BIOGRAFIA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 058 - Agosto/2002
Anne Frank muito além do "Diário"
        Existe um romance de Philip Roth, Diário de uma Ilusão (The Ghost Writer), em que o protagonista Nathan Zuckerman passa todo o livro imaginando que a moça a quem foi apresentada trata-se, na verdade, de Anne Frank. Esta citação é apenas para ilustrar como a figura da adolescente judia, autora do célebre diário, marcou fundo a geração crescida com a memória do Holocausto.
        Até recentemente, as informações sobre Anne Frank resumiam-se ao Diário. Mas sua história antes do confinamento no sótão e após sua prisão pelos nazistas era praticamente desconhecida. Como foi sua vida antes de ser obrigada ao confinamento no sótão? Como os alemães descobriram seu esconderijo? Ela teria sido traída por amigos? Quem foi o responsável pela conservação, até a publicação, dos cadernos com seu emocionante relato? Todas estas perguntas inquietavam a jornalista austríaca Melissa Müller, que decidiu pesquisar a fundo a vida da adolescente. O resultado pode ser conferido em Anne Frank: Uma Biografia (Ed. Record).       
        Anne Frank anunciou-se ao mundo com barulho. Nasceu às 7h30 da manhã de 12 de junho de 1929, no início de um tímido verão de Frankfurt. O parto não foi dos mais tranqüilos. Por pouco a criança com 54 centímetros de comprimento e pesando pouco mais de quatro quilos, não recebeu oxigênio de menos. No final, deu tudo certo. Com a irmã Margot, três anos mais velha, viveu os primeiros anos brincando com outras crianças não-judias num bairro simples na periferia da cidade.
        Apenas quatro meses após o nascimento de Anne o pânico tomou conta das nações com a queda radical da Bolsa de Nova York, em 25 de outubro, uma Sexta-feira Negra na história das finanças mundiais. Com o passar dos anos, a situação econômica e social na Alemanha só se agravou.
        Os pais de Anne, Otto e Edith Frank, eram bastante realistas para encarar com seriedade o perigo. Mas ao mesmo tempo estavam convencidos que a crise era passageira e por isso não queriam perturbar o mundo encantado das filhas. Mas a realidade mostrava-se nua e crua. Crescia o desemprego, diminuía o seguro social e aumentavam os impostos na mesma proporção que a insatisfação popular. A história se repetia e os supostos culpados foram encontrados: os judeus. A propaganda anti-semita do Partido Nacional Socialista, em franca ascensão, funcionava a todo vapor. Não havia outra opção a não ser deixar o país. Em 1933 toda a família mudava-se para Amsterdã, cidade holandesa famosa pela tolerância, que no século XVII já recebera milhares de judeus ibéricos fugidos da Inquisição.
        Na nova cidade, Anne foi matriculada na escola Montessori, cujo método de permitir que a criança pudesse ser ela mesma se adaptava à índole energética e obstinada da garota. Na descrição de Melissa Müller, a adolescente brincalhona, divertida e distraída amava a escola e o espaço livre. Com toda sua energia juvenil, Anne era suscetível a doenças como gripe, e vez ou outra estava de cama. Nas férias a família aproveitava para viajar. Anne tinha parentes em Basiléia e, quando os visitava, costumava passar o tempo com o primo Bernhard Elias, quatro anos mais velho, com quem se entendia muito bem.
        Apesar da crise, as pessoas de um modo geral iam levando suas vidas o melhor que podiam. A invasão alemã sobre a Holanda daria uma guinada radical na vida dos Frank. Aí entramos na parte mais conhecida de Anne e, portanto, a biografia de Müller não acrescenta muito. O que vale a pena citar da biógrafa, sobre o período de reclusão (de 6 de julho de 1942 a 4 de agosto de 1944), é a transformação a que a menina foi submetida: "O regime nazista, que pisou com suas botas a dignidade humana, roubou a juventude de Anne e obrigou-a a amadurecer em ritmo acelerado." O que também merece destaque na biografia é a análise sobre como os Frank teriam sido descobertos e delatados.
        Nos últimos capítulos do livro, Melissa Müller traça os caminhos de Anne Frank após ter sido presa e encaminhada para os campos de concentração. Em Westerbork, Anne, que era desinteressada em religião, passa a falar mais de Deus. Destino seguinte: o terrível campo de Auschwitz-Birkenau, Polônia! Após o transporte como gado em trens sufocantes, os prisioneiros eram recebidos a bordoadas pelos SS. As mulheres nuas, de cabeças raspadas, sedentas e esfomeadas, eram enviadas para uma enorme sala de ducha. Algumas companheiras que conviveram com Anne em Auschwitz recordam que ela parecia quieta e ensimesmada, não se assimilando aos quadros de horror. Outras recordações dizem que ela fora corajosa e forte, tendo conseguido até rações extras para a mãe e a irmã.
        Entre o final de outubro e início de novembro de 1944 Anne e Margot foram transferidas para o campo de Bergen-Belsen, no norte da Alemanha. Enfraquecidas, foram atingidas pela epidemia de tifo. Margot foi a primeira a morrer. A tragédia roubou de Anne as últimas forças que ainda lhe restavam. Faleceu alguns dias depois, em março de1945, algumas semanas antes de tropas inglesas libertarem o campo.
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