Aquele parecia ser mais um dia nublado, meio chuvoso e de
tarefas protocolares ao embaixador de Israel em Londres. Mas um telefonema tirou-o
da rotina. Tratava-se de uma chamada urgente. Do outro lado da linha, uma voz
meio vacilante, com certo sotaque, dizia: "Sou um homem velho e quero doar
minha coleção de arte a Israel."
Isso aconteceu em 1969. O homem era Yuhanna Dawud, um colecionador
de arte, judeu persa que vivia em Londres e viria a falecer pouco depois. No
porão de sua casa havia um verdadeiro tesouro: antigas pinturas exclusivas,
muitas irreconhecíveis.
"Quando as peças chegaram a Jerusalém
estavam cobertas de sujeira, poeira e fungos", relatou a curadora do Museu
de Israel, Naamá Brosh. "Custou vários anos de trabalho restaurá-las".
Mas valeu o esforço.
Não demorou e Brosh reuniu numa famosa exposição
alguns desses tesouros, sob o título de "José e Zulaica -
Uma História de Amor" (parte da exposição foi emprestada
de outros acervos). A exposição consistiu em cerca de 70 pinturas,
tapetes e manuscritos da Turquia e até da Índia, mas principalmente
do Irã, num período que vai do século XV ao XIX.
Trata-se de uma singular mostra de contos inspirados em histórias
bíblicas e interpretadas por artistas islâmicos. Muitas das lendas
bíblicas representadas foram embelezadas pela sabedoria muçulmana.
Assim, por exemplo, na história de José (a quem o Alcorão
dedica um capítulo inteiro), a tradição islâmica
não só tem introduzido a mulher de Potifar, Zulaica (apaixonada
por José), mas tem feito com que José lhe retribua o sentimento.
Eles acabam por se casar e viver felizes neste mundo e depois no vindouro...
Há outras adaptações parecidas. Na tradição
islâmica - como ficou claro na exposição - Abraão
se prepara para sacrificar a seu filho Ismael, não Isaque (o verdadeiro
filho da promessa segundo a tradição bíblica hebraica),
enquanto Moisés converte seu cajado em um dragão, não em
uma serpente (conforme a Bíblia).
A representação gráfica mais popular
da exposição é a de José, apresentado em diversos
episódios de sua vida. Muitas das representações são
em madeira lascada, em manuscritos em miniaturas, ou tecidos em grandes tapetes.
Quando Yuhanna Dawud deixou seu extraordinário legado
a Israel, manifestou o desejo de que "estes tesouros promovam laços
de amizade entre árabes e judeus." Foi pensando nisso que o Museu
de Israel promoveu campanha para que alunos árabes de todo o país
fossem ver a exposição, que levavam consigo de volta a suas casas
catálogos impressos, ricamente ilustrados em árabe, hebraico e
inglês.