Sabetai
Tzvi é uma das principais figuras da história do messianismo judaico.
De Esmirna (Turquia) onde nasceu, acabou conquistando uma legião de seguidores
judeus por diversos países. Simpatizantes do falso messias eram conhecidos
em Jerusalém, Lisboa, Salônica, Amsterdã, Hamburgo, Itália,
Polônia. Até no início do século XX eram encontrados
os descendentes de seus seguidores, os dönmeh, uma espécie
de marranos islâmicos, entre populações turcas e gregas.
A
história deste personagem polêmico foi exaustivamente estudada
por Gershon Sholem e publicado no Brasil com o apoio da Associação
Universitária de Cultura Judaica pela editora Perspectiva, com o título
Sabatai Tzvi: o Messias Místico.
Sholem
revela que antes de seu livro, o único existente a seguir a linha de
raciocínio histórica era a obra de Josef Kastein, O Messias
de Esmirna (1931). Em sua pesquisa Sholem contou com novas fontes de informação,
entregues em 1925 pelos dönmeh a Saulo Amarillo, rabino de Salônica.
Sholem
percorre os prolegômenos do movimento sabataísta, desdobrando o
tema nas seguintes vertentes: explicações históricas e
sociológicas do movimento sabataísta e suas deficiências,
o messianismo na história judaica e suas duas tendências conflitantes
(as formas catastrófico-utópicas e a racionalista), a idéia
messiânica na Cabala, a Cabala luriânica e seu mito
de exílio e redenção, o papel histórico e o significado
social da Cabala luriânica, a difusão da Cabala luriânica
até 1666, cabalismo na Polônia e as reações aos grandes
massacres e o messianismo utópico na cristandade: quiliasmo e movimentos
milenários.
Na
segunda parte, Sholem se detém sobre os primórdios do movimento
sabataísta: as origens e juventude de Sabatai (seus estudos cabalísticos
e seu "mistério da divindade"; a doença de Sabetai Tzvi;
sua primeira "manifestação" e seu banimento de Esmirna;
viagens pela Turquia, ida para Jerusalém e a missão no Egito e
o casamento com Sara.
A
terceira e última parte do primeiro volume é dedicada ao início
do movimento em Israel (1665), destacando a participação de Avraham
Natan Ashkenazi e sua experiência profética, o retorno de Sabetai
do Egito para Gaza e a grande revelação messiânica, a excomunhão
pelos rabinos de Jerusalém, suas viagens por Sfat e Alepo até
Esmirna e as doutrinas do Tratado sobre os Dragões, de Natan de
Gaza.
Para
compreendermos o significado e a abrangência do messianismo de Sabetai
Tzvi, é importante a compreensão de sua própria vida familiar.
Algumas fontes (como a Visão de Rabi Abraão, de Natan de
Gaza) indicam a data de seu nascimento como sendo 9 de Av (a data mais
trágica do calendário judaico), que naquele ano de 1626 caiu no
dia de Shabat, daí seu nome.
Sua família vivia na Grécia antes do pai, Mordechai Tzvi, ter
se mudado para Esmirna, que se transformava em importante centro de comércio
levantino. Pesquisas indicam que a família Tzvi era originária
de Patras, no Peloponeso.
Para
Sholem, o nome Tzvi é desconhecido entre os sefarditas, o que o leva
a crer que tanto o nome como a família fossem de origem asquenazita,
com o que concorda Emanuel Frances. Uma prova deste fato é o relato de
que Sabetai teria repreendido um enviado polonês em alemão (ou
iídiche), dizendo "Schweig" (cale-se!).
Por
volta de 1660-70, são mencionadas as seguintes congregações
judaicas em Esmirna: Neveh Shalom, Pinto, Bakis e Portugal. Algumas delas possuíam
ieshivot junto a elas, lugares de recolhimento para o estudo do Talmud.
Há poucas informações confiáveis sobre os estudos
e a educação religiosa de Sabetai. Ao que parece, ele passou por
todas as etapas de uma educação judaica tradicional.
Talvez
o ponto mais esclarecedor sobre Sabetai Tzvi, que justifique seus ânseios
messiânicos, seja sua doença mental. Para Sholem, não há
dúvida de que ele era um homem doente, embora o fato deva ser tomado
com reservas, especialmente quando dito por seus inimigos. O rabino Yosef Halevi
(de Livorno), por exemplo, escreveu a um dos seguidores no Egito, dizendo que
Sabetai "era conhecido como um idiota e um louco durante toda a sua vida".
Escreve
Sholem: "O tipo maníaco-depressivo desenvolve-se com a puberdade
e os fenômenos patológicos característicos, geralmente,
entre os 15 e 25 anos, nunca durante a infância. Depois disso, diversos
estados psicológicos alternam-se, às vezes, em ritmos regulares,
outras (como no caso de Sabetai) com intervalos imprevisíveis.(...) Foi
precisamente este padrão típico que começou a aparecer
quando Sabatai se aproximou dos 20 anos de idade e que se manifestou completamente
dois anos mais tarde. Há inúmeros testemunhos circunstanciais
corroborando o ritmo cíclico de sua vida psíquica até seus
últimos dias, e a descrição médica da doença
confirma-se inteiramente nos relatos de seus contemporâneos, em particular
do círculo mais próximo."
Em
torno da vida e do messianismo do polêmico Sabetai Tzvi, desfilam uma
constelação de pessoas, entre rabinos, comentaristas, observadores,
estudiosos, fontes de inpiração, admiradores e contendores, entre
eles: Isaac Luria, Haim Vital, Moshe Cordovero, Menahem Recanati, Yosef Gikatila,
Samuel Penina, Moshe Pinheiro, Isaac di Alba, Isaac Silveira, Rafael Yosef,
Baruch Gershon de Arezzom, Avraham Yakhini, Matatias Bloch Ashkenazi, Yacov
Najara, Israel Hazan de Kastoria, Yosef Eskapha, Avraham Miguel Cardoso, Moshe
Calameri, Isaac Calomiti, Avraham Barzillay, Haim Benveniste, Paul Rycaut, Yosef
Halevi, Iedidia Isaac Gabbai, Avraham Cuenque, Samuel Lissabona, Shlomo Alkabets,
Yosef karo, Meir Hiya Rofe, Avraham Pereira, Shlomo Molkho, Yosef Almosnino,
Yacov Hagiz Samuel Gandoor, Moshe Habib, Samuel Primo, Moshe Galante, Avraham
Itzhak, Yacov Semah, Samuel Garmizano, Israel Benjamin, Aharon Kardina, Menahem
Azaria Fano, Arieh Leyb Pryluk, Natan Shapira, Benjamin Rejwan, Shlomo Kohen,
Johan Heinrich Hottinger, David Algazi e Aharon Lapapa.