Após
as conversões forçadas e do estabelecimento da Inquisição
em Portugal, muitos judeus passaram a se estabelecer em países da orla
do Mediterrâneo, onde podiam gozar de liberdade religiosa. Um destes
países foi a Itália. Com o tempo, organizou-se também
em Roma a perseguição da Igreja aos judeus locais.
Os
poucos judeus que escaparam da Inquisição romana refugiaram-se
em Ferrara (cujo duque os equiparou aos habitantes cristãos), ou em
Pesaro (cujo comércio devia ser incrementado com esta nova imigração).
Em 1558, porém, o duque de Urbino, que obedecia às ordens do
papa, também os expulsou dessa cidade.
Muitos
dos judeus errantes procuraram na Turquia a paz que lhes fora negada pelo
fanatismo da Europa. Também Amatus Lusitanus, admirado humanista, após
curta permanência em Pesaro, emigrou para Salônica, onde encontrou
novo amigo e protetor, Joseph Nassi, duque de Naxos.
Outros
criptojudeus dirigiram-se para Veneza, onde mais que em outros lugares, sentiam-se
pretegidos das perseguições da Inquisição e onde
participaram ativamente nos estudos científicos. Um dos primeiros imigrantes
judeus portugueses na cidade dos doges foi o sábio Emanuel Aboab,
bisneto do célebre Isaac Aboab, cujos descendentes do século
XVII e XVIII ocuparão destacadas posições na Itália,
Holanda, Inglaterra e Alemanha.
Tão
cedo quanto a Itália, também a França acolheu refugiados
portugueses. Logo após o édito de 1497, encontramos emigrantes
portugueses além Pirineus, os quais, atravessando a fronteira como
marranos, de início se sujeitaram às imposições
religiosas, sem deixar de obedecer, no entanto, às leis judaicas, como
a circuncisão e a festa do Shabat.
Nunca
se ouviu dizer que sua permanência no país tenha sido dificultada
pelos reis da França. Ao contrário, Henri II concedeu-lhes determinados
privilégios, através dos quais lhes foram outorgados os principais
direitos e liberdades. Estas vantagens atraíram muitos judeus portugueses
a se estabelecer nas cidades francesas do sul, enriquecendo a França
com seu talento cultural e comercial.
Mas
foi a Holanda que realmente recebeu uma grande quantidade de judeus saídos
de Portugal. Conforme diz Kayserling, Amsterdã em pouco tempo transformou-se
numa segunda Jerusalém, devido ao elevado número de criptojudeus
que para lá afluíram. Os refugiados portugueses visavam de preferência
os Países Baixos, que nesta época lutavam pela sua independência.
Cidades
como Amsterdã e Antuérpia tornavam-se importantes centros comerciais
na Europa e proporcionavam aos marranos não apenas refúgio contra
a intolerância, mas também um largo campo para suas atividades
industriais.
Mayor
Rodrigues, com seu marido Gaspar Lopes Homem, seus filhos Manuel e Antônio
Lopes Pereira e sua filhas Maria Nunes e Justa Pereira, prepararam-se para
emigrar de Portugal em 1590. Os irmãos Manuel e Maria (de uma beleza
estonteante), embarcaram com seu tio Miguel Lopes com destino à Holanda.
Durante a viagem foram capturados por um navio inglês, que perseguia
os que navegavam sob a bandeira hispano-portuguesa. Foram levados prisioneiros
para Londres.
A
beleza de Maria seduziu o capitão do navio, um duque inglês,
a ponto de pedir-lhe a mão em casamento. As relações
da bela judia portuguesa com o duque chegaram à rainha Elizabeth, que
ordenou que lhe trouxessem Maria à sua presença. A rainha tratou-a
com especial consideração. Tudo que a bela Maria pediu do favor
real foi sua liberdade. A bela jovem deixou a Inglaterra e, com seus parentes,
continuou viagem para a Holanda.
Maria
Nunes Pereira lançou, por assim dizer, o fundamento da grande comunidade
de Amsterdã. Alguns anos depois, chegou a sua mãe, Mayor Rodrigues,
com seus outros irmãos e, logo após (1598), a viúva Melchior
Franco Mendes, da cidade do Porto, com dois filhos: Francisco (Isaac) Mendes
Medeiros e Cristóvão (Abraham Mardochai) Franco Mendes. Estes
eram tidos em alta consideração pelo Senado da cidade, um devido
a seus conhecimentos, o outro por sua infinita caridade(1).
Kayserling
comenta que existe uma obra do poeta David Franco Mendes sobre a primeira
imigração dos judeus portugueses para Amsterdã. Trata-se
de Memórias do Estabelecimento e Progresso dos Judeus Portugueses
e Espanhóis nesta Cidade de Amsterdã. A família Mendes
Franco, posteriormente, foi uma das mais conceituadas na Holanda. Ainda em
1770 o príncipe e a princesa de Orange estiveram presentes à
festa de casamento de Jacó Franco Mendes.
A
comunidade judaica de Amsterdã aumentou rapidamente. O salão
cedido como sinagoga por Samuel Palache (agente do imperador de Marrocos na
Holanda), tornou-se pequeno. Deliberou-se a construção da primeira
sinagoga da cidade. Jacob Tirado e David Abendana (filho da emigrada Justa
Abigail Pereira e Jacob Israel Belmonte, da ilha da Madeira, que cantou em
versos espanhóis os sacrificados pela Inquisição), colocaram
a pedra fundamental da primeira Beit HaKnesset (sinagoga) de Amsterdã,
a Beth Yaacov.
Hamburgo,
no norte da Alemanha, tornou-se outro importante centro de refugiados sefarditas
de Portugal. Um dos primeiros judeus que para lá emigrou foi o médico
Rodrigo de Castro, nascido em Lisboa em meados do século XVI, proveniente
de uma família em que a arte médica era como que uma forte tradição.
O sobrenome de solteira de sua mãe era Vaz. Estabelecido a princípio
em Antuérpia, talvez a conselho do doutor Enrico Rodriguez, amigo e
conterrâneo, seguiu para Hamburgo em 1594.
Sua
fama logo ultrapassou os limites desta cidade. De todas as regiões
chegavam enfermos em busca da solução de suas doenças.
O rei da Dinamarca, o arcebispo de Bremen, o duque de Holstein, o conde de
Hessen eram alguns de seus clientes. Durante quase 50 anos foi Castro salvador
e auxiliador da humaninade. Em meio a todo o trabalho, ainda encontrou tempo
para escrever duas obras médicas e um pequeno trabalho sobre o matrimônio
entre cunhados. Morreu cerca de 1630.
Sob
domínio da Espanha, o rei Felipe III usou de uma política sutil
para atrair com maior facilidade os bens dos criptojudeus. Revogou a proibição
de emigrarem (decretada por seu pai) e, por uma lei de 4 de abril de 1601,
facilitou a todos os judeus secretos de Portugal vender seus bens imóveis
e deixar o país com suas famílias. Ao mesmo tempo, proibiu,
sob severas penas, chamar alguém de "cristão-novo",
"marrano" ou "judeu". Grandes levas de judeus aproveitaram
para deixar então Portugal, mas ainda sobraram suficientes vítimas
para a Inquisição. A 3 de agosto de 1603, realizou-se um grande
auto-de-fé, na Praça da Ribeira, em Lisboa.
Uma
das vítimas queimadas vivas foi o monge franciscano, de 24 anos, Diogo
de Assunção. Estudando a Bíblia e através
de investigações próprias, convenceu-se das verdades
do judaísmo, não fazendo segredo deste fato aos seus companheiros
de Ordem. Dizia e pregava que o judaísmo era a única religião
verdadeira. Assunção foi preso pela Inquisição
de Lisboa. Os teólogos tentaram de todas as maneiras reconquistá-lo
para o cristianismo. Em vão. Permaneceu fiel à sua convicção,
refutando os clérigos com trechos da Sagrada Escritura e declarando-lhes
que conhecia muitos outros monges que partilhavam de suas convicções,
não as revelando apenas por temor à fogueira.
Junto
com Diogo de Assunção foi condenado a morrer queimado Tamar
Barrocas, possivelmente parente do poeta marrano Madochai Barrocas, autor
de alguns tercetos sobre sua circuncisão(2). A morte do franciscano
causou profunda impressão sobre todos os judeus secretos dentro e fora
de Portugal. Cantaram sua morte como mártir, que se tornou uma vergonha
para a Igreja e uma glória para a Sinagoga.
Na
Holanda, outros marranos e mesmo cristãos encontraram-se com o judaísmo.
David Jesurum, salvo da Inquisição espanhola e que desde muito
jovem se dedicava às musas, sendo conhecido no círculo de seus
amigos como el poeta niño. Rui Lopes Rosa, que após sua
conversão ao judaísmo adotou o nome de Ezequiel Rosa, e que
comentou poeticamente as semanas do profeta Daniel. E Miguel David de Barrios,
antigo capitão e fecundo poeta.
Em
Amsterdã, onde viviam estes poetas, a morte de Assumção
tornou-se conhecida por intermédio de um jovem, Paulo de Pina, que
tencionava viajar para Roma e lá tornar-se monge, iniciando a sua peregrinação
em 1599. Seu primo, Diogo Gomes Abraham Cohen Lobato procurou desaconselhá-lo
de seu propósito. Com a intermediação do médico
Elias Montalto, de Livorno, Pina regressou a Lisboa e ao judaísmo.
Viajou pelo Brasil e depois a Amsterdã, onde assumiu plenamente a religião
judaica, com o nome de Rohel Jesurum. Escreveu a obra poético-dramática
Diálogo dos Montes(3).
Nascido
em 1604, Menasseh ben Israel deixou Portugal rumo a Amsterdã com sua
família, quando contava menos de um ano de idade. Educado pelo rabino
Isaac Uziel, emigrado de Fez (Marrocos) e chefe espiritual da nova sinagoga
Neveh Shalom. Uziel, destacado conhecedor do Talmud e da matemática,
médico e poeta, criou uma terceira comunidade em Amsterdã, onde
condenava com prédicas as tolices e a indiferença de seus ouvintes.
Sob sua direção, Israel progrediu com brilhantismo e, antes
dos 18 anos, assumiu em 1622 o cargo de seu mestre(4). Casou-se logo depois
com uma neta de Isaac Abravanel, nascida em Guimarães.
Israel
assumiu seu cargo numa época movimentada para a jovem comunidade de
Amsterdã. Irrompera então um conflito de caráter religioso,
envolvendo Uriel Gabriel da Costa. Nascido no Porto no último decênio
do século XVI, da família cristã-nova, foi todavia educado
no catolicismo e destinado à carreira de advogado. Sensível,
oprimia-se com qualquer tipo de injustiça.
Aos
25 anos de idade tornou-se cônego e tesoureiro de importante igreja
de colégio. Apesar de educado por jesuítas, cedo lhe surgiram
dúvidas acerca dos dogmas do catolicismo. O temor de uma condenação
eterna abalou seu espírito. Desejava liberdade, sem pecados e uma absolvição
das culpas. Leu a Bíblia, condenou o Novo Testamento
e decidiu trocar a religião católica pelo judaísmo. Deixou
seu cargo, vendeu a casa luxuosa que herdara do pai, abandonou grande parte
dos bens que possuía e, com sua mãe e irmãos partiu para
Amsterdã, onde se circuncidou.
Não
encontrou também no judaísmo a paz de espírito procurada.
Ao retornar ao judaísmo, não pensara na obrigação
de levar uma vida exterior segundo as leis mosaico-talmúdicas. Logo
sentiu que os usos religiosos aos quais se dava tanta importância não
correspondiam à lei estabelecida por Moisés (ou pelos sacerdotes
- cohanim - que esquematizaram as leis na Torá). Costa
negou a tradição, repudiou o conjunto das leis rabínicas
e apôs-se abertamente ao rabinismo.
Os
rabinos e líderes comunitários tentaram convencê-lo a
não tornar público o seu ceticismo e não criar discórdias
e dúvidas na nova comunidade, marcadamente de origem marrana que reencontrava-se
com a religião judaica.
Não
o assustavam nem a excomunhão, nem o afastamento da comunidade. Insistiu
no seu ponto de vista e elaborou um trabalho em língua portuguesa,
onde desenvolveu o seu sistema religioso, negando principalmente a imortalidade
da alma.
Antes
desta obra ser publicada, escreveu contra Uriel da Costa o médico Samuel
da Silva, conhecedor das obras judaicas de cunho teológico-fisolóficas
e que dez anos antes traduzira o tratado de Moshe ben Maimon Sobre a Penitência.
Escreveu também e publicou um tratado em português, denominado
justamente Sobre a Imortalidade da Alma. Atacando Costa, exprime a
esperança de reconduzir o apóstata ao caminho da fé.
Uriel
da Costa tornou-se mais zeloso de suas convicções e publicou
neste mesmo ano seu livro Pesquisas sobre a Tradição Farisaica(5).
Incitado pelos rabinos, Costa foi preso e os exemplares de seu livro que regava
a imortalidade da alma foram confiscados. Após oito dias de cárcere
e ao pagamento de fiança por seus irmãos, recuperou a liberdade.
Após
15 anos de contínuos ataques, durante os quais foi hostilizado e rejeitado
por seus irmãos e parentes, resignou-se a uma conciliação
com a Sinagoga, negociação conduzida por um sobrinho, homem
proeminente e de grande influência. Dias depois, foi acusado de não
preparar seus alimentos segundo da cashrut(6). Juntaram-se outros episódios
e nova disputa (agora ainda mais intensa) entre Costa e os rabinos ganhou
forma.
O
estado mental do jurista contestador piorou com a morte da esposa, o impedimento
pelos irmãos de contrair novo casamento e a alienação
das posses com parentes indiferentes. Suportou tudo com resignação
durante sete anos. Procurou então nova reconciliação
com a Sinagoga. Publicamente pronunciou seu arrependimento, renegou suas antigas
opiniões e, envelhecido e tímido, foi punido em presença
da comunidade. Não suportou tamanha humilhação. Dias
após receber o castigo, suicidou-se com um tiro de pistola em 1640.
Desde
então, os rabinos de Amsterdã passaram a levar mais a sério
a necessidade do ensino religioso a seus membros, a fim de evitar novos desvios.
O médico Abraham Ferrar e seu primo David Ferrar empenharam-se para
unir as três congregações judaicas da cidade. Alguns anos
depois, apareceram os sermões de Samuel Jachia, para a edificação
nos dias de festa e de jejum, e o Conciliador, do rabino Menasseh ben Israel,
tentativa de conciliar trechos contraditórios das Escrituras.
A comunidade judaica de Amsterdã viveria ainda outro grande caso de
polêmica religiosa. No centro da mesma estava o filósofo Baruch
Spinoza, que merece um ensaio à parte...
Notas:
1) Meyer Kayserling: História dos Judeus em Portugal (Ed. Pioneira,
São Paulo, 1971).
2) Miguel Daniel Levi de Barrios: Relación de los Poetas.
3) Os descendentes de Rohel Jesurun fizeram parte da aristocracia inglesa.
O último membro proeminente dessa família foi Erskine Childer,
patriota irlandês, executado por sua participação na rebelião
irlandesa de 1922. Do lado feminino, Rachel de Payba tornou-se duquesa de
Norfolk, conforme ROTH, C. History of the Marranos.
4) Isaac Usiel faleceu em 1620. Foi enterrado ao lado de Joseph Pardo, o primeiro
rabino da Congregação Beth Yaacov.
5) O título original da obra é Examen das Tradiçoens
Phariseas Confereidas com la Ley Escrita por Uriel, Jurista Hebreo (Amsterdã,
1623).
6) Leis de alimentação do judaísmo.