ENSAIO
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 054 - Março/2002
A mística messiânica de Sabetai Tzvi
        Sabetai Tzvi é uma das principais figuras da história do messianismo judaico. De Esmirna (Turquia) onde nasceu, acabou conquistando uma legião de seguidores judeus por diversos países. Simpatizantes do falso messias eram conhecidos em Jerusalém, Lisboa, Salônica, Amsterdã, Hamburgo, Itália, Polônia. Até no início do século XX eram encontrados os descendentes de seus seguidores, os dönmeh, uma espécie de marranos islâmicos, entre populações turcas e gregas.
        A história deste personagem polêmico foi exaustivamente estudada por Gershon Sholem e publicado no Brasil com o apoio da Associação Universitária de Cultura Judaica pela editora Perspectiva, com o título Sabatai Tzvi: o Messias Místico.
        Sholem revela que antes de seu livro, o único existente a seguir a linha de raciocínio histórica era a obra de Josef Kastein, O Messias de Esmirna (1931). Em sua pesquisa Sholem contou com novas fontes de informação, entregues em 1925 pelos dönmeh a Saulo Amarillo, rabino de Salônica.
        Sholem percorre os prolegômenos do movimento sabataísta, desdobrando o tema nas seguintes vertentes: explicações históricas e sociológicas do movimento sabataísta e suas deficiências, o messianismo na história judaica e suas duas tendências conflitantes (as formas catastrófico-utópicas e a racionalista), a idéia messiânica na Cabala, a Cabala luriânica e seu mito de exílio e redenção, o papel histórico e o significado social da Cabala luriânica, a difusão da Cabala luriânica até 1666, cabalismo na Polônia e as reações aos grandes massacres e o messianismo utópico na cristandade: quiliasmo e movimentos milenários.
        Na segunda parte, Sholem se detém sobre os primórdios do movimento sabataísta: as origens e juventude de Sabatai (seus estudos cabalísticos e seu "mistério da divindade"; a doença de Sabetai Tzvi; sua primeira "manifestação" e seu banimento de Esmirna; viagens pela Turquia, ida para Jerusalém e a missão no Egito e o casamento com Sara.
        A terceira e última parte do primeiro volume é dedicada ao início do movimento em Israel (1665), destacando a participação de Avraham Natan Ashkenazi e sua experiência profética, o retorno de Sabetai do Egito para Gaza e a grande revelação messiânica, a excomunhão pelos rabinos de Jerusalém, suas viagens por Sfat e Alepo até Esmirna e as doutrinas do Tratado sobre os Dragões, de Natan de Gaza.
        Para compreendermos o significado e a abrangência do messianismo de Sabetai Tzvi, é importante a compreensão de sua própria vida familiar. Algumas fontes (como a Visão de Rabi Abraão, de Natan de Gaza) indicam a data de seu nascimento como sendo 9 de Av (a data mais trágica do calendário judaico), que naquele ano de 1626 caiu no dia de Shabat, daí seu nome.
Sua família vivia na Grécia antes do pai, Mordechai Tzvi, ter se mudado para Esmirna, que se transformava em importante centro de comércio levantino. Pesquisas indicam que a família Tzvi era originária de Patras, no Peloponeso.
        Para Sholem, o nome Tzvi é desconhecido entre os sefarditas, o que o leva a crer que tanto o nome como a família fossem de origem asquenazita, com o que concorda Emanuel Frances. Uma prova deste fato é o relato de que Sabetai teria repreendido um enviado polonês em alemão (ou iídiche), dizendo "Schweig" (cale-se!).
        Por volta de 1660-70, são mencionadas as seguintes congregações judaicas em Esmirna: Neveh Shalom, Pinto, Bakis e Portugal. Algumas delas possuíam ieshivot junto a elas, lugares de recolhimento para o estudo do Talmud. Há poucas informações confiáveis sobre os estudos e a educação religiosa de Sabetai. Ao que parece, ele passou por todas as etapas de uma educação judaica tradicional.
        Talvez o ponto mais esclarecedor sobre Sabetai Tzvi, que justifique seus ânseios messiânicos, seja sua doença mental. Para Sholem, não há dúvida de que ele era um homem doente, embora o fato deva ser tomado com reservas, especialmente quando dito por seus inimigos. O rabino Yosef Halevi (de Livorno), por exemplo, escreveu a um dos seguidores no Egito, dizendo que Sabetai "era conhecido como um idiota e um louco durante toda a sua vida".
        Escreve Sholem: "O tipo maníaco-depressivo desenvolve-se com a puberdade e os fenômenos patológicos característicos, geralmente, entre os 15 e 25 anos, nunca durante a infância. Depois disso, diversos estados psicológicos alternam-se, às vezes, em ritmos regulares, outras (como no caso de Sabetai) com intervalos imprevisíveis.(...) Foi precisamente este padrão típico que começou a aparecer quando Sabatai se aproximou dos 20 anos de idade e que se manifestou completamente dois anos mais tarde. Há inúmeros testemunhos circunstanciais corroborando o ritmo cíclico de sua vida psíquica até seus últimos dias, e a descrição médica da doença confirma-se inteiramente nos relatos de seus contemporâneos, em particular do círculo mais próximo."
        Em torno da vida e do messianismo do polêmico Sabetai Tzvi, desfilam uma constelação de pessoas, entre rabinos, comentaristas, observadores, estudiosos, fontes de inpiração, admiradores e contendores, entre eles: Isaac Luria, Haim Vital, Moshe Cordovero, Menahem Recanati, Yosef Gikatila, Samuel Penina, Moshe Pinheiro, Isaac di Alba, Isaac Silveira, Rafael Yosef, Baruch Gershon de Arezzom, Avraham Yakhini, Matatias Bloch Ashkenazi, Yacov Najara, Israel Hazan de Kastoria, Yosef Eskapha, Avraham Miguel Cardoso, Moshe Calameri, Isaac Calomiti, Avraham Barzillay, Haim Benveniste, Paul Rycaut, Yosef Halevi, Iedidia Isaac Gabbai, Avraham Cuenque, Samuel Lissabona, Shlomo Alkabets, Yosef karo, Meir Hiya Rofe, Avraham Pereira, Shlomo Molkho, Yosef Almosnino, Yacov Hagiz Samuel Gandoor, Moshe Habib, Samuel Primo, Moshe Galante, Avraham Itzhak, Yacov Semah, Samuel Garmizano, Israel Benjamin, Aharon Kardina, Menahem Azaria Fano, Arieh Leyb Pryluk, Natan Shapira, Benjamin Rejwan, Shlomo Kohen, Johan Heinrich Hottinger, David Algazi e Aharon Lapapa.
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