MEMÓRIA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 046 - Junho/2001
A odisséia de Yossi Harel em livro de Kaniuk
        A criação do Estado de Israel, em tudo o que ela envolve nos anos precedentes e subseqüentes a 1948, registrou histórias dramáticas. Uma das mais conhecidas é a do navio Exodus, que carregado de sobreviventes judeus do Holocausto nazista da Segunda Guerra Mundial, foi impedido pelas autoridades britânicas de aportar em Haifa, no litoral norte palestinense. Forçado a regressar ao mar, o navio somente conseguiu achar parada em Hamburgo, na Alemanha. Ironicamente, logo na Alemanha...
        O drama dos tripulantes do Exodus foi transformado em ficção no best seller de mesmo nome escrita pelo norte-americano Leon Uris, em seguida vertido para o cinema no épico de Otto Preminger.
        Em ambos os casos o foco da narrativa é o sofrimento geral da tripulação, sua vontade de fugir de uma Europa manchada de sangue e a vontade ainda maior de começar a vida na terra de Israel e dar prosseguimento ao sonho sionista, iniciado com Theodor Herzl no final do século XIX, do retorno dos judeus à sua pátria ancestral e aí organizar um Estado nacional independente e soberano nos moldes modernos.
        Agora acaba de ser lançado no Brasil um novo livro sobre o episódio, mas com a abordagem centrada na sua figura principal, o comandante Yossi Harel. Exodus: A Odisséia de um Comandante (Ed. Imago), é um romance biográfico escrito por Yoram Kaniuk, que juntamente com Amós Oz e A.B. Yeoshua são os mais conhecidos escritores israelenses da atualidade.
        Kaniuk nasceu em Tel Aviv em 1930. Membro das tropas de elite do exército israelense, participou da guerra de independência, em 1948. Viveu em Nova York (1951-61), onde trabalhou como jornalista. De volta a Israel, iniciou sua premiada carreira de escritor. Entre seus livros mais conhecidos, traduzidos para mais de 15 idiomas, contam Um Bom Árabe, A Ressurreição de Adam Stein, O Ladrão Generoso, Morte de um Burro, O Último Judeu e A Terra das Duas Promessas. Vive em Tel Aviv.
        "O Estado de Israel não foi instituído no dia 15 de maio de 1948, quando foi feita a declaração oficial, no Museu de Tel Aviv. Nasceu quase um anos antes, a 18 de julho de 1947, quando um navio americano bastante danificado por ataques, o President Warfield, cujo nome fora trocado para Exodus, entrou no porto de Haifa, com seus alto-falantes tocando os acordes de Hatikva" ('A Esperança', canção que se tornaria o hino nacional israelense). Com estas palavras Yoram Kaniuk abre seu livro e demonstra desde o início a importância que confere à tentativa frustrada do navio em romper o cerco britânico para desembarcar a sofrida tripulação em solo do que viria a ser Israel.
        Os soldados britânicos não mediram esforços para impedir o desembarque. Lançaram centenas de granadas de gás lacrimogêneo contra os 4.515 passageiros, espremidos como sardinhas em lata. As mesmas pessoas que dois anos antes haviam sido espremidas em trens abarrotados de judeus rumo aos campos de concentração e sobrevivido a outro tipo de gás. Sob mandato britânico desde 1917, a autoridade colonial impunha severas cotas para a entrada de judeus na Palestina. Muitas das tentativas ilegais de entrada eram descobertas. Os britânicos detinham os refugiados em campos em Atlit e, mais tarde, em Chipre.
        Yossi Harel nasceu em Jerusalém em 1919, filho de Moshe e Batya Hamburger, cujas famílias haviam chegado à Palestina no século XIX. Teve uma infância difícil. O pai tinha uma mercearia e precisava cuidar dos filhos e da esposa, uma mulher linda, tipo aristocrático, mas também extremamente frágil em termos emocionais. Era excêntrica, retraída, perturbada. Talvez numa tentativa subconsciente de compensar a fragilidade da mãe, Yossi era firme e decidido, controlava os sentimentos, procurava os fatos objetivos. Não conseguindo conviver com a demência materna, afastou-se completamente, só voltando a vê-la muitos anos depois, quando ela estava à beira da morte.
        Instruído pela luta contra os bandos terroristas árabes nas colinas de Jerusalém, aprendera a compreender e amar as frágeis mulheres a bordo do Exodus, os homens pálidos, assustados, furiosos, atormentados por pesadelos. Compreendeu a força de seu instinto de sobrevivência diante de traição tão terrível, quando todas as portas do mundo se fechavam para eles. Yossi, conhecido na clandestinidade pelo nome de "Amnon", queria ser o guia dessas pessoas, em vez de mero supervisor. Entre Harel e sua tripulação desenvolveu-se um sentimento de parceria. Para transportar centenas de milhares de pessoas dos campos de trânsito alemães, através do bloqueio britânico armado, era necessário ter convicções inequívocas. Era sempre tudo ou nada.
        A determinação de homens como Yossi Harel moldaram o caráter do novo judeu israelense, que após a tragédia do Holocausto tiraram forças de onde não havia para enfrentar e vencer ataques simultâneos dos países árabes vizinhos ao recém criado Israel.
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