IMPRENSA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 048 - Agosto/2001
Uma dinastia e um jornal de prestígio
        O editor e ensaísta norte-americano Gay Talese tornou-se bastante conhecido no Brasil, durante a década de 80, com a publicação de A Mulher do Próximo, livro que conta o drama vivido por um marido suburbano quando descobre que a esposa está tendo um caso. Após prolongada ausência, ele reaparece com um novo livro, O Reino e o Poder (Ed. Cia. das Letras), nada menos que a história do New York Times, o mais influente jornal em todo o mundo.
        Talese pode ser chamado de ensaísta com estilo. É um dos expoentes do "novo jornalismo", gênero que combina as técnicas descritivas do romance com o realismo da não-ficção. Ele define de modo sui generis os profissionais de imprensa: "Em sua maioria, os jornalistas são incasáveis voyeurs que vêem os defeitos do mundo, as imperfeições das pessoas e dos lugares." Com sua capacidade narrativa apurada, o autor expõe a filosofia e os princípios editoriais do Times, descreve as mudanças que o jornal sofreu ao longo de um século e meio de existência, identifica suas contradições, analisa a atuação de suas figuras-chaves e destaca suas relações com o poder político.
        O Reino e o Poder é sobre Adolph Ochs e sua criação. Qualquer análise sobre o New York Times precisa obrigatoriamente focar com atenção sua primeira fase de existência, especialmente a que toca na aquisição do diário pela família Ochs, de ascendência judaico-alemã, em 1896. Esta transição no controle administrativo do jornal marca o início de seu crescimento e prestígio crescentes dentro e fora dos EUA.
        O New York Times foi fundado em 1851 por pessoas que não tinham o senso comercial e os valores jornalísticos dos próximos proprietários. Quatro décadas após a fundação, o jornal perdia mil dólares por dia, acumulava uma dívida de 300 mil dólares e estava à beira da falência. Adolph Ochs adquiriu-o por 75 mil dólares e reverteu para o azul todos os números. O novo dono tinha 38 anos, bastante experiência jornalística, muito conhecimento da vida e sabia exatamente o que queria do jornal.
        Aos 14 anos, Adolph fazia de tudo no escritório do Knoxville Chronicle, no Tennessee, seu Estado natal no sul dos Estados Unidos. Aos 18 era tipógrafo e repórter do Louisville Courier-Journal, em Kentucky; e, aos 20, (com uma entrada de 250 dólares e um preço total de compra de 5.750 dólares), tornou-se dono do decadente Chattanooga Times, no Tennessee. O que fez com esse jornal foi o mesmo, em escala muito maior, do que fez com New York Times: transformou-o num diário de notícias, em vez de uma gazeta de opiniões, uma plataforma para as estrelas das letras, um defensor dos oprimidos e um incentivador das reformas políticas e sociais.
        No caso específico do diário novaiorquino, Ochs eliminou de cara os folhetins de ficção romântica que a direção anterior achava que atrairiam leitores e, evitando histórias escandalosas baseadas em fofocas, expandiu a cobertura das notícias financeiras, das tendências dos negócios, das transações imobiliárias e das atividades oficiais do governo.
        Em 1935, quando Adolph Ochs morreu, aos 77 anos, a liderança do NYT foi assumida por seu genro, Arthur Hays Sulzberger, marido de sua única filha, Iphigene Ochs Sulzberger, que preservaria os valores do jornal e a tendência à cautela e à contenção, ficando conhecida como a Grande Dama do Times.
        Em meados da década de 80, no auge do poder da administração Reagan, Arthur Ochs Sulzberger, que na época era publisher do jornal, foi convidado para um almoço com o presidente, o vice-presidente e o secretário de Estado, na Casa Branca. Após o almoço ele foi à sucursal do Times, em Washington e, exultante, telefonou para a mãe, Iphigene. "Mamãe, advinhe com quem almocei? Maravilhada, depois de ouvir o relato do filho, perguntou: "O que eles queriam?" A Grande Dama, que sabia o que significava o flerte do poder com a imprensa, continuava muito lúcida.
        Atento aos acontecimentos da vida norte-americana no último século, como a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial e na guerra do Vietnã, a crise dos mísseis de Cuba, o assassinato de Kennedy, a renúncia de Nixon e o recente caso Clinton-Monica Lewinsky, o Times obteve também feitos e coberturas inéditos na história do jornalismo internacional. Em 1957, no auge da Guerra Fria, o jornal conseguiu fazer entrar o correspondente Salisburg na Albânia (onde nenhum correspondente americano pusera os pés desde 1945), na Bulgária, Romênia e, em 1959, na distante Mongólia (onde somente um americano tinha estado depois da guerra).
        Na leitura de O Reino e o Poder Talese dá a receita que ditou o sucesso do diário novaiorquino: uma administração competente e um jornalismo sério, amplo e detalhista.
        Quando muitas publicações famosas como Life, Look e New York Herald Tribune não resistiram à invasão da televisão e aos crescentes custos de produção, o New York Times não apenas contou a história da humanidade durante o último século e meio de intensas descobertas científicas, guerras e revoluções inúmeras, viagens interplanetárias, PCs e Internet, como o próprio diário tornou-se história e, junto com ele seus proprietários da dinastia Ochs-Sulzberger.
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