LIVRO
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 039 - Julho/2000
Kadaré evoca Quéops na critica ao totalitarismo
        Até a Segunda Guerra Mundial a Albânia (Shqiperia, ou "terra das águias") era um dos países mais atrasados da Europa e depois de 1945 tornou-se área de influência soviética. Viveu então um dos regimes comunistas mais radicais da experiência socialista. A relativa industrialização, todavia, não projetou o país para o mundo. Pelo contrário, isolou-a ainda mais, quando em 1961 rompeu relações com a URSS.
        Com a queda do Muro de Berlim ventos novos sopraram sobre a Albânia. Um escritor projetou-a internacionalmente: Ismail Kadaré. Nascido em 1936, em Gijrokstër (também conhecida por Girokastra), no sul do país, estudou na Faculdade de Letras de Tirana e no Instituto Górki de Moscou. Seguindo o que fizeram outros intelectuais do Leste europeu (os romenos Eugène Ionesco e Emil Cioram, o lituano Emmanuel Levinas, o checo Milan Kundera, o iogoslavo Danilo Kis, só para citar alguns), Kadaré exilou-se em Paris, a partir de 1990.
        Ao longo da última década sua produção literária tem sido muito fértil, com várias traduções para as principais línguas ocidentais. O talento narrativo acompanhado da notoriedade internacional têm feito de Kadaré um candidato sempre lembrado para o Nobel de Literatura.
        No Brasil, a obra do autor vem sendo publicada pela Companhia das Letras: Dossiê H., Concerto no fim de Inverno, O Palácio dos Sonhos, Abril Despedaçado e, o recém lançado, A Pirâmide (com tradução direta do albanês - o que é um feito por si só - empreendida por Bernardo Joffily).
        Como Kafka em A Muralha da China, Kadaré inspira-se num fato histórico (a grandiosa construção da pirâmide de Quéops, durante a Quarta dinastia dos faraós egípcios) para criar seu romance. Claro, por detrás da alegoria esconde-se a crítica ao regime totalitário albanês.
        Enquanto Kadaré escrevia seu livro, Tirana assistia à construção de um museu em forma de pirâmide para homenagear o octogésimo aniversário de nascimento do líder Enver Hoxha. Foi esta construção faraônica, muito em moda nos regimes socialistas (lembram-se de Nicolae Ceocescu na Romênia?), verdadeiro culto de personalidade, que inspirou a idéia do romance.
        A Pirâmide (Piramida, no original) foi escrita em 1988 e ilustra bem o apagar das luzes da tumultuada experiência socialista daquela pequena república encravada nas montanhas dos Balcãs.
        Assim começa o romance: "Quando, numa manhã de outono, o novo faraó Quéops, entronizado poucos meses antes, disse que talvez não mandasse erguer uma pirâmide para si, aqueles que o ouviram - o astrólogo do palácio e alguns dos ministros mais próximos, o velho conselheiro Uzerkaf e sumo sacerdote Hemiun, que era também o sumo arquiteto do Egito - franziram o cenho como se houvessem escutado uma maldição."
        Aquilo que parecia modéstia por parte da autoridade suprema, escondia na verdade uma falsa modéstia, como se verifica ao longo da narrativa. A pirâmide seria mesmo levantada, não como um fardo aos súditos, mas como um feito glorioso e de inspiração divina: "O faraó Quéops, nosso sol, decidiu incumbir o povo do Egito de uma grande e santa obra, maior que todos os empreendimentos e mais santa que todos os deveres: a construção de sua pirâmide."
        Na metáfora karadeana, política e religião estão de mãos dadas na dominação das mentes, na inspiração do medo diante de castigos físicos e espirituais e na coação para o trabalho escravo.
        Em meio ao árduo labor dos operários-escravos, sob sol abrasador do ressequido deserto da planície de Gizé, nuvens de poeira se adensavam mais e mais. Os curiosos espiavam boquiabertos diante da construção majestosa. Porém, ao crepúsculo, quando os trabalhos terminavam e o pó baixava, o "solo sagrado" - no dizer dos poetas e sacerdotes da corte - tinha a mesma aparência da véspera: um vasto descampado e nada mais.
        Nas entrelinhas do livro, Kadaré descreve a sociedade albanesa dos anos 70 e 80, onde os planos estatais agrícolas distantes da realidade fracassavam. Com o crescimento da fome e da pobreza, a Albânia protagonizou uma das cenas mais surrealistas de toda a história comunista: as autoridades empreenderam o massacre de todos os cães do país, chamados de "animais burgueses que só comem e nada produzem"...
        Rejeitada pelas editoras albanesas, A Pirâmide foi publicada parcialmente pelo jornal oposicionista Rilindja Demokratike em 1990, após o exílio do autor. Com algumas alterações, o romance foi finalmente publicado dois anos depois na Albânia e na França.
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