Os
estudos sobre os judeus portugueses devem muito ao rabino e historiador alemão
Meyer Kayserling (1829-1905). O presente ensaio é baseado em seu clássico
História dos Judeus em Portugal, publicado pela primeira vez
em 1867.
O
mérito da tradução desta obra no Brasil(1) é devido
a Gabriele Borchardt Corrêa da Silva que contou com a colaboração
da historiadora Anita Novinsky, responsável também pela introdução,
atualização bibliográfica e notas ao texto original,
que cita os nomes de Elias Lipiner (tradutor dos textos em hebraico referidos
por Kayserling), de João Cruz Costa (que a encaminhou ao estudo dos
marranos brasileiros) e de Lourival Gomes Machado (cujo interesse pela história
dos cristãos-novos lhe serviu de estímulo).
Kayserling,
como vários especialistas(2), afirma que muito antes da invasão
dos mouros, os judeus já habitavam Portugal. A história dos
judeus portugueses começa no século XII. O primeiro israelita
desta jornada chama-se Jachia Ibn Jaisch, favorito de Afonso Henriques, o
primeiro rei de Portugal. Quando este reconquistou Santarém (1140),
já havia nesta cidade uma comunidade judaica com sinagoga própria,
considerada a mais antiga do país.
A
primeira preocupação do nobre conquistador foi regulamentar,
nas cidades reconquistadas, os negócios civis dos habitantes que professavam
as diversas religiões: judaísmo, cristianismo e islamismo. Segundo
Artur Carlos de Barros Basto, Jaisch morreu em 1151, quando acompanhava Afonso
Henriques numa expedição militar para a conquista de Alcácer
do Sal(3).
Também
sob o reinado de Sancho II (1223-1248), a posição jurídica
dos judeus não sofreu modificações apreciáveis,
a não ser o emprego de judeus no serviço do Estado. Afonso III
(1248-1279), embora tivesse ascendido ao trono com o auxílio do poder
eclesiástico, vivia com este em constantes divergências. Mesmo
assim, não afastou os judeus do serviço estatal.
Os
judeus eram mantidos rigorosamente separados da população cristã,
considerados como classe distinta, tanto do ponto de vista religioso como
político. Assim mesmo gozavam de direitos que, em certo sentido, os
igualavam às mais altas e privilegiadas classes portuguesas.
Afonso
III regulamentou o sistema do Rabinato, conforme citado num documento oficial(4)
em 1278. O rabino-mor usava um selo que trazia o escudo de Portugal. Com ele
eram selados todos os documentos, sentenças e declarações
assinados pelo rabino ou pelo ouvidor que o acompanhava. Os julgamentos e
confirmações dos rabinos regionais ou dos demais funcionários
eram outorgados pelo rabino-mor em nome do rei.
O
rabino-mor praticava a correição entre os judeus tal como o
corregedor da corte fazia entre os cristãos. O rabino-mor português
devia, uma vez por ano, visitar oficialmente todas as comunidades do país.
Chegando a uma localidade habitada por judeus, mandava anunciar publicamente
a todos os que quisessem apresentar queixa contra os rabinos locais ou regionais,
contra os funcionários da localidade, contra os poderosos ou quaisquer
outras pessoas.
Diniz,
filho e herdeiro de Afonso II e, como este, envolvido em questões com
o clero ambicioso, em nada modificou a posição favorável
em que se encontravam os judeus em Portugal e na qual se mantiveram até
a época de Duarte. Não somente dispensou-os do uso dos distintivos
e do pagamento da dízima à Igreja, como também concedeu
privilégios especiais a certos judeus e a comunidades inteiras.
Com
os judeus de Bragança (cidade ao Norte de Portugal), naquele tempo
em número de 19, assinou Diniz um tratado logo após a sua ascensão
ao poder em 1279, que nos fornece ampla visão das condições
da época. Bragança tornou-se posteriormente um dos centros de
maior efervescência judaica. Através desta cidade entraram em
Portugal, em 1492, muitos fugitivos de Castela. Depois da conversão
forçada em Portugal em 1497, aí predominaram os marranos.
Num
auto-de-fé em Coimbra, em 1718, saíram mais de 50 nativos de
Bragança, continuando esta cidade a prover, nos anos seguintes, nove
décimos do total das vítimas do Tribunal da Inquisição
do Norte. Nos registros publicados do Santo Ofício, figuram 805 pessoas
da cidade de Bragança.
Influência
considerável sobre o rei e, conseqüentemente sobre a posição
favorecida dos judeus portugueses, exerceu sem dúvida o então
rabino-mor, Judá (1295-1303), que também serviu ao monarca como
ministro das Finanças. Possuía ele tão vastos bens, que,
no ano de 1298, pôde adiantar a certo Raimundo de Cardona, seis mil
libras para a compra da cidade de Mourão. Da mesma forma Guedelha,
filho de Judá, que sucedeu seu pai no rabinato-mor e ocupou o cargo
de tesoureiro da rainha-mãe, Brites, foi estimado pelo rei, que o presenteou
com duas torres em Beja.
No
primeiro ano do reinado de Afonso IV (1325-1357), foi reafirmada a lei segundo
a qual os judeus não podiam aparecer publicamente sem o distintivo,
a estrela hexagonal amarela, colocada no chapéu ou no capote, nem usar
colares de ouro ou prata, e menos ainda, enfeitar seus cavalos com topetes,
o que, aliás, era vedado até aos cristãos.
O
rei seguinte, Pedro I (1357-1367) foi um exemplo de justiça. Não
deixava crime sem punição, aplicando-a ele próprio muitas
vezes. Os cronistas contam a história da invasão por frades
mendicantes da judearia de Coimbra.
O
rabino local, Salomão Catalan e o chefe da comunidade, Isaac Passacon,
explicaram aos frades que eles não tinham o direito de exigir tais
esmolas dos judeus. Não houve acordo e os frades chegaram a invadir
a casa do judeu Jacob Alfaiate. Os israelitas resistiram e enxotaram de seu
bairro estes frades mendicantes. A justiça de Pedro I não tardou
e por algum tempo protegeu estes israelitas das invasões destes intrusos.
Kayserling
afirma que, de modo geral, os judeus portugueses daquela época não
tinham muitos motivos para reclamar. Com a morte de Pedro, subiu ao trono
Fernando. Principiaram, então, tempos sombrios para Portugal, que não
deixaram de afetar o destino dos judeus lusitanos.
A
ascensão ao trono do rei João I em 1383 provocou verdadeiro
pavor e apreensão na judearia lisboeta. De início, o alvo visado
foram os dois judeus mais abastados e proeminentes de Lisboa: Judá,
ex-tesoureiro-mor e então favorito da rainha e David Negro, que fora
confidente do rei(5). Massacres sucessivos contra judeus na vizinha Espanha
a partir de 1391 também influenciaram as conversões forçadas
dos judeus portugueses, com o apoio real. Um dos principais representantes
dos interesses dos cristãos-novos junto ao rei foi o rabino Judá
Jachia Negro.
Em
1433 faleceu o rei João e assumiu seu filho Duarte. Os judeus de Portugal
foram mais oprimidos por ele do que por qualquer um dos seus antecessores.
Após o falecimento precoce de Duarte, prestado o juramento de fidelidade,
subiu ao trono seu filho Pedro, de apenas seis anos de idade.
Naquela
época, havia judearias isoladas e bem delimitadas em todas as cidades
e aldeias portuguesas em que vivessem mais de dez judeus. Estes gozavam, como
vantagem sobre os muçulmanos, do privilégio de ter seus bairros
dentro das muralhas da cidade, enquanto aqueles, provavelmente devido a seu
trabalho agrícola e suas ocupações mais humildes, habitavam
nos subúrbios e fora dos portões da cidade.
A
maior comunidade judaica encontrava-se em Lisboa, onde havia diversas judearias.
A mais antiga situava-se no bairro da Pedreira, entre os conventos do Carmo
e Santa Trindade, e uma mais nova no bairro da Conceição. Desde
1457 existiu uma terceira judearia perto do Portão de Pedro, chamada
judearia da Alfama.
Depois
de Lisboa, as maiores comunidades e, portanto, as maiores judearias, ficavam
em Santarém, Lamego, Bragança, Guimarães, Évora,
Alcaçar, Coimbra, Viseu, Porto, Chaves, Leiria, Trancoso, Alvito, Guarda,
Alenquer, Elvas, Estremos, Faro, Gravão, Covilhã, Beja, Penamacor,
Vila Marim, Castro Marim, Miranda, Porches, Cacilhas, Mejamfrio, Barcelos
e Vila Viçosa.
Além disso, parte dos judeus viviam dispersos por várias localidades,
faltando-lhes os dez adultos necessários para o serviço divino
regular. Esta situação explica a pergunta dirigida por judeus
portugueses ao rabino de Barcelona, Salomon Adreth, sobre se dois meninos
de 13 anos podiam completar o número de adultos necessários
para o serviço divino. A resposta do rabino foi negativa.
Os
judeus em Portugal precisavam pagar muitos impostos ao Estado. O mais antigo
foi provavelmente a juderenga, capitação fixada em 30 dinheiros,
como em Castela, onde fora introduzida por Sancho II em 1295, cobrada pelo
fato de Judas ter denunciado Jesus aos romanos pela mesma soma.
Na
mesma época, talvez simultaneamente com a introdução
do rabinato, estabeleceu-se, sobre este uma taxa que revertia à Coroa.
Também a taxa corporal não era desconhecida em Portugal. Em
Beja, por exemplo, cada judeu que nela ingressasse pagava um maravedi como
tributo corporal. Além disso, estavam sujeitos a um tributo para o
incremento da marinha. Desde o reinado de Sancho II, que fora o primeiro a
favorecê-la, tiveram os israelitas que fornecer, para cada nau que o
rei equipasse, uma âncora e uma marra com comprimento de 60 côvados
ou pagar a soma equivalente de 60 libras.
Cada
judeu ou judia recolhia anualmente um "serviço real". O rapaz
de sete a 14 anos, cinco soldos. A menina de sete a 12 anos, dois soldos e
meio. As moças maiores de 12 anos, enquanto fossem solteiras, pagavam
meio maravedi. O dobro pagava o solteiro que vivesse na casa paterna. O homem
ou a mulher, solteiros ou casados, eram taxados respectivamente em 20 e dez
soldos. Colheitas agrícolas e transações comerciais também
estavam sujeitas a taxações.
No
reinado seguinte (Afonso V), a situação dos judeus em Portugal
era extremamente favorável. Nenhum dos monarcas anteriores tanto os
protegera, parecendo que todas as leis canônicas e restrições
vigentes tivessem sido repentinamente suspensas. Viviam fora das judearias,
não usavam distintivos, pavoneavam-se sobre cavalos ricamente enfeitados
com custosos arreios, envergando longas túnicas e finos capuzes, com
coletes de seda e espadas douradas. Exerciam cargos públicos.
Como
burgueses livres, também negligenciavam muitos de seus deveres religiosos.
Uma descrição contemporânea sobre o comportamento durante
o culto, que condiz com as censuras de Abraão Saba (o qual viveu mais
ou menos 80 anos depois), nos é transmitida por Salomão Alami,
que viveu na mesma época do rabino Simão Duran, num pequeno
volume(6).
As
liberdades que Afonso V concedera aos judeus nunca foram bem vistas pela massa
ignorante da população e pelo clero corrupto. Isso estimulou
novamente, e agora em grau mais intenso, o ódio da plebe. Em fins de
1449, a ralé de Lisboa aproveitou as desordens internas e a acidental
ausência do rei para tornar patente seu ódio profundo aos judeus.
Da
família Jachia saíram muitos sábios judeus para Portugal,
como José Jachia, nascido em 1424-25. José Zarco, refugiado
espanhol, era conhecido como grande cabalista. A maior figura da ilustração
judaico-portuguesa foi, sem dúvida, Isaac Abravanel(7). Guedelha David
Jachia foi médico e autor do livro As Sete Artes Livres e de
várias poesias em hebraico. Tentou conciliar os caraítas com
os rabanitas(8). José Chajun, nascido em Lisboa e rabino local, escreveu
um comentário a Jeremias e sobre os provérbios dos patriarcas.
Isaac
Abravanel estudou Aristóteles, Roschd, Sinai, Gasali, Maimuni, Iehuda
Halevi, Gersônides. Destes pensadores resultou sua primeira obra, Tsuroth
Hayessodoth (A Forma dos Elementos). Seguiu-se logo outra Atereth
Zaquenim (A Coroa dos Anciãos)(9).
Quando
o rei Afonso conquistou o porto de Arzila, na África, emigraram de
lá 250 judeus de diferentes idades e ambos os sexos, que foram vendidos
como escravos por todo o Reino. Abravanel, solidário a seus irmãos,
não pôde ficar indiferente ante tal fato. Logo que teve notícia
dessa tragédia, organizou uma comissão de doze dos mais importantes
membros da comunidade lisboeta e propôs-se à tarefa de libertar
esses infelizes do cativeiro.
Junto
com mais um membro da comissão viajou por todo o País, a fim
de angariar donativos para esta finalidade. Em, pouco tempo conseguiu arrecadar
dinheiro suficiente para libertar 220 judeus e judias. Eles foram alimentados
e vestidos até aprenderem a língua do país e serem capazes
de cuidar de si. Como iria Abravanel conseguir as enormes somas que a manutenção
e o sustento de tantos infelizes exigiam? Kayserling diz que ele não
podia apelar novamente para a caridade dos seus conterrâneos. Dirigiu-se
a Jechiel de Pisa, uma das maiores fortunas de Florença.
Com
a mudança de regentes em Portugal, Abravanel foi arrancado da paz em
que vivia com sua esposa e três filhos. Instalou-se em Castela e seu
talento para a administração financeira foi rapidamente aproveitada
pelos reis locais. Intrigas e perseguições religiosas obrigaram-no
a continuar sua fuga. Percorreu Nápoles, Corfu e veio a falecer em
Veneza, septuagenário, em 1509.
Notas:
1) Ed. Pioneira. São Paulo, 1971.
2) Haim Beinart, F. Burgos, Millás Vallecrosa, Garcia y Bellide e Mendes
dos Remédios.
3) Ha-Lapid, no. 114. Porto. 1942.
4) "Documento de Bragança", que fala do "arrabi moor
dos judeus".
5) Antônio José Saraiva, em A Inquisição Portuguesa,
chama a atenção para o fato de ter João, nos tumultos
de Lisboa, empenhado a sua popularidade para evitar que a multidão
saqueasse a judearia. Os judeus representavam nesse tempo uma força
que era tomada em consideração.
6) Igueret Mussar (Epístola da Advertência),
escrito em 1415 em Portugal, impresso em Constantinopla (1609), Cracóvia
(1612), Berlim (1713) e mais vezes.
7) A primeira biografia resumida de Abravanel foi escrita pelo italiano
Baruch Usiel Chasekito, como introdução para a obra Maainei
Hayeshua (As Fontes da Salvação), de Abravanel.
8) Os caraítas formaram uma seita judaica fundada no século
VIII na Babilônia por Anan ben David. A base de sua teologia é
a interpretação literal do texto bíblico e a negação
das interpretações rabínicas.
9) Impressa em Sabionetta (1557) e Amsterdã (1739).
MEYER KAYSERLING
Mayer
Kayserling nasceu em Hanover, em 17 de junho de 1829. Foi discípulo
de Gerson Josaphat, S. R. Hirsch, S. L. Rapaport e S. R. Bamberger. Na Universidade
de Berlim dedicou-se ao estudo da história e filosofia. Encorajado
em suas pesquisas históricas por Leopold von Ranke, voltou sua atenção
para a história e a literatura dos judeus da Península Ibérica.
Em
1861 foi nomeado rabino dos judeus na Suíça, onde desenvolveu
intensa atividade em favor dos direitos humanos de seus correligionários.
Em 1870 aceitou o convite para ser rabino e predicador da comunidade judaica
de Budapeste, onde atuou até sua morte, em 1905. Kayserling foi membro
da Real Academia de Madri e de outras sociedades científicas. Tornou-se
conhecido pelas suas pesquisas sobre a vida de Moses Mendelssohn. Publicou
os seguintes trabalhos em alemão:
_ Sefarditas. Poesias Românticas dos Judeus na
Espanha. Contribuição para a Literatura e História dos
Judeus Hispano-portugueses. Leipzig. 1859.
_ Uma Sexta-feira em Madri. Contribuição
para a História dos Judeus Hispano-portugueses. Berlim. 1861.
_ Menasseh ben Israel. Sua Vida e sua Obra. Simultaneamente
uma Contribuição para a História dos Judeus da Inglaterra.
Berlim. 1861.
_ Cristóvão Colombo e a Participação
dos Judeus nas Descobertas Espanholas e Portuguesas. Berlim. 1894.
_ Os Judeus em Toledo. Leipzig.1901.
_ Isaac Aboab III. Sua Vida e suas Poesias. Berdichev.
1902.
Kayserling
reuniu e publicou em espanhol também os Refranos y Proverbios
de los Judios Españoles. Budapeste. 1889.