ASPECTOS BIOGRÁFICOS DO ENTREVISTADO
Nome completo: Marcos Arbaitman
Local e data de nascimento: São Paulo,
SP - 27/dezembro/1938
Origem da Família
Nome do pai: Samuel Boris Arbaitman
Local de nascimento: Lublin (Polônia)
Nome da mãe: Rosa Melighendler Arbaitman
Local de nascimento: Odessa (Ucrânia)
INFÂNCIA E FORMAÇÃO
Quando criança meus pais moravam na Rua Newton
Prado, ali no Bom Retiro, e eu estudava na rua de trás, na Escola
Talmud Thorá, minha primeira escola. Depois mudamos para a Rua Tocantins
(atual Rua Talmud Thorá). Quando criança meu lazer no domingo
era ir jogar futebol no Macabi da Rua da Coroa ou ir lutar boxe na Ofidas
(atual Unibes).
Tive a felicidade de cursar o ginásio no Caetano
de Campos, onde hoje está a Secretaria Estadual de Educação,
na Praça da República. O científico fiz no Colégio
Roosevelt. Ambos eram estaduais, pois meus pais não tinham recursos
para pagar escolas particulares. Depois sim, quando comecei a trabalhar
e cursar a Faculdade de Direito do Mackenzie, eu mesmo podia sustentar meus
estudos e ajudar minha mãe.
Meu pai eu perdi quando eu tinha 14 anos. Ele era rabino
e foi ele quem me preparou para meu bar-mitzvá e infelizmente
logo depois o perdi. Aí minha mãe acumulou as funções
de mãe e pai em nossa casa.
OCUPAÇÕES ANTES DA FORMAÇÃO DA EMPRESA
Com 14 anos de idade meus pais tiveram de obter uma autorização
especial para eu começar a trabalhar no Banco Nacional da Cidade
de São Paulo, como office boy, servindo cafezinho, levando
e buscando documentos, enfim, um trabalho normal de contínuo.
O Banco Nacional da Cidade de São Paulo pertencia
a Rafael Mayer, membro da comunidade judaica. A agência em que eu
trabalhava ficava na Rua Florêncio de Abreu e para chegar lá
eu tinha de andar a pé desde o Bom Retiro.
Depois, como eu precisava de mais recursos, passei a
trabalhar de manhã como auxiliar de secretário na Escola Sholem
Aleichem e à tarde no banco. O Sholem ficava na Rua Três Rios,
onde hoje é a Casa do Povo. Ali eu fiz curso de Dialética
Marxista e acreditava firmemente que tudo deveria ser dividido igualitariamente,
mas depois eu vi que isso é impossível. Os seres humanos não
são iguais e também não podem receber os mesmos valores.
O ser humano tem de ganhar de acordo com aquilo que ele tem capacidade e
produz. Claro que até hoje eu tenho meu espírito socialista,
que é de fazer o bem a todos aqueles que não tiveram a mesma
sorte quanto eu.
Assim eu trabalhava de manhã na escola, à
tarde no banco e à noite cursava o científico no Roosevelt,
lá na Rua São Joaquim. Então, quando terminava a aula,
lá pelas 23h00/23h30, eu passava no Ponto Chic do Largo Passaindu
para comer um sanduíche, porque ninguém é de ferro.
Foi ali que eu conheci um jovem publicitário, José Bonifácio
de Oliveira Sobrinho (o Boni), que mais tarde virou homem da Globo, e que
é meu amigo até hoje.
Aos 18 anos fui trabalhar na Marvatex, uma indústria
têxtil do Gregório e Mário Weinfeld, na Rua Silva Pinto.
Adquiri muita experiência neste emprego. Cursando a faculdade de manhã,
recebi um convite para ir trabalhar numa agência de turismo chamada
Amazon Tur. A empresa queria me contratar para ser relações
públicas ganhando dobro do que eu ganhava na Marvatex. Bom, aí
para sair foi difícil, porque os Weinfeld eram gente muito amiga.
ÉPOCA EM QUE CONSTITUIU A EMPRESA: O CENÁRIO ENCONTRADO
Nessa época eu já era bastante ligado ao
Macabi e conhecia muita gente. Conseguia vender muitas passagens e a Amazon
Tur já não conseguia pagar minhas comissões. Foi então
que um senhor da Varig chamado Hélio Schmidt (que depois se tornou
presidente da companhia) que me protegia como um filho, me perguntou por
que eu não entrava de sócio com outro funcionário da
Varig, o Henrique Chevis, numa agência da Avenida São João,
798. Tratava-se da Maringá Turismo.
O dono era um senhor do Paraná com várias
empresas (auto-peças, bicicletas, pneus), todas com o nome de Maringá.
A empresa de turismo só dava prejuízo. Então, com o
estímulo do Hélio Schmidt, eu e o Henrique Chevis arriscamos
comprá-la.
Daí, o David Kopenhagen, dono de uma fábrica de chocolates
na Avenida Ipiranga, atravessava a rua todo dia para ver como tinha sido
o movimento da agência. Ele e seu genro, o Jacques Goldfinger, nos
ajudaram muito no início da Maringá.
A Maringá ficava bem defronte ao Cine Metro. O
Samuel Back, dono de uma grande empresa de manufaturas plásticas
e outra pessoa que me ajudou como um pai, às vezes me telefonava
para perguntar qual filme estava passando no Metro. Aí eu virava
a cadeira e via o nome do filme nos letreiros. O Samuel Back então
vinha nos visitar na Maringá e aproveitava para assistir à
matinê da tarde.
O cenário econômico da época era
o mesmo de sempre. Muita gente falando em crise. Mas que crise? - eu pergunto.
Nosso país dá oportunidade para todo mundo. Meus pais vieram
da Europa com uma mão na frente e outra atrás. Hoje somos
54 agências em todo o Brasil. Em qual país do mundo ia ter
essa oportunidade? Eu vou ficar ouvindo conversa fiada de crise? Nada resiste
ao trabalho. Outra coisa: se você acreditar que vai conseguir ou se
você acreditar que não vai conseguir, nos dois casos você
tem razão. Depende do que você decidiu.
A ESCOLHA DO RAMO DE NEGÓCIO
Aspectos favoráveis: Eu não posso
me queixar do ramo porque tudo o que possuo eu fiz no ramo. Nunca tirei
nada de ninguém, portanto tive de ganhar dinheiro com o suor do rosto.
Aspectos desfavoráveis: O ramo é muito difícil. É
preciso tirar leite de pedra.
A VISÃO DE EMPRESÁRIO
Relação com o mercado: O segredo
é o trabalho, não adianta chorar nem se lamentar. Mas alguém
disse: "É preciso ter sorte." Aí eu me lembro da
frase do querido amigo Bernardo Goldfarb: "Quanto mais eu trabalho,
mais sorte eu tenho."
Relação com os funcionários:
Meus funcionários é como uma grande família. Se não
houver o mais alto nível de respeito, compreensão e entendimento,
não há condição de nenhum negócio se
desenvolver. A alma da empresa é o funcionário. Ele é
insubstituível.
Relação com a propaganda: A propaganda
é fundamental. Quem não se comunica se estrumbica. Cada ramo
tem de se comunicar da melhor forma possível. A Coca Cola, por exemplo,
tem um valor extraordinário pelo investimento que ela fez na propaganda.
Só a marca Coca Cola vale cinco bilhões de dólares.
Isso se deve à propaganda. Ou a empresa investe na sua marca ou ela
não é nada.
Relação com a cultura, ecologia e causas
sociais: Temos apoiado uma série de projetos culturais da cidade
e do Estado de São Paulo, como o Teatro Municipal, a Bienal, o MAM,
a Pinacoteca, o MASP, a Cinemateca, Concertos e musicais.
Relação com novas tecnologias e a globalização:
Conceito de crescimento: Meu conceito de crescimento
é manter o cliente satisfeito. O mais importante é manter
o cliente satisfeito e só depois pensar em crescimento. Na verdade
o crescimento é decorrência do bom atendimento. Se você
quer abraçar o mundo você perde aquilo que já tem.
Filosofia de trabalho: A mesma do Antônio Ermínio de Morais:
"Nada resiste ao trabalho!"
O FUTURO E A QUESTÃO SUCESSÓRIA
A minha filha (Marjorie) trabalha na Maringá há
mais de dez anos e meu filho (Sidney) trabalha numa escola. Não sei
se eles vão querer continuar no meu ramo. Na minha visão,
a empresa tem de ter um caráter profissional. Hoje a Maringá
tem 412 funcionários e acho que são os profissionais os que
devem dar continuidade à empresa.
OUTROS CARGOS
Ex-presidente da Hebraica-SP (três vezes), ex-presidente
da União Mundial Macabi (primeiro latino-americano a alcançar
o posto) e atual secretário de Esportes e Turismo do Estado de São
Paulo (gestões Mário Covas e Geraldo Alckmin), dentre outros.
LAZER QUANDO NÃO ESTÁ TRABALHANDO
Ópera, tênis e leitura.
O SUCESSO ALCANÇADO EM RELAÇÃO À SATISFAÇÃO
PESSOAL
O segredo da felicidade é estar feliz com o que
se tem. Porque tem gente que pode ter um bilhão, dois bilhões
ou dez bilhões e só está preocupado que poderia ter
mais um bilhão. Rica é a pessoa que está satisfeita
com o que tem.