ARTE
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 049 - Setembro/2001
O tesouro persa de Yuhanna Dawud
        Aquele parecia ser mais um dia nublado, meio chuvoso e de tarefas protocolares ao embaixador de Israel em Londres. Mas um telefonema tirou-o da rotina. Tratava-se de uma chamada urgente. Do outro lado da linha, uma voz meio vacilante, com certo sotaque, dizia: "Sou um homem velho e quero doar minha coleção de arte a Israel."
        Isso aconteceu em 1969. O homem era Yuhanna Dawud, um colecionador de arte, judeu persa que vivia em Londres e viria a falecer pouco depois. No porão de sua casa havia um verdadeiro tesouro: antigas pinturas exclusivas, muitas irreconhecíveis.
        "Quando as peças chegaram a Jerusalém estavam cobertas de sujeira, poeira e fungos", relatou a curadora do Museu de Israel, Naamá Brosh. "Custou vários anos de trabalho restaurá-las". Mas valeu o esforço.
        Não demorou e Brosh reuniu numa famosa exposição alguns desses tesouros, sob o título de "José e Zulaica - Uma História de Amor" (parte da exposição foi emprestada de outros acervos). A exposição consistiu em cerca de 70 pinturas, tapetes e manuscritos da Turquia e até da Índia, mas principalmente do Irã, num período que vai do século XV ao XIX.
        Trata-se de uma singular mostra de contos inspirados em histórias bíblicas e interpretadas por artistas islâmicos. Muitas das lendas bíblicas representadas foram embelezadas pela sabedoria muçulmana. Assim, por exemplo, na história de José (a quem o Alcorão dedica um capítulo inteiro), a tradição islâmica não só tem introduzido a mulher de Potifar, Zulaica (apaixonada por José), mas tem feito com que José lhe retribua o sentimento. Eles acabam por se casar e viver felizes neste mundo e depois no vindouro...
        Há outras adaptações parecidas. Na tradição islâmica - como ficou claro na exposição - Abraão se prepara para sacrificar a seu filho Ismael, não Isaque (o verdadeiro filho da promessa segundo a tradição bíblica hebraica), enquanto Moisés converte seu cajado em um dragão, não em uma serpente (conforme a Bíblia).
        A representação gráfica mais popular da exposição é a de José, apresentado em diversos episódios de sua vida. Muitas das representações são em madeira lascada, em manuscritos em miniaturas, ou tecidos em grandes tapetes.
        Quando Yuhanna Dawud deixou seu extraordinário legado a Israel, manifestou o desejo de que "estes tesouros promovam laços de amizade entre árabes e judeus." Foi pensando nisso que o Museu de Israel promoveu campanha para que alunos árabes de todo o país fossem ver a exposição, que levavam consigo de volta a suas casas catálogos impressos, ricamente ilustrados em árabe, hebraico e inglês.
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