ARNON APSAN
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 044 - Abril/2001
Por dentro da Operação Kasztner
        Economista e empresário, colaborador sobre notícias econômicas de Israel na JUDAICA, Arnon Apsan recebeu com cordialidade nossa reportagem em seu apartamento em Higienópolis durante as duas vezes necessárias para a realização desta entrevista. Ao seu lado, na primeira parte da entrevista, o livro Bando de Ladrões, de Richard Z. Chesnoff. "Procuro ler tudo o que há sobre a Segunda Guerra Mundial", comentou. Durante o bate-papo, Apsan falou com detalhes de sua infância em Sighet (terra natal também de Elie Wiesel), falou também dos dois anos que viveu na culta e bela Budapeste, da fuga apressada na secreta Operação Kasztner, da vida em Bergen Belsen, da calorosa recepção na Suíça e da vida dura no exército do nascente Estado de Israel.
        Apsan nasceu em 1927 na cidadezinha de Sighet na Transilvânia, região montanhosa e de muitas guerras bastante conhecida pelas histórias do conde Vlad Tepes (o Drácula), que até 1940 pertencia à Romênia, foi conquistada pela Hungria com apoio alemão de 1940-45 e depois voltou para a Romênia com apoio russo. A personalidade mais conhecida de Sighet é Elie Wiesel, escritor e prêmio Nobel da Paz, radicado nos EUA, que foi colega de escola de nosso entrevistado
        Um irmão de Apsan, dois anos mais novo, estudava na mesma classe de Elie Wiesel, e comentava que o colega era apontado como o melhor aluno da classe. O pai de Wiesel tinha uma loja de farinha na rua comercial da cidade, enquanto o pai de Apsan (que tinha oito filhos) era agente de seguros de uma firma vienense. Todos freqüentavam as mesmas sinagogas e ambientes.
        A população judaica de Sighet falava o húngaro e o romeno, mas principalmente o iídiche. Ortodoxos, moderados e sionistas davam a diversidade ideológica que sempre marcou os judeus. Em Sighet havia pelo menos dez sinagogas maiores, uma sefaradi, inclusive. A convivência dos judeus com húngaros e romenos era pacífica. "Eu diria que quando o comando esteve sob autoridade romena, a amizade era maior. Os húngaros, sempre aliados dos alemães, eram mais anti-semitas." - constata.
        Os grupos sionistas de Sighet reuniam-se aos domingos na montanha Solovan, perto da cidadezinha. Ali cantavam canções em hebraico e sonhavam com Jerusalém.
        Com apenas 14 anos Arnon mudou-se para Budapeste, cerca de 400 quilômetros de sua cidade natal, pegando o trem noturno numa viagem que na época levava dez horas. A capital húngara nos anos 40 tinha um milhão e meio de habitantes, dos quais 200 mil eram judeus. Arnon morou os primeiros tempos em um dos Lares das Crianças Judias e trabalhou como aprendiz de tipógrafo. Mesmo em meio à guerra, seguia tudo mais ou menos bem até a invasão de tropas alemãs sobre Budapeste, em 19 de março de 1944.
        Quando os romenos perderam a Transilvânia para a Hungria, eles começaram a sorrir para os russos. Da mesma forma a Hungria, quando percebeu que a Alemanha podia perder a guerra, deixaram de ser aliados fiéis dos nazistas, provocando a invasão alemã sobre o país.
        Os grupos juvenis sionistas de Budapeste reuniam-se também aos domingos na montanha Swábheggy, perto da capital, onde depois Eichmann montou seu quartel-general. Desde então, falava-se que a qualquer momento precisaria haver uma brichá (fuga), pois os alemães eram uma ameaça contra todos os judeus. Muitos desses judeus húngaros fugiram para a Palestina, através da Romênia e da Turquia. O jovem Arnon foi um dos seis, de todo seu lar, sorteado para integrar o transporte organizado sigilosamente pelo advogado judeu Rudolf Kasztner, influente líder comunitário na Hungria e Romênia, que negociou diretamente com Adolf Eichmann o salvamento de judeus durante a guerra.
        "Um belo dia um colega me avisou para que eu arrumasse minha bagagem e o acompanhasse. Iríamos partir naquele momento. Fomos para uma grande sinagoga, onde havia cerca de 1500 judeus. Naquela noite mesmo tomamos o trem que nos levaria para a Espanha ou Portugal, países neutros na guerra."
        Apsan conta que já na noite de embarque havia um zum zum zum de que os aliados haviam invadido a Normandia. A viagem Budapeste-Viena que em condições normais duraria três horas, foi feita em sete dias, devido aos danos causados pelos bombardeios americanos sobre as linhas férreas.
        Quando finalmente alcançaram Viena, veio a confirmação de que os aliados conseguiram cruzar o Canal Inglês e avançavam sobre os alemães pela França. A esperança de alcançarem a Península Ibérica e salvarem suas vidas caía por terra. "Ninguém mais sabia o que ia acontecer." - conta Apsan - "Nos mandaram para Linz (cidade natal de Hitler) para tomarmos banho. Ficamos todos desesperados, pois imaginávamos que era o nosso fim. Quando liguei o chuveiros e senti que era água mesmo, e não gás, tive certeza de que Kasztner encontrara uma solução."
        Os judeus foram levados ao campo de concentração de Bergen Belsen, no norte da Alemanha. Em dezembro de 1944 o comboio de Kasztner foi enviado para a liberdade na Suíça. "Chegamos à cidade de San Galen onde os judeus suíços nos receberam com todo o carinho. Nos cumprimentaram com Shalom, nos encaminharam para banhos e desinfecção, nos deram roupas novas e comida, muita comida. Vimos nossas vidas serem transformadas radicalmente numa só noite."
        Kasztner, indagado se não iria se juntar aos judeus na Suíça, respondeu negativamente: "Preciso ir a Teresinstadt salvar todos os judeus que puder". Calcula-se que com a intervenção de Kasztner, perto de dez mil vidas foram salvas. De uma rica família judia, impressionava a todos por seu porte alto, elegante, fluência e carisma. Falava de igual para igual com Eichmann, Brecher, Krumaier, principais enviados do Reich para a Hungria.
        Após a guerra na Europa, muitos judeus do grupo Kasztner conseguiram vistos para a América do Norte ou América Latina. Outros preferiram retornar a seus países de origem. Apsan estava entre aqueles que desejavam ir para a Palestina. "Havia uma enfermeira suíça que tentava me dissuadir a não ir para Palestina, dizendo que haveria guerra com os árabes ali, mas eu insisti que desejava ir assim mesmo."- recorda.
        Na Palestina a partir de setembro de 1945, Arnon Apsan foi viver no kibutz Gvat Brenner, de maioria judaico-alemã. Assim como a maioria dos judeus que chegavam, alistou-se nas forças do Haganá.
        Com o término da guerra, Kasztner também emigrou para a Palestina e, com a independência de Israel, tornou-se vice-ministro do Abastecimento e, com muita probabilidade, chegaria a um ministério. Por uma daquelas ilógicas ironias da história, o judeu que na Europa da Segunda Guerra Mundial falava de igual para igual com as máximas patentes de Hitler, foi assassinado no Estado judeu. Tudo começou com uma campanha de difamação movida contra ele por outros judeus, não conformados por Kasztner não ter conseguido salvar seus parentes.
        A polêmica tornou-se tão pública que o primeiro-ministro David Ben Gurion precisou intervir pessoalmente e ordenou que o caso fosse para os tribunais, onde Kasztner saiu vitorioso. Ele não só teve a honra oficialmente reconhecida como tornou-se ainda mais conceituado em todo Israel.
        Um dia, em frente à sua casa em um elegante bairro de Tel Aviv, alguém o chamou pelo nome. Quando Kasztner respondeu, foi metralhado à queima-roupa. Descobriu-se mais tarde que os assassinos eram ligados ao grupo Stern, de extrema direita, adversários do Mapai (atual Partido Avodá), trabalhista de centro-esquerda, ao qual Kasztner fazia parte.
Copyright © Revista JUDAICA.. Todos os direitos reservados.