A
partir do século XVI, a história dos judeus sefaradis se passa
não só em Portugal, mas na Itália, Holanda, Turquia,
Marrocos, Síria e no Brasil. Converções forçadas
e Inquisição provocam a diáspora luso-judaica que ampliará
o mapa mundial e exportará para as novas terras as idéias européias. Hos judeos vii caa tornados
todos nuo tempo christãos,
hos mouros entã lançados
fora do reyno passados
Vimos synogas, mezquitas,
em que sempre erã dictas
e preegadas heresias,
tornadas em nossos dias
igrejas sanctas benditas.
Entre
os judeus mais proeminentes que opuseram resistência à tirania
real, encontra-se Abraham Saba, imigrado em 1492 de Castela e autor de um
comentário sobre o Pentateuco, que conseguiu fugir de Portugal para
Fez, no Marrocos.
Saba,
envolvido em misticismo, era no que se refere ao dogma da ressurreição,
um defensor do particularismo rigoroso e fazia depender, talvez como David
Vital, a vida futura na crença nos 13 artigos. No entanto, pregara
a tolerância e dizia, baseando-se num princípio fundamental
talmúdico, que quem reconhecesse a unidade de Deus, devia ser aceito
também como judeu.
Também
o sábio Isaac Joseph Caro (tio do ainda mais célebre Yosef
Efraim Caro, que fugiu de Toledo para Portugal, perdendo tragicamente todos
os seus filhos), Joseph Habib (parente do gramático Moisés
Habib, que teve de deixar Lisboa já 20 anos antes). Todos estes talentos
do judaísmo lusitano emigraram para a Turquia. Quanto aos judeus
que não puderam fugir de Portugal, "eram cristãos apenas
na aparência. Suas almas não estavam manchadas pelo batismo
e, com uma tenacidade que os dignificava, continuaram fiéis ao judaísmo
e suas leis, como cristãos aparentes ou novos (marranos)(4)".
O
fato de após as conversões forçadas não haver
ainda em Portugal um Tribunal do Santo Ofício, e a atitude relativamente
tolerante assumida por Dom Manuel nos últimos anos de seu reinado,
foram fatores que influíram no desenvolvimento posterior do fenômeno
do marranismo português.
As
condições político-sociais a que os marranos se viram
sujeitos no correr do século, marcaram, com características
essencialmente diferentes, os rumos da história dos marranos de Portugal.
Tanto no seu aspecto social como no seu aspecto político-econômico,
foi muito mais rico em conseqüências o papel representado do
que pelo cripto-judeu espanhol.
Os
judeus haviam sido expulsos de Portugal, suas sinagogas demolidas ou transformadas
em igrejas, os cemitérios convertidos em pastos, praças públicas
e as pedras usadas para construções. Entretanto, não
foi fácil exterminar o judaísmo português. Dom João
III, que subiu ao trono após a morte de seu pai Dom Manuel, a 13
de dezembro de 1521, não havia completado 20 anos quando iniciou
seu reinado. Portugal não tivera ainda rei de visão mais estreita
e ignorante. Ainda criança, nutria o sonho de sua avó, Isabel
de Castela, de expulsar os judeus hereges do seu país. Logo após
coroado, empenhou-se em introduzir a Inquisição em Portugal.
Em
1524, mesmo ano que os judeus do Egito foram severamente perseguidos por
um paxá, João III ordenou que se fizesse inquirições
secretas sobre o modo de viver de milhares de criptojudeus de Lisboa. Jorge
Temudo, a quem fora confiada a tarefa de espionar os marranos, constatou
que estes não iam à igreja aos domingos e dias santos, festejavam
o Shabat e Pessach (a Páscoa), não enterravam seus mortos
em cemitérios católicos perto de conventos e capelas, mas
em terrenos virgens, não pediam os sacramentos na hora da morte e
não estipulavam nos testamentos somas para a celebração
das missas.
Vivia
na corte real naquela época um judeu batizado chamado Henrique Nunes.
Devido ao entusiasmo com que perseguia seus antigos correligionários,
recebeu o apelido de Firme Fé. Nascido em Borba, de pais judeus,
seguiu para Castela onde se converteu e entrou para o serviço de
Lucero, o mais feroz e cruel de todos os inquisidores espanhóis.
Adquiriu logo tamanha habilidade na arte da tortura que o teólogo
Pedro Margalho o recomendou ao rei Dom João, que o chamou das Ilhas
Canárias para organizar a Inquisição em Portugal.
O
monarca ordenou-lhe que entrasse em contato com os judeus secretos, aparentando
ser irmão e correligionário, que vivesse entre eles e averiguasse
suas crenças religiosas. Depois de tê-los localizado em Lisboa,
Santarém e outras localidades, seguiu para Évora, residência
momentânea da corte. Os judeus, traídos, reconheceram que o
impostor, pretextando amizade, não passava de indigno delator, do
qual tinham de livrar-se a qualquer preço. A caminho para Badajoz,
em Valverde, foi esfaqueado e morto em 1524.
Naquela
época chegou a Portugal um judeu que se designava príncipe
de uma casa real judaica e delegado das dez tribos perdidas. Este homem,
David Reubeni, tinha estranha aparência: preto, miúdo, esquelético
e no entanto cheio de coragem, arrojo e de comportamento decidido.
Após
ter visitado os supostos túmulos dos patriarcas em Hebron, permanecido
diversas semanas em Jerusalém, Alexandria e Cairo, dirigiu-se para
Veneza e Roma, onde foi recebido pelo papa Clemente VII, que o tratou com
grande consideração. De Roma embarcou para Portugal, seguindo
para Tavira, Beja e Évora. Passou algum tempo em Santarém
e em novembro de 1525 chegou a Almerim, onde Dom João mantinha sua
corte.
O
aparecimento de Reubeni fascinou Portugal. Diogo Pires, jovem sonhador neocristão
de 24 anos, mais conhecido como Salomão Molcho. Nascido em Portugal
como cristão-novo, Recebeu Pires-Molcho educação refinada,
que lhe permitiu preencher o cargo de escrivão do foro de apelação.
Considerando que o jovem escrivão, poucos anos depois compôs
uma obra em hebraico, tornou-se autor de uma poesia sinagogal aramaica,
de onde supõe-se que talvez já tivesse na mocidade adquirido
conhecimento do hebraico e rabínico.
Quando
Reubeni apareceu em Portugal com seus projetos e fantasias mirabolantes,
Pires passou a ser atormentado por visões e sonhos violentos de fundo
messiânico. Aproximou-se de Reubeni para que este o elucidasse a respeito
dos seus devaneios místicos. No entanto, foi recebido friamente e
quase repelido. Pensando que o dito príncipe o ignorasse por não
trazer ainda em si o sinal da circuncisão (brit milá),
sujeitou-se a essa perigosa e dolorosa operação, de que resultou
uma hemorragia que o acamou.
Após
recuperar-se, Pires teve diversas visões, que quase sempre se referiam
à libertação messiânica dos cristãos-novos.
Declarou
também ter recebido em sonho ordens do céu para abandonar
Portugal e seguir para a Turquia.
O
jovem cabalista e sonhador, recém reingressado ao judaísmo,
atraiu atenção em toda a parte. Viajou pela Turquia, permaneceu
por longo tempo em Israel, especialmente em Sfat, fez inúmeros sermões,
dos quais, a pedido dos seus adeptos, publicou um resumo em Salônica
em 1529, e cujo conteúdo principal se refere ao breve início
da era messiânica. Suas idéias se espalharam pelas comunidades
judaicas de Portugal, onde muitos marranos voltaram publicamente à
religião judaica, desencadeando matanças e muitos deles e
reacendendo o desejo do monarca introduzir o Santo Ofício no reino.
Por
seu lado, os cristãos-novos portugueses escolheram para defender
sua causa um homem hábil e ativo: Duarte da Paz. Ele desempenhou
durante muitos anos um papel tão importante quão misterioso.
De sua origem pouco se sabe. Forçado ao batismo quando jovem, ocupou
diversos cargos militares, foi condecorado com a Ordem de Cristo em recompensa
à bravura que demonstrou na guerra africana e, de volta à
pátria, foi empregado várias vezes a serviço do Estado.
Duarte
da Paz prestava-se extraordinariamente à diplomacia. "De aparência
imponente, apesar de ter perdido uma vista na guerra, belo, de maneiras
finas e cativantes, era corajoso, ativo, impetuoso e loquaz"(5). Estabeleceu-se
em Roma, onde foi defender a causa dos perseguidos marranos diante do papa
Clemente VII.
O
papa ficou indignado ao ouvir as notícias trazidas por Duarte da
Paz, de que o rei de Portugal desejava estabelecer a Inquisição
para confiscar os bens dos condenados. Paz exigia que os bens dos cristãos-novos
não fossem entregues à Igreja ou ao Estado, mas aos seus herdeiros
naturais.
Enquanto
se negociava o estabelecimento da Inquisição, os refugiados
de Portugal tinham permissão de permanecer em território pontifício.
Não eram perturbados por inquirições e podiam professar
livremente o judaísmo. Clemente VII permitiu cordiais relações
entre cristãos e judeus na Itália.
Mas
o ouro acabaria falando mais alto. Enquanto puderam, os marranos portugueses
suplantaram as propinas do rei de Portugal junto ao papa. Mas Estado e Igreja
juntos ganhariam o voto papal para o estabelecimento da Inquisição
no reino português. Para complicar a história, Paz se desentendeu
com seus correligionários, pois prometera ao papa bens acima do que
aqueles poderiam pagar.
A
23 de maio de 1536, o novo papa, Paulo III, publicou a bula na qual a Inquisição
foi definitivamente proclamada em Portugal, suspendendo-se todos os privilégios
anteriores e éditos pontifícios (excetuando-se aquele breve
que o papa e seus parentes, permitindo-lhes que emigrasse de Portugal, com
a determinação de que, nos primeiros três anos, fosse
mantido o procedimento comum em processo civel, e nos primeiros dez anos,
os bens dos condenados não fossem entregues ao fisco, mas aos parentes
próximos).
Diariamente,
a Turquia e a Síria acolhiam famílias de judeus portugueses.
Em Ferrara e Veneza formaram-se grandes comunidades de refugiados lusitanos.
França e especialmente a Holanda incrementaram sua indústria
e comércio com as riquezas trazidas pelos emigrados criptojudeus
que o fanático chefe de um país esgotado e desmoralizado afugentava
com maníaca inistência. Muitos dos marranos que não
conseguiram fugir de Portugal (e foram muitos), refugiaram-se em terras
menos acessíveis, como de Trás-os-Montes.
Desde
o início do século XVI os criptojudeus passaram a abandonar
Portugal, em grupos ou individualmente, espalhando-se pelos principais países
da época, onde já haviam judeus estabelecidos e gozando de
liberdade religiosa. Kayserling destaca a presença dos marranos pelas
terras italianas. "Enquanto a Inquisição, por aspirações
hierárquicas e um falso entusiasmo pela fé, afugentava-os
de Portugal, ou os eliminava pela ação do Tribunal, acolhia-os
a própria hierarquia, o baluarte da fé, Roma e o Vaticano."
E
continua: "Absorvidos por interesses privados e tencionando criar para
si um poderio secular, os papas Clemente VII e Paulo III já haviam
oferecido asilo aos criptojudeus refugiados de Portugal, garantindo-lhes,
por escrito, que poderiam praticar abertamente o judaísmo e executar
seus ritos sem a menor interferência."
Os
papas protegiam estes israelitas, pois sabiam apreciar suas habilidades
industriais e tinham por ambição constante fomentar o florescimento
do comércio de Ancona. Graças a tais privilégios, esta
cidade ficou repleta de judeus portugueses (em 1553, cerca de três
mil), tornando-a localidade rica e poderosa.
Em
Bolonha, Nápoles e Veneza construíram-se florescentes comunidades
de imigrantes portugueses recém chegados, cujo número elevado
levou um abade do Porto - Fernando de Goes Loureiro - a compilar em fins
do século XVI, um livro inteiro com os nomes daqueles judeus secretos
que na Itália retornaram abertamente ao judaísmo, calculando
ao mesmo tempo as somas elevadas de que foi privado o seu país de
origem.(7). Como se vê, para os padres portugueses, tudo girava em
torno de dinheiro e bens materiais. A questão judaica em Portugal
era na verdade uma questão financeira, muito mais de que religiosa.
Os
sefaradis na Itália deixaram para o mundo uma importante contribuição
cultural, como provam edições de livros significativos - como
Consolações às Tribulações de Israel,
de Samuel Usque(8). - Usque não escreveu uma história cronológica,
mas antes salientou os momentos importantes dos sofrimentos de Israel. Sua
intenção principal era consolar seu povo que retornava ao
judaísmo, fortalecendo-os no amor pela religião-mãe
com uma visão do seu próprio passado e da ação
paternal da providência.
Influiu
na educação e na formação moral dos judeus portugueses
um parente seu, também morador de Ferrara, Abraham Salomão
Usque, que sob o nome de Duarte Pinhel vivia em Lisboa em 1543. Estabelecido
em Ferrara, montou ali uma grande impressora, que fornecia aosantigos criptojudeus
livros de oração e obras religiosas em espanhol, português
e hebraico. Ali foi editada a famosa Bíblia de Ferrara, por
conta do espanhol Yom Tob Levi Athias (Jerônimo de Vargas).
Salomão
Usque, o terceiro personagem de realce desta família, tinha suas
atividades voltadas para a lírica. Em 1567 traduziu diversas poesias
de Petrarca para o espanhol, o que causou a admiração dos
seus contemporâneos e interpretou, em conjunto com outro judeu (Lazaro
Graciliano), um drama espanhol, traduzido para o italiano por Leone de Modena
- Ester - baseado na história trágica da rainha perso-judia.
Amatus
Lusitanus (João Rodrigues), foi médico célebre em toda
a Itália. Nascido em 1511, dedicou-se ao estudo da medicina, exercendo-a
em Salamanca e em Santarém. Seu irmão mais novo, Elias Montalto,
também médico, a conselho de Cencino Cencini, para ocupar
o cargo de médico particular da rainha Maria de Médici, em
Paris. Esta não somente concedeu-lhe liberdade religiosa, como promoveu-o
a conselheiro.
Notas:
1) Meyer Kayserling: História dos Judeus em Portugal (Ed.
Pioneira, São Paulo, 1971), p. 93.
2) História dos Judeus em Portugal, 115.
3) Miscellanea (Évora, 1554).
4) História dos Judeus em Portugal, p. 120.
5) História dos Judeus em Portugal, p. 164.
6) História dos Judeus em Portugal, pp. 221-222.
7) Chathalogo dos Portuguezes Christãos-novos que se hião
Declarar Judios a Italia com a Relacao dos Copiosas Sommas de Dinheiro que
Levantão.
8) Ferrara, 1552.