MEMÓRIA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 053 - Fevereiro/2002
Samuel Klein: macabeu honorário e na vida real
        A história de Samuel Klein renderia com certeza livros e filmes. E na verdade, a obra teria de ser dividida em duas partes igualmente empolgantes. A primeira sobre sua sobrevivência do nazismo em plena Segunda Guerra Mundial, um milagre que nem sempre a razão explica. A segunda sobre sua vida de empresário à frente das Casas Bahia, no Brasil, onde tornou-se o rei do varejo.
        Klein nasceu em Zaklikov, Polônia. Com o pai aprendeu a profissão de marceneiro. Quando os nazistas invadiram a Polônia, foi levado com o pai para Maidanek, o terceiro maior campo de extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra. A mãe e os irmãos mais novos foram levados para Treblinka, de onde nunca mais saíram.
        Em 1944, quando o Exército Vermelho da Rússia avançava sobre os nazistas para libertar a Polônia, Samuel Klein com outros prisioneiros foram levados rumo a Auschwitz. Como não havia mais trens, teriam de caminhar os 50 quilômetros a pé, em direção ao rio Vizla, o maior da Polônia, região de fronteira.
        Quando pararam em vasto campo de trigo, a cinco quilômetros do rio que deveriam atravessar, Samuel decidiu colocar em ação um plano ousado, ao melhor estilo Hollywood. Talvez fosse sua última chance de sobreviver. Pediu licença a um dos soldados para fazer a necessidade fisiológica e embrenhou-se em meio à plantação. Com muito cuidado, foi se afastando em meio ao trigal, bastante alto naquela época. O dia inesquecível em sua vida era 22 de julho.
        É o próprio sobrevivente quem conta: "Fui me escondendo e entrando no trigal cada vez mais. Não sei para onde estava indo, mas tinha a certeza de me afastar do grupo." A noite caiu e Samuel dormiu em meio à plantação. No dia seguinte ouviu cachorros latindo. O alívio foi grande quando encontrou-se com poloneses cristãos que também se escondiam dos alemães. Estes poloneses lhe deram alimento e o ajudaram a fugir.
        Klein conseguiu voltar para sua antiga casa. Ela estava completamente destruída. Em troca de comida, foi trabalhar em uma pequena fazenda nas proximidades. Ao final da guerra reecontrou com júbilo a irmã Sezia (que tinha fugido para a Rússia em 1939) e o irmão Salomon, que hoje vivem em Nova York e têm respectivamente 80 e 82 anos.
        Depois da guerra os irmãos Klein foram para a Alemanha administrada pelos norte-americanos. Tiveram a grata surpresa de reecontrar vivo o pai. Viveram em Munique de 1946-51. Nesta grande cidade alemã Samuel conheceu Channah, com quem se casou. Sentiram que era hora de deixar a Europa e reconstruir a vida em outro lugar.
        O pai foi para Israel, junto com a outra irmã Esther. Samuel queria emigrar para os Estados Unidos, mas não conseguiu. A cota de emigração estava cheia. Decidiu ir para a América do Sul, onde tinha alguns amigos. Conseguiu visto para a desconhecida Bolívia e lá chegou com a esposa e o filho Michael (nascido na Alemanha).
        Em 1952 a Bolívia vivia uma situação social muito complicada, com disputas políticas violentas e uma revolução em curso. Klein se lembrou de uma tia que vivia no Rio de Janeiro. Com a mulher e o filho embarcou no primeiro avião de La Paz para a então capital brasileira. Em menos de dois meses conseguiu autorização para viver no Brasil.
        Com a família foi se estabelecer em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. Iniciou então sua fascinante carreira de comerciante. Experiência de vida e vontade de vencer não lhe faltava.
        Adquiriu uma charrete e cavalo e tornou-se mascate, vendendo roupas de cama, mesa e banho de porta em porta. Em cinco anos de dedicado trabalho, conseguiu capital para abrir sua primeira loja, chamada Casas Bahia. Era a sua homenagem a seus fregueses, na maioria baianos.
        No meio tempo a família Klein fincava raízes no Brasil e crescia. Nasceram mais três filhos: Saul, Eva e Oscar (falecido em acidente).
        Os anos corriam e, como diz a nova campanha publicitária na televisão sobre a história de "seu Samuel", depois da primeira loja adquiriu outra e outra... Hoje são mais de 300 e as Casas Bahia é uma das maiores redes de varejo do País.
        Samuel Klein é um homem vitorioso e um empresário de sucesso. Com tudo isso - e talvez por isso - nunca perdeu sua simplicidade e a noção de sua importância para apoiar a comunidade judaica, seja através de suas entidades, seja através da mídia, veículo de difusão dos valores do povo judeu, de esclarecimento e combate ao anti-semitismo.
        Uma de suas mais recentes ações comunitárias foi o apoio à reforma da sede do Macabi na Avenida Angélica. Quem conhecia o clube antes das obras e vai visitá-lo agora, fica surpreso com as novas e modernas instalações que encontra. E por tudo isso que a Diretoria do Macabi achou por bem dar ao edifício, totalmente reformado, o nome de Samul Klein.
        Uma homenagem justa e merecida! Samuel Klein é um exemplo ao empresariado brasileiro de apego e apoio às tradições judaicas. Trata-se de um verdadeiro macabeu.
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