HISTÓRIA / TEOLOGIA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 057 - Julho/2002
Fé e heresia no judaísmo de Amsterdã
        Após as conversões forçadas e do estabelecimento da Inquisição em Portugal, muitos judeus passaram a se estabelecer em países da orla do Mediterrâneo, onde podiam gozar de liberdade religiosa. Um destes países foi a Itália. Com o tempo, organizou-se também em Roma a perseguição da Igreja aos judeus locais.
        Os poucos judeus que escaparam da Inquisição romana refugiaram-se em Ferrara (cujo duque os equiparou aos habitantes cristãos), ou em Pesaro (cujo comércio devia ser incrementado com esta nova imigração). Em 1558, porém, o duque de Urbino, que obedecia às ordens do papa, também os expulsou dessa cidade.
        Muitos dos judeus errantes procuraram na Turquia a paz que lhes fora negada pelo fanatismo da Europa. Também Amatus Lusitanus, admirado humanista, após curta permanência em Pesaro, emigrou para Salônica, onde encontrou novo amigo e protetor, Joseph Nassi, duque de Naxos.
        Outros criptojudeus dirigiram-se para Veneza, onde mais que em outros lugares, sentiam-se pretegidos das perseguições da Inquisição e onde participaram ativamente nos estudos científicos. Um dos primeiros imigrantes judeus portugueses na cidade dos doges foi o sábio Emanuel Aboab, bisneto do célebre Isaac Aboab, cujos descendentes do século XVII e XVIII ocuparão destacadas posições na Itália, Holanda, Inglaterra e Alemanha.
        Tão cedo quanto a Itália, também a França acolheu refugiados portugueses. Logo após o édito de 1497, encontramos emigrantes portugueses além Pirineus, os quais, atravessando a fronteira como marranos, de início se sujeitaram às imposições religiosas, sem deixar de obedecer, no entanto, às leis judaicas, como a circuncisão e a festa do Shabat.
        Nunca se ouviu dizer que sua permanência no país tenha sido dificultada pelos reis da França. Ao contrário, Henri II concedeu-lhes determinados privilégios, através dos quais lhes foram outorgados os principais direitos e liberdades. Estas vantagens atraíram muitos judeus portugueses a se estabelecer nas cidades francesas do sul, enriquecendo a França com seu talento cultural e comercial.
        Mas foi a Holanda que realmente recebeu uma grande quantidade de judeus saídos de Portugal. Conforme diz Kayserling, Amsterdã em pouco tempo transformou-se numa segunda Jerusalém, devido ao elevado número de criptojudeus que para lá afluíram. Os refugiados portugueses visavam de preferência os Países Baixos, que nesta época lutavam pela sua independência.
        Cidades como Amsterdã e Antuérpia tornavam-se importantes centros comerciais na Europa e proporcionavam aos marranos não apenas refúgio contra a intolerância, mas também um largo campo para suas atividades industriais.
        Mayor Rodrigues, com seu marido Gaspar Lopes Homem, seus filhos Manuel e Antônio Lopes Pereira e sua filhas Maria Nunes e Justa Pereira, prepararam-se para emigrar de Portugal em 1590. Os irmãos Manuel e Maria (de uma beleza estonteante), embarcaram com seu tio Miguel Lopes com destino à Holanda. Durante a viagem foram capturados por um navio inglês, que perseguia os que navegavam sob a bandeira hispano-portuguesa. Foram levados prisioneiros para Londres.
        A beleza de Maria seduziu o capitão do navio, um duque inglês, a ponto de pedir-lhe a mão em casamento. As relações da bela judia portuguesa com o duque chegaram à rainha Elizabeth, que ordenou que lhe trouxessem Maria à sua presença. A rainha tratou-a com especial consideração. Tudo que a bela Maria pediu do favor real foi sua liberdade. A bela jovem deixou a Inglaterra e, com seus parentes, continuou viagem para a Holanda.
        Maria Nunes Pereira lançou, por assim dizer, o fundamento da grande comunidade de Amsterdã. Alguns anos depois, chegou a sua mãe, Mayor Rodrigues, com seus outros irmãos e, logo após (1598), a viúva Melchior Franco Mendes, da cidade do Porto, com dois filhos: Francisco (Isaac) Mendes Medeiros e Cristóvão (Abraham Mardochai) Franco Mendes. Estes eram tidos em alta consideração pelo Senado da cidade, um devido a seus conhecimentos, o outro por sua infinita caridade(1).
        Kayserling comenta que existe uma obra do poeta David Franco Mendes sobre a primeira imigração dos judeus portugueses para Amsterdã. Trata-se de Memórias do Estabelecimento e Progresso dos Judeus Portugueses e Espanhóis nesta Cidade de Amsterdã. A família Mendes Franco, posteriormente, foi uma das mais conceituadas na Holanda. Ainda em 1770 o príncipe e a princesa de Orange estiveram presentes à festa de casamento de Jacó Franco Mendes.
        A comunidade judaica de Amsterdã aumentou rapidamente. O salão cedido como sinagoga por Samuel Palache (agente do imperador de Marrocos na Holanda), tornou-se pequeno. Deliberou-se a construção da primeira sinagoga da cidade. Jacob Tirado e David Abendana (filho da emigrada Justa Abigail Pereira e Jacob Israel Belmonte, da ilha da Madeira, que cantou em versos espanhóis os sacrificados pela Inquisição), colocaram a pedra fundamental da primeira Beit HaKnesset (sinagoga) de Amsterdã, a Beth Yaacov.
        Hamburgo, no norte da Alemanha, tornou-se outro importante centro de refugiados sefarditas de Portugal. Um dos primeiros judeus que para lá emigrou foi o médico Rodrigo de Castro, nascido em Lisboa em meados do século XVI, proveniente de uma família em que a arte médica era como que uma forte tradição. O sobrenome de solteira de sua mãe era Vaz. Estabelecido a princípio em Antuérpia, talvez a conselho do doutor Enrico Rodriguez, amigo e conterrâneo, seguiu para Hamburgo em 1594.
        Sua fama logo ultrapassou os limites desta cidade. De todas as regiões chegavam enfermos em busca da solução de suas doenças. O rei da Dinamarca, o arcebispo de Bremen, o duque de Holstein, o conde de Hessen eram alguns de seus clientes. Durante quase 50 anos foi Castro salvador e auxiliador da humaninade. Em meio a todo o trabalho, ainda encontrou tempo para escrever duas obras médicas e um pequeno trabalho sobre o matrimônio entre cunhados. Morreu cerca de 1630.
        Sob domínio da Espanha, o rei Felipe III usou de uma política sutil para atrair com maior facilidade os bens dos criptojudeus. Revogou a proibição de emigrarem (decretada por seu pai) e, por uma lei de 4 de abril de 1601, facilitou a todos os judeus secretos de Portugal vender seus bens imóveis e deixar o país com suas famílias. Ao mesmo tempo, proibiu, sob severas penas, chamar alguém de "cristão-novo", "marrano" ou "judeu". Grandes levas de judeus aproveitaram para deixar então Portugal, mas ainda sobraram suficientes vítimas para a Inquisição. A 3 de agosto de 1603, realizou-se um grande auto-de-fé, na Praça da Ribeira, em Lisboa.
        Uma das vítimas queimadas vivas foi o monge franciscano, de 24 anos, Diogo de Assunção. Estudando a Bíblia e através de investigações próprias, convenceu-se das verdades do judaísmo, não fazendo segredo deste fato aos seus companheiros de Ordem. Dizia e pregava que o judaísmo era a única religião verdadeira. Assunção foi preso pela Inquisição de Lisboa. Os teólogos tentaram de todas as maneiras reconquistá-lo para o cristianismo. Em vão. Permaneceu fiel à sua convicção, refutando os clérigos com trechos da Sagrada Escritura e declarando-lhes que conhecia muitos outros monges que partilhavam de suas convicções, não as revelando apenas por temor à fogueira.
        Junto com Diogo de Assunção foi condenado a morrer queimado Tamar Barrocas, possivelmente parente do poeta marrano Madochai Barrocas, autor de alguns tercetos sobre sua circuncisão(2). A morte do franciscano causou profunda impressão sobre todos os judeus secretos dentro e fora de Portugal. Cantaram sua morte como mártir, que se tornou uma vergonha para a Igreja e uma glória para a Sinagoga.
        Na Holanda, outros marranos e mesmo cristãos encontraram-se com o judaísmo. David Jesurum, salvo da Inquisição espanhola e que desde muito jovem se dedicava às musas, sendo conhecido no círculo de seus amigos como el poeta niño. Rui Lopes Rosa, que após sua conversão ao judaísmo adotou o nome de Ezequiel Rosa, e que comentou poeticamente as semanas do profeta Daniel. E Miguel David de Barrios, antigo capitão e fecundo poeta.
        Em Amsterdã, onde viviam estes poetas, a morte de Assumção tornou-se conhecida por intermédio de um jovem, Paulo de Pina, que tencionava viajar para Roma e lá tornar-se monge, iniciando a sua peregrinação em 1599. Seu primo, Diogo Gomes Abraham Cohen Lobato procurou desaconselhá-lo de seu propósito. Com a intermediação do médico Elias Montalto, de Livorno, Pina regressou a Lisboa e ao judaísmo. Viajou pelo Brasil e depois a Amsterdã, onde assumiu plenamente a religião judaica, com o nome de Rohel Jesurum. Escreveu a obra poético-dramática Diálogo dos Montes(3).
        Nascido em 1604, Menasseh ben Israel deixou Portugal rumo a Amsterdã com sua família, quando contava menos de um ano de idade. Educado pelo rabino Isaac Uziel, emigrado de Fez (Marrocos) e chefe espiritual da nova sinagoga Neveh Shalom. Uziel, destacado conhecedor do Talmud e da matemática, médico e poeta, criou uma terceira comunidade em Amsterdã, onde condenava com prédicas as tolices e a indiferença de seus ouvintes. Sob sua direção, Israel progrediu com brilhantismo e, antes dos 18 anos, assumiu em 1622 o cargo de seu mestre(4). Casou-se logo depois com uma neta de Isaac Abravanel, nascida em Guimarães.
        Israel assumiu seu cargo numa época movimentada para a jovem comunidade de Amsterdã. Irrompera então um conflito de caráter religioso, envolvendo Uriel Gabriel da Costa. Nascido no Porto no último decênio do século XVI, da família cristã-nova, foi todavia educado no catolicismo e destinado à carreira de advogado. Sensível, oprimia-se com qualquer tipo de injustiça.
        Aos 25 anos de idade tornou-se cônego e tesoureiro de importante igreja de colégio. Apesar de educado por jesuítas, cedo lhe surgiram dúvidas acerca dos dogmas do catolicismo. O temor de uma condenação eterna abalou seu espírito. Desejava liberdade, sem pecados e uma absolvição das culpas. Leu a Bíblia, condenou o Novo Testamento e decidiu trocar a religião católica pelo judaísmo. Deixou seu cargo, vendeu a casa luxuosa que herdara do pai, abandonou grande parte dos bens que possuía e, com sua mãe e irmãos partiu para Amsterdã, onde se circuncidou.
        Não encontrou também no judaísmo a paz de espírito procurada. Ao retornar ao judaísmo, não pensara na obrigação de levar uma vida exterior segundo as leis mosaico-talmúdicas. Logo sentiu que os usos religiosos aos quais se dava tanta importância não correspondiam à lei estabelecida por Moisés (ou pelos sacerdotes - cohanim - que esquematizaram as leis na Torá). Costa negou a tradição, repudiou o conjunto das leis rabínicas e apôs-se abertamente ao rabinismo.
        Os rabinos e líderes comunitários tentaram convencê-lo a não tornar público o seu ceticismo e não criar discórdias e dúvidas na nova comunidade, marcadamente de origem marrana que reencontrava-se com a religião judaica.
        Não o assustavam nem a excomunhão, nem o afastamento da comunidade. Insistiu no seu ponto de vista e elaborou um trabalho em língua portuguesa, onde desenvolveu o seu sistema religioso, negando principalmente a imortalidade da alma.         Antes desta obra ser publicada, escreveu contra Uriel da Costa o médico Samuel da Silva, conhecedor das obras judaicas de cunho teológico-fisolóficas e que dez anos antes traduzira o tratado de Moshe ben Maimon Sobre a Penitência. Escreveu também e publicou um tratado em português, denominado justamente Sobre a Imortalidade da Alma. Atacando Costa, exprime a esperança de reconduzir o apóstata ao caminho da fé.
        Uriel da Costa tornou-se mais zeloso de suas convicções e publicou neste mesmo ano seu livro Pesquisas sobre a Tradição Farisaica(5). Incitado pelos rabinos, Costa foi preso e os exemplares de seu livro que regava a imortalidade da alma foram confiscados. Após oito dias de cárcere e ao pagamento de fiança por seus irmãos, recuperou a liberdade.
        Após 15 anos de contínuos ataques, durante os quais foi hostilizado e rejeitado por seus irmãos e parentes, resignou-se a uma conciliação com a Sinagoga, negociação conduzida por um sobrinho, homem proeminente e de grande influência. Dias depois, foi acusado de não preparar seus alimentos segundo da cashrut(6). Juntaram-se outros episódios e nova disputa (agora ainda mais intensa) entre Costa e os rabinos ganhou forma.
        O estado mental do jurista contestador piorou com a morte da esposa, o impedimento pelos irmãos de contrair novo casamento e a alienação das posses com parentes indiferentes. Suportou tudo com resignação durante sete anos. Procurou então nova reconciliação com a Sinagoga. Publicamente pronunciou seu arrependimento, renegou suas antigas opiniões e, envelhecido e tímido, foi punido em presença da comunidade. Não suportou tamanha humilhação. Dias após receber o castigo, suicidou-se com um tiro de pistola em 1640.
        Desde então, os rabinos de Amsterdã passaram a levar mais a sério a necessidade do ensino religioso a seus membros, a fim de evitar novos desvios. O médico Abraham Ferrar e seu primo David Ferrar empenharam-se para unir as três congregações judaicas da cidade. Alguns anos depois, apareceram os sermões de Samuel Jachia, para a edificação nos dias de festa e de jejum, e o Conciliador, do rabino Menasseh ben Israel, tentativa de conciliar trechos contraditórios das Escrituras.
A comunidade judaica de Amsterdã viveria ainda outro grande caso de polêmica religiosa. No centro da mesma estava o filósofo Baruch Spinoza, que merece um ensaio à parte...

Notas:
1) Meyer Kayserling: História dos Judeus em Portugal (Ed. Pioneira, São Paulo, 1971).
2) Miguel Daniel Levi de Barrios: Relación de los Poetas.
3) Os descendentes de Rohel Jesurun fizeram parte da aristocracia inglesa. O último membro proeminente dessa família foi Erskine Childer, patriota irlandês, executado por sua participação na rebelião irlandesa de 1922. Do lado feminino, Rachel de Payba tornou-se duquesa de Norfolk, conforme ROTH, C. History of the Marranos.
4) Isaac Usiel faleceu em 1620. Foi enterrado ao lado de Joseph Pardo, o primeiro rabino da Congregação Beth Yaacov.
5) O título original da obra é Examen das Tradiçoens Phariseas Confereidas com la Ley Escrita por Uriel, Jurista Hebreo (Amsterdã, 1623).
6) Leis de alimentação do judaísmo.

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