II à Palestina" estava na minha mesa de trabalho.
        Durante quase três anos estudei a palpitante visita de Dom Pedro II à Terra de Israel. Eu diria que foram três anos de enriquecimento pessoal. Uma viagem nos labirintos da História.
        Quais as dificuldades que encontrava um peregrino que deixava o Brasil para visitar a Palestina em 1876?
        Comparemos por um instante, uma viagem realizada por um governante brasileiro hoje e naquela época. Em primeiro lugar, os meios de transporte eram outros: no século XIX não existiam aviões nem agências de turismo para orientar os peregrinos. A viagem, programada com a devida antecedência, era de navio e durava meses. Para ter uma idéia, Dom Pedro II visita o Oriente em 1876 como parte de sua segunda grande viagem ao exterior, cujo principal objetivo era participar de uma Exposição em Filadélfia com motivo do Centenário da Independência dos Estados Unidos.
        Esta segunda viagem ficou memorável pela repercussão amistosa que teve na imprensa internacional e pelo episódio com o inventor do telefone, Graham Bell. Durante 540 dias (18 meses) Sua Majestade visitou os Estados Unidos, Escandinávia, Rússia, e o exótico Levante composto por Líbano, Síria e Palestina. Vocês podem imaginar o nosso atual presidente da República ausentar-se por um período de 540 dias do Brasil?
        Em segundo lugar, as viagens eram perigosas e demoradas. Longe do conforto e da mordomia do Rio de Janeiro ou Petrópolis, o percurso dos peregrinos brasileiros era feito a pé. As mulheres, damas de honra e criadas, viajavam em liteiras conduzidas por mucres ou criados de caravana. A tração humana não garantia nenhuma estabilidade, muito menos tratando-se de trajetos feitos através de relevos montanhosos. As liteiras serviam também para transportar doentes. Os burros e cavalos também tinham dificuldades para galopar. Tanto as liteiras como os animais não suportavam as quedas.
        E, finalmente, as paradas para repor energias deviam ser obrigatórias, já que pela noite era proibido viajar por medo a ataques de beduínos que habitavam a região. Como podemos observar, transportar uma expedição de 200 pessoas por terra e mar, como fez a comitiva imperial brasileira em 1876, não era uma tarefa fácil.
        Que lugares visitou Dom Pedro II e sua comitiva durante a estadia na Terra Santa? Poderia descrever o roteiro percorrido pelo monarca?
        O livro Dom Pedro II na Terra Santa está organizado por episódios que acontecem em diferentes lugares visitados pelo Imperador. Se imaginamos um mapa do Oriente Médio (Faingold abre um mapa da Palestina), a comitiva parte do porto de Beirute, chega à antiga Baalbeck, para depois visitar Damasco (inclusive os bairros judaicos). Poucos dias passam, e Dom Pedro II se encontra com seu guia - o franciscano belga Frei Liévin de Hamme - a fim de percorrer os lugares mais recônditos da Terra Santa, a saber: o monte Hermon, a região do Lago Genezaré (Tiberíades, Safed e Nazaré), logo desce em direção à Samaria para conhecer a sinagoga dos judeus samaritanos em Nablus. De lá fica próxima a eterna Jerusalém, o Monastério de Saint Sabbas, o Mar Morto e a bíblica Jericó, para logo voltar à Jerusalém. De Jerusalém se faz obrigatória uma rápida visita a Belém e suas redondezas. Finalmente, via Latrûm-Ramle-Lydda (Lod), o séquito retorna ao precário porto de Jaffa, onde já esperava o navio Aquila Imperial para continuar rumo a Port Said, no Egito.
        Os numerosas desenhos (em bico de pena) que ilustram o livro ajudam a recriar as belas paisagens palestinenses. Podemos afirmar com certa segurança, que os 24 dias em que Dom Pedro II fica na Palestina, simbolizam um sonho acalentado durante toda uma vida: realizar uma viagem de devoção à Terra Santa.
        Na sua opinião, quais foram os momentos mais emocionantes, mais curiosos da viagem de Dom Pedro II ao Oriente Médio?
        Eu citaria quatro momentos que, na minha modesta opinião, foram os mais pitorescos, os mais curiosos, os mais bonitos, desta viagem de peregrinação à Terra Santa: o primeiro foi o encontro com o emir Abd-El-Kader, líder da revolta árabe na África; o segundo a visita à Jane Ellenborough, uma lady britânica que casou com o cheik (chefe beduíno) Mejuel, morando nas proximidades de Damasco; o terceiro a visita à pequena sinagoga dos judeus samaritanos, e finalmente, a missa realizada no venerado Santo Sepulcro para comemorar seus 51 anos de vida.
        Como todo autor comprometido com seu texto, fica difícil aprofundar esta pergunta. Cada episódio mencionado é um capítulo interessante, e vale a pena acompanhar o relato inteiro com muita atenção pelo grande número de detalhes.
        Que perfil de Dom Pedro II retrata o "Diário da Viagem à Palestina"?
        Tenho a impressão que este "Diário" pessoal é diferente de outros, pois ele nos apresenta um perfil diferente de imperador. Cabe lembrar que trata-se de uma visita não oficial. O dignitário brasileiro não foi convidado pelo governo otomano. É uma visita de um simples cidadão, sem dúvida o mais importante de todos: Pedro de Alcântara. Eu diria que não existe um único perfil de Dom Pedro II. Há no texto vários Dom Pedros ou Pedros de Alcântara: o Pedro arqueólogo, o Pedro orientalista, o Pedro misericordioso preocupado com a fraca educação cristã no Oriente, há o Pedro obsessivo por traduzir a Bíblia; o Pedro devoto peregrino, dono de uma forte religiosidade... e assim por diante.
        De que forma você resumiria, talvez numa frase, o seu estudo sobre o "Diário de Viagem de Dom Pedro II à Palestina"?
Isto é praticamente impossível. Você pode reduzir três anos de pesquisa numa única frase? Peço-lhe apenas que me permita ler (para logo reproduzir por escrito na entrevista) um trecho de meu livro, que na minha opinião, pode chegar a sintetizar o estudo realizado. (A seguir, o professor passa a ler o texto do livro):
        "E nós, já no fim desta introdução... fechamos nossos olhos fascinados, e vemos marchar vagarosamente a caravana imperial, liderada pelo seu mais alto dignitário. Uma égua branca como a neve dos cimos do Monte Hermon, galopa firme nas férteis estepes de Moab. Ele (Dom Pedro II) encabeça uma comitiva de 200 indivíduos, todos alinhados como soldados de uma escolta rigorosamente selecionada. Era a primeira visita de um governante brasileiro à Terra Santa, sem dúvida, uma inesquecível viagem no túnel do tempo".
        Quais os seus planos para o futuro? Que temas abordará nas suas próximas pesquisas? Qual seu próximo livro?
        Para 1999, pretendo estudar dois assuntos diferentes: o primeiro será um trabalho sobre o círculo de judeus que influenciaram Dom Pedro II e se relacionaram com sua corte; o segundo será uma pesquisa sobre a vida de um converso do século XVII, que por livre e espontânea vontade decide escrever um texto de caráter "anti-judaico" contra seus próprios correligionários.
        Este último livro desvendará um personagem desconhecido, e acredito que seu conteúdo será bastante polêmico. Tenho grande interesse também em traduzir ao português uma coletânea de artigos que já publiquei no passado em revistas especializadas, sobre judeus e cristãos-novos em Portugal. Tudo vai depender das verbas disponíveis para concretizar cada um destes projetos.
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