CRÍTICA LITERÁRIA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 041 - Setembro/2000
Capitu: a mulher entre a submissão e a emancipação
        O maior escritor brasileiro do século XIX (e certamente também um dos melhores escritores da literatura universal), Machado de Assis (1839-1908) atingiu o ápice de sua criação com Dom Casmurro, romance publicado em 1900, e um clássico mundial. Machado de Assis, além de ótimo retratista da sociedade carioca do final do século XIX, consegue neste livro muito além do que os demais romances de época ou de histórias de amor escritos por autores nacionais conseguiram no mesmo período.
        A tônica de Dom Casmurro é a dúvida, não a certeza. Seria a bela Capitu, casada com um homem "de respeito" e bem situado na escala social, uma adúltera? Na minha humilde análise dos protagonistas do livro, após quatro leituras num intervalo de cerca de dezessete anos, estou convencido de que Capitu cometeu ao menos uma relação extra-conjugal com Escobar, amigo do marido, daí resultando o filho Ezequiel.
        Vejamos algumas pistas deixadas pelo próprio narrador, o marido traído, que favorecem esta opinião. A começar pela designação dada a Capitu, moça de "olhos de cigana oblíqua e dissimulada". A idéia que o imaginário popular faz da cigana é de uma mulher cheia de artimanhas, esperta e até mesmo traiçoeira. Se não bastasse tudo o que o termo evoca por si só, o narrador a designa também como "dissimulada".
        Em dado momento, o narrador comenta um caso abafado que o amigo Escobar teve com uma atriz ou bailarina da noite carioca. O comentário, aparentemente corriqueiro, ganha significado no contexto em que é colocado, pois indica uma tendência a aventuras amorosas de Escobar, deduzindo-se daí ser ele um tipo de Dom Juan carioca. Logo em seguida, o narrador registra sua própria tristeza e de Capitu pelo filho que não vinha. Só restava rezar, mas as súplicas demoravam para ser atendidas. Em outro trecho, Capitu conta ao marido Bentinho que Escobar lhe intermediara uma transação financeira, vertendo as economias guardadas por dez libras esterlinas.
        Até então, o marido sequer tinha idéia da poupança guardada por Capitu e, pareceu ficar mais surpreso ainda por ela ter se encarregado da transação com Escobar sem nada lhe dizer. Um dia Capitu engravidou. Logicamente, não era ela estéril, e sim o marido Bentinho. O adultério, esta palavra horrível, parece ser a explicação objetiva de como ficara grávida. E quem seria o amante? Escobar, sem nenhuma dúvida! Em algum momento da amizade do casal com o amigo, este deitara-se com Capitu. Neste momento, surgem outras questões.
        Teria Capitu sido seduzida romanticamente por Escobar ou, mais ousado ainda, teria a própria Capitu dado vazão e incentivado o romance? As duas hipóteses são bastante possíveis. O mais provável, na minha interpretação das entrelinhas do romance, é que no primeiro instante Capitu foi bastante e insistentemente assediada por Escobar. Nesta fase, a jovem senhora se fazia de desentendida. Mas depois, talvez dada à monotonia do casamento e, principalmente à falta do filho, começou a gostar do jogo de sedução e deu margem a fantasias eróticas. Finalmente, Capitu viu em Escobar a chance de ganhar o filho que tanto queria.
        Muito possivelmente, no seu inconsciente, talvez até acreditasse que, mesmo que Bentinho viesse um dia a saber do caso, entenderia os reais motivos que a levaram à relação extra-conjugal e a perdoasse pelo filho que lhe dera. Contra toda convenção social e riscos de rejeição pelo marido, Capitu mostrou-se uma mulher determinada e ousada pelos padrões da época. Foi uma espécie de Chiquinha Gonzaga, a compositora que também teve de vencer todos os preconceitos para impôr seu talento musical no mesmo Rio de Janeiro do final do século XIX.
        Para Capitu, o instinto de maternidade era a força que comandava suas ações. No velório de Escobar (que morreu afogado nadando no mar), em meio à confusão geral, "Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltarem algumas lágrimas poucas e caladas..." Parece que o sentimentos (ou gratidão) dela pelo pai de seu filho era algo muito profundo e naquele instante muitas recordações passaram por sua mente. À medida que o filho Ezequiel crescia, os gestos e modos do menino denunciavam a paternidade de Escobar. A situação foi deixando Bentinho a cada dia mais fora de si. Em sua visão, o adultério de Capitu não tinha explicação e jamais conseguiria perdoá-la. O suicídio impõe-se como solução mais fácil contra os fantasmas que habitam sua mente.
        Um dia Bentinho entra numa farmácia e compra o veneno que daria cabo à sua vida. Passa a andar com o vidro mortífero. Uma noite vai sozinho ao teatro. Coincidentemente, encena-se Otelo, o clássico em que Shakespeare faz o mouro Otelo se intoxicar de ciúmes por um falso adultério da pura Desdemôna e acaba por assassiná-la injustamente. Mas Bentinho tem certeza da culpa de Capitu. Pensa em como acabar com a vida da esposa. Precisaria haver sangue e fogo, "um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção..." Bentinho vaga a noite toda pelas ruas.
        Está corrompido pelo veneno do ódio e atordoado pela sensação de ter sido traído. Traição, esta outra palavra horripilante, também não parece ser o caso da atitude da meiga Capitu. Bentinho chega em casa pela manhã, decidido a ingerir a droga com o café. O pequeno Ezequiel percebe a chegada do pai e vem vê-lo no escritório. Abraça-lhe os joelhos e chama-o "papai, papai". Bentinho comove-se com Ezequiel como há muito não fazia. As lágrimas saltam de emoção.
        Capitu entra também no escritório. Percebe a cena e os motivos da forte comoção entre o marido e o filho. Trocam algumas frases confusas, o diálogo é por meias palavras. Fala-se em separação. A separação se consumará, mas ainda assim em meio a muita hipocrisia. Bentinho viaja com Capitu e Ezequiel para a Suíça. Regressa sozinho ao Rio de Janeiro. E sozinho, triste e amargurado viverá o resto de seus dias. O sentimento de solidão dá o tom da narrativa. Os anos passam. A bela Capitu morre e é enterrada em terras suíças.
        Um dia o filho Ezequiel Santiago, já moço, vem ao encontro daquele que para sempre será seu pai. Ao ver o rapaz, Bentinho observa: "Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar." Ezequiel, formado arqueólogo, também não viverá muito. Onze meses depois de encontrar Bentinho, numa viagem ao Oriente Médio, contrai febre tifóide, falece e é enterrado próximo a Jerusalém. Bento Santiago, como um mármore sem sentimentos, não se deixa comover nem com a morte de Capitu e menos ainda com a de Ezequiel. Parece mesmo aliviado com o desaparecimento do garoto.
        A dúvida e o rancor consumiram todo o grande amor que um dia Bentinho nutriu pela alegre Capitu. Faltou romantismo, compreensão e grandeza para o marido entender e perdoar. Só os grandes homens sabem perdoar. Seu egoísmo sufocou e apagou a chama do amor, indispensável à duração de toda relação conjugal. Bentinho levou a ferro e fogo o sentimento de traição. Teria sido tudo diferente se olhasse a situação de uma forma mais ampla, por outro prisma. O amor verdadeiro tudo compreende e tudo perdoa. Só assim conseguirá superar todas as crises e durará para sempre.
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