HISTÓRIA / JUDAÍSMO
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 047 - Julho/2001
Viagem ao Portugal judaico
        Depois de participar de um congresso mundial sobre mídia judaica em Israel e de visitar as cidades e comunidades com história judaica da Espanha e Gibraltar, dirige-me para o território português.
        Entrei em Portugal pelo sul da Espanha, atravessando de barco o rio que delimita a fronteira entre as cidades de Ayamonte (Andaluzia) e Vila Real de Santo Antônio (Algarve). Algumas horas depois chegava de trem, ou como se diz no português lusitano, de comboio, à capital da província, Faro. Na pequena estação, uma prestativa funcionária do guichê de informações me contou da existência de um cemitério judaico na cidade. Surpresa, pois desconhecia o fato.
        O Cemitério Israelita de Faro funcionou entre 1838-1932. Em frente, num gramado novo e muito bem conservado, estão plantadas 18 árvores, doadas pelo casal Sydney e Sara Oblowitz, da cidade do Cabo, na África do Sul. Homenagem ao diplomata português Aristides de Souza Mendes (1885-1954), que durante a Segunda Guerra Mundial emitiu todos os vistos possíveis para que judeus na França conseguissem fugir do nazismo via Portugal.
        Encontrei a funcionária responsável pela administração do cemitério, Maria Fonseca, explicando em francês a história da entidade a um pequeno grupo de turistas de passagem pela cidade. Em seguida ela veio falar comigo. Identifiquei-me como jornalista do Brasil e pesquisador da história dos judeus portugueses. Ela abriu um sorriso, identificou-se como descendente de marranos e passou a me dar todas as explicações que desejava.
        Ela me presenteou com um exemplar do livro O Processo Inquisitorial de Vicente Pereira Sarmento, de Fernando Calapez Corrêa, editado em Faro em 1992. Ofereceu-me, ainda, um livreto preparado pelo engenheiro José Maria Abecassis, Genealogia Hebraica - Portugal - Séculos XIX e XX. Nele, o autor conta que no início do século XIX, e devido à redução do poder da Inquisição, negociantes judeus começaram a instalar-se no país: surgiu uma pequena comunidade em Lisboa na década de 1800, outra nos Açores a partir de 1818 e mais uma em Faro, a partir de 1830.
        Embora o poder da Inquisição fosse reduzido no início do século XIX, ele ainda se fazia sentir. É o caso da família Levy, que veio de Gibraltar para Lisboa em 1807, e a quem se queria exigir que passassem a usar nomes de adoção. É o caso também de Abraham Bensliman, rico negociante de Lagos (Algarve). Enquanto residente em Meknés, sua cidade de origem no Marrocos, fazia negócios com Jerórimo Martins, de Lisboa, que por volta de 1810 o recomendou que se instalasse em Lagos, onde a influência inquisitorial era menor.
        Abecassis cita em seu opúsculo as seguintes famílias judaicas que viveram em Faro: Bendahan, Pimienta, Arosh, Ezaguy, Shimhon, Ruah, Levi, Amram, Sicsú, Buzaglo, Sequerra, Sabah, Cagi, Hamu, Obadia, Cohen, Ledícia, Beriyor, Attias, Bytton, Aruah, Carciente, Taurel, Amzalak, Aflalo, Bengio, Benchaya, Tobelem, Delmar, Levy, Benveniste e Benudis.
        Maria Fonseca mostrou-me também uma edição recente, fac-símile, do famoso "Pentateuco" (Torá) em hebraico, publicada em Faro originalmente em 1487, por Samuel Gacon.
        LISBOA - A escala seguinte de minha viagem pelo Portugal judaico foi Lisboa, capital portuguesa localizada às margens do imponente rio Tejo. O núcleo da vida judaica lisboeta está na sinagoga da Rua Alexandre Herculano (homenagem ao famoso historiador português, autor da clássica História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal). O então rabino local na época (início de 1994) era brasileiro, ordenado há poucos anos: Dov Cohen.
        Estávamos em Pessach, e como ocorre todos os anos, um grupo de judeus holandeses vêm para Lisboa, com todos os alimentos apropriados, e realizam num luxuoso hotel da cidade o Sêder como manda a tradição. Detalhe: há quatro séculos, os judeus de Portugal, fugindo da Inquisição, organizaram importante comunidade em Amsterdã.
        TOMAR - Não muito distante de Lisboa encontra-se Tomar. O principal traço de vida judaica nesta cidade é sua sinagoga, única existente no país construída antes da Inquisição. Arqueólogos têm feito importantes descobertas no local, transformado em Museu Luso Hebraico Abraham Zacuto. Esta entidade editou em 1992 o livro Tomar e sua Judaria, escrito por J. M. Santos Simões.
        Segundo o autor, o primeiro documento oficial de que se há conhecimento no qual se faz referência explícita à judiaria tomarense é a carta de doação dos direitos reais e renda da judiaria feita por D. Afonso V a um certo Luiz Brito, datada de Zamora, Espanha, de 26 de outubro de 1475. Após a conversão forçada em 1496, continuaram a viver os judeus em Tomar, sem serem muito incomodados, como seus irmãos de Lisboa.
        BELMONTE - A pequena cidade de Belmonte, encravada na Serra da Estrela (região centro-norte do país), onde nasceu o navegador Pedro Álvares Cabral, tornou-se bastante conhecida na última década por seus marranos que reencontraram o judaísmo. Já dois rabinos israelenses de origem marroquina promoveram seu retorno à religião de Israel. O primeiro, Joseph Sebag, trabalhou quatro anos em Belmonte e agora está de volta a Jerusalém. O rabino atual, Shlomo Sabag (então com 31 anos), comunicativo e cordial, tinha chegado um ano antes à cidade com sua esposa, Miriam, enviados pela Organização Sionista de Israel.
        A sala de seu apartamento foi transformada em sinagoga. Ali reúnem-se os judeus retornados locais para o serviço religioso e para o aprendizado do judaísmo. Ao todo são cerca de 200 pessoas, a maioria parentes entre si. As principais famílias são: Mourão, Nunes, Henriques e Costa. Eles pretendem construir em breve sua sinagoga na cidade, mas há rabinos em Israel que gostariam que eles fizessem aliá.
        PORTO - A última etapa de minha viagem ao Portugal judaico foi na cidade do vinho mais famoso do mundo: Porto.
        Nas primeiras décadas deste século, um capitão do Exército português decidiu que era hora de assumir seu judaísmo oculto com as tradições de sua família, cujos ancestrais foram perseguidos pela Inquisição. Arthur Carlos de Barros Basto foi ao Marrocos, fez-se circuncidar, adotou o nome hebraico de Ben Rosh e iniciou a Obra do Resgate dos marranos de Portugal.
        Organizou em Londres o Portuguese Marranos Committee, com o objetivo de angariar fundos para sua obra. Dois banqueiros judeus, o aglo-iraquiano Elie Kadooriee o Barão de Rothschild, de pronto apoiaram o projeto. A partir de 1929 começou-se a construção da sinagoga Mekor Haim da cidade do Porto, a maior do país ainda hoje. Teve início logo depois o ensino religioso na Yeshivá Rosh Pinah (Instituto Teológico Israelita), e passou-se a editar o jornal Ha-Lapid (O Facho).
        Milhares de marranos de Portugal, principalmente do Norte do país, retornaram ao judaísmo durante os anos em que atuou. A Obra do Resgate teve fim na década de 50. O clero antijudaico, em articulação com a ditadura de Salazar iniciou sistemática campanha de difamação contra Barros Basto, que também foi destituído de sua patente militar. Anos depois, o historiador marrano Amílcar Paulo publicaria uma série de livros sobre as tradições e a história de seus correligionários.
        Em 1996, 500 anos depois do decreto que obrigava os judeus de Portugal a tornarem-se oficialmente católicos, Jorge Sampaio (filho de mãe judia, portanto judeu segundo a Halachá), assumia a presidência da República Portuguesa.
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