MEMÓRIA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 043 - Março/2001
Ovádia Horn: o garoto de Jamiliya
        Quando perguntei a Ovádia Horn o significado da palavra Halab, Alepo em árabe, ele logo contou a história do patriarca Abraão que, segundo a Bíblia, passou pela cidade, vindo da Caldéia com destino a Canaã. E então explicou que o nome vem da expressão Halab el Shabá, tirar leite da vaca, uma vez que a cidade era quase toda pintada de branco, "como Casablanca", ilustra o entrevistado. Daí a relação entre leite, branco e o nome propriamente.
        Ovádia nasceu em 1928 na parte nova de Alepo, no bairro de Jamiliya, nome dado em homenagem a um governador turco (Jamil), ainda no tempo do Império Otomano. Jamiliya ganhou importância e desenvolvimento após 1917, com a chegada dos franceses na Síria. Para lá afluíam as famílias judaicas que deixavam o bairro de Bahsita, na parte velha de Alepo, em um processo parecido como o que se verificou posteriormente, com os judeus em São Paulo, na migração sefardita da Mooca e asquenazita do Bom Retiro para Higienópolis e Jardim Paulista, a partir de 1960.
        Mas o velho bairro de Bahsita guardava muitas histórias interessantes, como a da sinagoga Keniss al Atika, cuja lenda dizia ter sido construída ainda no tempo do rei David e era muito freqüentada por isso mesmo.
Em Jamiliya fora construída um templo novo, designada como Sinagoga David Shayo, homenagem a um influente membro da comunidade local.
        O sobrenome Horn origina-se de um judeu austríaco que chegou em Alepo no século XVIII. Outras famílias mais próximas relacionadas em parentesco com o entrevistado são: Dowek (de sua mãe, com ancestrais em Calcutá, Índia, e com cidadania inglesa), Shayo e Sahri.
        Ovádia aprendeu as primeiras letras hebraicas no chéder (escola primária judaica), prosseguiu estudos na Aliança Universal Israelita (fundada por judeus franceses na Síria e em outros países muçulmanos), e depois no colégio marista, católico.
        Nas memórias de Ovádia, praticamente toda a comunidade judaica alepina era bastante tradicional. "Eu só tinha conhecimento de duas pessoas que não freqüentavam a sinagoga", diz. Conheceu ali um único asquenazita, um tal de Goldman, vindo da Alemanha. "Eu brincava com os filhos deles e nem sabia o que era asquenazi ou sefaradi. Éramos apenas judeus", comenta bem humorado.
        Após o término da Segunda Guerra Mundial, com a saída dos franceses da Síria, encerrava também um capítulo de cordiais relações entre judeus e muçulmanos na cidade de Alepo. Incentivados pela propaganda anti-sionista, os sírios passaram a perseguir os judeus e a incendiar suas sinagogas.
        A família Horn, como outras, deixaram a cidade e fugiram para as montanhas do Líbano. Em 1947 Ovádia foi estudar Comércio Avançado em Manchester. Viveu dois anos na Inglaterra e mais um ano em Paris, onde estudou Civilização Francesa. Em 1950 regressou ao Oriente Médio, a Beirute precisamente, onde trabalhou com a importação de tecidos junto com seu pai.
        O ano de 1955 marca sua chegada ao Brasil, via Itália. Na época havia já algumas famílias alepinas recém estabelecidas em São Paulo: os Shayo, Nasser, Chammah e Hamoui. Horn, sem capital para iniciar um negócio próprio, foi inicialmente corretor de metais não-ferrosos.
        Alguns anos depois teve uma proposta inusitada e não perdeu tempo. Próximo destino: Tailândia. Isso mesmo! Viveu de 1960 a 1964 em Bangcoc, representando uma empresa que importava tecidos de Nova York. O entrevistado conta que havia uns 20 judeus na capital tailandesa, quase todos de origem russa e inglesa, chegados depois da Segunda Guerra Mundial ou, como ele, representando empresas internacionais. De volta ao Brasil, Horn e seus irmãos adquiriram em 1965, de Zolmen Rosenthal, a Construtora Cyrell, transformada na Cyrela, hoje uma das mais importantes no Brasil.
        Ovádia Horn sempre teve uma atuação destacada em várias entidades do ishuv paulista. Foi presidente dos Amigos de Israel; vive-presidente do Fundo Comunitário e do Colégio Renascença e diretor da Fisesp, Sinagoga Beit Yaacov, Colégio Iavne Beith Chinuch. No período desta entrevista, tinha sido empossado presidente do KKL, imprimindo num ritmo mais modernizante à entidade.
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