ENTREVISTA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 031 - Novembro/1999
Hélio Bobrow: dos Beatles à Hebraica
        Advogado de carreira e com um amplo currículo de serviços prestados para a comunidade, Hélio Bobrow torna-se um dos mais jovens presidentes da Hebraica-SP, a maior entidade judaica brasileira. Nesta entrevista concedida com exclusividade à JUDAICA em seu escritório numa rua tranqüila de Higienópolis, o ativista antecipa seus planos administrativos e revela detalhes curiosos de sua juventude, como participação em grupos de rock e como foi viver a era hippie da contestatória geração paz e amor.
        Ser um líder jovem e assumir a presidência da Hebraica-SP é para você uma vantagem ou uma desvantagem e um desafio?
        Obrigado pela designação de "líder jovem", embora eu já esteja atuando na comunidade há pelo menos 20 anos. Hoje com 45 anos eu me sinto preparado para absorver este encargo na presidência da Hebraica. Não vejo como desvantagem, pelo contrário. Pelo meu conhecimento eu me sinto com muitas vantagens. Há muitos anos estou me preparando para isso.
        Vamos entrar em alguns assuntos mais espinhosos, ou seja, em algumas questões mais complicadas que o associado sempre questiona. Por exemplo, o valor da mensalidade no clube...
        A Hebraica tem mantido um padrão de mensalidade até abaixo dos demais clubes congêneres da Zona Sul, pelo que a entidade oferece. No próximo ano não vai haver aumento de mensalidade. A gente está realmente trabalhando neste sentido. Só para se ter uma idéia, o orçamento da Hebraica no próximo ano será de R$ 26 milhões e já temos de saída com despesas em folha de pagamento, encargos, impostos e manutenção a soma de R$ 24 milhões.
        Com esta pequena sobra é que iremos trabalhar com novos projetos, como uma sala perfeita de ginástica olímpica. Compramos o terreno da Gabriel Monteiro da Silva com a Ibiapinópolis e vamos consultar o associado o que ele deseja que ali seja construído. Nós não estamos trazendo um ônus maior para o associado, muito pelo contrário.
        Seria muito importante aproveitar a oportunidade para explicar as diferenças entre parcerias, como a com o BankBoston, e concessões comerciais no clube?
        A parceria da Hebraica com o BankBoston é uma comunhão de interesses bom para ambas as partes, na qual nosso clube não está cedendo absolutamente nada além da instituição financeira usar a sua imagem na Hebraica, que por seu lado recebe uma verba importante que é aplicada em projetos culturais.
        Quanto às concessões, dentro da Hebraica ela funciona em outro nível, como com os restaurantes casher e o japonês, o Spa, o Amor aos Pedaços, o MacDonald's e outros. A gente sede em comodato os espaços e estes concessionários prestam serviços ao clube, supervisionados por uma Diretoria, que exige serviços corretos e preços abaixo do mercado.
        Em sua visão de presidente e de ativista comunitário, e dentro o exercício da democracia, você acha que falta uma oposição efetiva à legenda da situação na Hebraica?
        Bom, eu como homem democrático acho que toda a unanimidade é burra, como já dizia Nelson Rodrigues. Na verdade a oposição é sadia. Ela fiscaliza, fica em cima, controla. O que acontece hoje, analisando friamente porque falta uma oposição no clube, sem querer ser piegas, é que as Diretorias que têm se sucedido, estão fazendo um trabalho tão importante de unidade, dentro do conceito do quadro associativo, que dificilmente você vai encontrar alguma discussão mais profunda.
        As idéias são trazidas ao Conselho, que as aprova ou não. Ultimamente, o Conselho sob a presidência do Beirel Zuckerman tem se mantido um pouco mais crítico. Mas de um modo geral, a Diretoria tem apresentado um trabalho tão envolvente que é muito difícil alguém se opor àquilo que está dando certo.
        Meu caro amigo Hélio, eu acho que uma oposição deve existir sim quando haver idéias divergentes, projetos distintos daqueles desenvolvidos por quem está no comando. Há 25 anos não existe oposição política na Hebraica. Por um lado é ruim porque está faltando aquele ping pong que deve existir numa democracia, mas também demonstra que o caminho escolhido é o correto e que a maioria assim também pensa.
        Agora que você assume a presidência, qual vai ser a sua linha mestra de trabalho na Hebraica?
        Como eu já venho atuando em algumas gestões, nossa linha de trabalho vai ser uma continuação daquilo que já vínhamos realizando. Nossa equipe de trabalho é muito coesa e afinada, e ainda estamos trazendo novos elementos que também conhecem muito o clube.
        Vamos trabalhar especialmente algumas grandes metas, como atrair mais o associado para o clube, especialmente o associado jovem. Precisamos aumentar as atividades da educação não-formal, que é um dos pilares da Hebraica, em projetos como o Hebraikeinu, a Oficina das Artes, o Meidá, a Escola de Esportes e outros.
        Qual o papel da Hebraica no contexto geral da comunidade judaica?
        Ela tem um papel fundamental, pois é a maior entidade judaica do Brasil e uma das maiores do mundo, congregando cerca de 29 mil pessoas. O presidente da Hebraica se torna, na verdade, um embaixador da comunidade. Ao lado de outras importantes entidades (a Fisesp, a Conib, a Chevra Kadisha, o Hospital Albert Einstein, o Fundo Comunitário...) a Hebraica exerce um papel muito importante como centro comunitário.
        Vamos falar agora mais do Hélio Bobrow pessoa física. Qual foi a sua formação judaica?
        Estudei desde o jardim de infância no Renascença-Bom Retiro, onde nasci. Tive uma formação judaica excelente. Leio, escrevo e falo razoavelmente bem o hebraico. Acho importante o judeu manter suas raízes. Em casa minha mãe sempre acendeu as velas de Shabat, ela só não obrigou os filhos a serem ortodoxos, ela deixou que a gente tivesse a liberdade da escolha, mas todas as festas e valores judaicos foram muito cultivados.
        Aliás, eu acho que a comunidade deveria concentrar mais esforços na parte educativa. Se você não tem a base, não se consegue construir um edifício. Se constrói, ele cai.
        A raiz de meu judaísmo veio de casa, mas ele foi sendo lapidado na escola.
        Seus pais nasceram em quais países?
        Minha mãe Dora (Gryner de solteira) nasceu na Polônia. Meu pai Henrique é de origem russa. Ambos vieram muito novos para o Brasil.
        Você expressa bem o homem judeu que reúne na personalidade a tradição judaica e ao mesmo tempo tem a cabeça aberta para o mundo. Como você vê isso?
        Eu procuro manter esses valores judaicos num contexto moderno. É como se fosse uma lei. Uma lei que é criada há 20 anos, com a alteração dos costumes, precisa sofrer adaptações. Esta lei não precisa ser mudada. O que tem de mudar é a interpretação.
        Os mandamentos são imutáveis, mas as pessoas evoluem. Então você aprende a interpretar a lei de forma mais moderna. Ocorre o mesmo com os conceitos científicos. A cada vez é preciso estar aprimorando para descobrir novas coisas.
        Em algumas conversas, notei que você se refere com muito carinho e admiração a um de meus mestres, o Dr. Elias Lipiner (z.l.). O que você teria a dizer sobre esta pessoa tão querida?
        Eu tive o privilégio de conhecê-lo. Lipiner foi um dos intelectuais mais importantes de nosso século, dentro do resgate da nossa cultura, fazendo pesquisas sobre os judeus convertidos pela Inquisição. Ele foi um exemplo para mim, inclusive enquanto profissional. Tive o prazer de trabalhar com ele no início de minha carreira advocatícia, dividindo um conjunto na Avenida Ipiranga.
        Guardo com muito carinho em casa os seus livros que ele me dedicou. É um homem que deixa saudades.
        Quais as principais diferenças da jovem geração de seu tempo com os jovens atuais, no contexto da comunidade?
        Eu acho que os conceitos de liderança somente estão sendo questionados agora. Durante anos e anos eles se mantiveram os mesmos. Os nossos avós que vieram da Europa, de guerras, eles investiram muito na parte cultural dos filhos, na escola, na universidade.
        Obviamente isso demanda um tempo precioso. Como advogado, eu preciso estar 24 horas por dia tratando de meus clientes. Não posso me dar ao luxo de largar isso na mão de um funcionário para ele tocar como se fosse uma máquina.
Com isso, estão sendo criados cargos para profissionais comunitários, pessoas que estão se formando para exercer atividades no lugar do diretor voluntário, buscando maior eficiência.
        Nos seus 15, 20 anos de idade, o mundo era sacudido por grandes transformações sócio-culturais, de comportamento e contestação estudantil em Paris, Londres, Califórnia, Brasil... Como você viveu este período?
        Minha época foi mágica. Foi a época dos Beatles, dos Rolling Stones, de Bob Dylan... Hoje é a época do Iron Maiden, do Metálica, as bandas de rock pesado que nas suas letras pregam demônios, violência, luta. Esta nova juventude nasce e cresce vendo violência e drogas. É muito mais complicado ser jovem hoje de que foi no meu tempo.
        Fale mais desta época mágica de sua juventude...
        Fui hippie e vivi o auge de Woodstock. Em 1968/69 meu pai me presenteou com uma viagem para a Europa. Fui para Londres e Paris. Assisti a um show memorável do The Purple, tive contato com Jimi Hendrix, Janis Joplin...
        Eu tive uma formação musical clássica. Estudei violino com sete anos, aos dez, 11 anos piano, fui auto-didata no violão. Achei a minha vocação, comecei a tocar e formei várias bandas de rock, como a The Golden Schleppers e a última delas, a Pavo Cristatos, do latim significando Pavão Real, por que na bateria a gente tinha um pavão desenhado, que quando iluminado com as luzes brilhava e dava uma sensação de movimento.
        Posso dizer que só não me tornei um músico profissional, porque bateu para mim aquela questão da responsabilidade da minha identidade como judeu. Isso para mim era mais importante. Mas nunca deixei de tocar. Eu tenho guitarra e amplificador em casa, toco violão, tenho uma coleção de discos muito grande...
        O que significou para sua geração aqueles profetas da modernidade (Dob Dylan, John Lennon, os Beatles, Daniel Cohn -Bendit...), em frases como "How many roads must a man walk down / Before you call him a man?" ou "All you need is love"?
        Eles representavam a contestação ao sistema voltado para o poder. A mídia já começava a questionar os valores. Os jovens tiveram um papel muito importante nisso tudo. A humanidade, de todos os seus celeiros, despontavam líderes. O movimento hippie foi um dos movimentos mais importantes da humanidade, porque ele conseguiu acabar com aquela necessidade do herói que ia morrer na guerra.
        Agora, 30 anos depois, estamos vivendo o mesmo problema, só que a capacidade da atual juventude se insurgir contra o sistema está mais difícil. Hoje há outros valores em xeque, como valor financeiro. Naquele tempo o jovem não estava preocupado com o dinheiro. Hoje os filhos são educados para uma sociedade competitiva, de consumo, onde aquele que tem o dinheiro tem o poder.
        Infelizmente, nem todos podem atingir esta meta, então vemos aí esta guerra urbana que é pior de que a Guerra Fria dos anos 50, 60, 70.
        Eu tenho muita saudade daquela época.

BATE BOLA
Judaísmo: Continuidade, tradição
Israel: Identidade e manutenção do povo judeu
Brasil: Futuro
Um livro: O Processo, de Franz Kafka, me impressionou muito
Um autor: Machado de Assis
Um filme: Taxi Driver
Um diretor: Steven Spielberg
Um país: Estados Unidos
Uma cidade: Paris
Prato predileto: Adoro macarrão
Amizade: As pessoas têm de saber dar e receber. O amigo é aquele que não pode faltar na hora do aperto. Para você sair e se divertir, qualquer um serve. Mas para ajudar você na hora que você realmente está precisando, só o amigo. Os melhores amigos, que nunca vão falhar, são os seus pais.

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