LIVRO
JACQUES CUKIERKORN
No. 059 - Setembro/2002
O guia de Cordeiro para os marranos
        Segundo estudiosos, dez por cento da população brasileira tem origens judaicas, pois eles descendem de marranos. Em vários casos, a noção de pertencer à Nação judaica tem sido transmitida de geração para geração desde tempos da Inquisição em Portugal. Em outros casos, esta realidade permaneceu dormente no inconsciente de indivíduos, que sem saber porque, sentem afinidade e amor pelo povo de Israel.
        Nos últimos anos tem havido um ressurgimento de interesse na questão marrana. Mais do que nunca, descendentes dos marranos andam buscando informações históricas sobre seu passado. Muitos indivíduos têm expressado interesse em aprender sobre a vida e práticas judaicas. E alguns até mesmo buscam autoridades rabínicas visando formalmente retornar à fé de seus ancestrais.
        O establishment judaico, de modo geral, tem certas reservas a estes indivíduos, porque eles são incapazes de provar uma ascendência judaica materna, condição essencial de acordo com a lei judaica (Halachá) para o reconhecimento de alguém como judeu. Além disto, desde um princípio existe um certo receio de acercar-se a pessoas interessadas na religião, pois o judaísmo não é proselitista.
        Visado responder várias perguntas que existiam sobre a verdade do passado judaico dos marranos, eu decidi dedicar o estudo da minha tese rabínica para esta questão. Eu visitei populações do interior do Rio Grande do Norte e pude verificar que realmente existem grupos que, quase 500 anos após as conversões forçadas, ainda mantém vivas tradições e práticas judaicas, assim como a noção de descender do povo de Israel.
        A minha escolha de objeto de estudo foi baseada no fato que estas populações isoladas não poderiam ter sofrido influência cultural de comunidades judaicas. O resultado de minha pesquisa se encontra no meu trabalho intitulado Retornando - Coming Back: A Description and Historical Perspective of the Crypto-Jewish Communities of Rio Grande do Norte (Brazil), que foi submetido e aprovado no Hebrew Union College, em Cincinati, Ohio, nos Estados Unidos.
        Através dos meus estudos tive o prazer de encontrar outras pessoas que, como eu, acreditam na importância de promover aos marranos educação, informação e uma solução rabínica no que diz respeito ao seu status diante da religião judaica. Entre elas destaco o autor de Os Marranos e a Diáspora Sefardita, o jornalista Hélio Daniel Cordeiro.
        Eu entendo que o objetivo do autor deste livro é promover respostas às perguntas mais básicas que normalmente ocorrem a indivíduos interessados no seu passado marrano. Este livro pode ser visto como um manual, um guia para a busca de uma possível identidade marrana.
        Conta a tradição judaica que um não judeu uma vez se acercou de um grande rabino, Hillel, e pediu: "Rabi, ensine-me toda a Torá (lei e sabedoria judaica) no tempo em que eu possa ficar parado em uma perna só." Hillel respondeu: "A essência da Torá é veahavtá le reachá kamochá! Ama a teu próximo como a ti mesmo! (Levítico 19:18). O resto é comentário. Agora vá e estude os comentários."       
        Para aqueles que buscam entender melhor seu passado marrano, o livro de Hélio Daniel Cordeiro, Os Marranos e Diáspora Sefardita é um bom começo para o estudo dos comentários.

TRECHO
        "Já é relativamente bem conhecida nos meios acadêmicos do Brasil e do Exterior a presença dos cristãos-novos portugueses na terra brasileira desde a chegada ao País dos primeiros colonos. Foram estes cristãos-novos (judeus convertidos à força ao catolicismo) que ajudaram decididamente na povoação e desenvolvimento brasileiros. Foram eles também que, mais tarde, ao lado de outros brasileiros, que conquistaram a Independência do Brasil. Ao longo de todos estes anos a contribuição cristã-nova era sentida em praticamente todos os campos da vida nacional, do comércio à literatura."

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ÍNDICE
Os marranos e a diápora sefardita
Segue a transcrição da parte principal do índice do livro de Hélio Daniel Cordeiro.
_Fundação da Shemá
        Estudo do marranismo
        H. I. Sobel: uma visão rabínica
_Primeiros artigos
        Meyer Kayserling e a história dos judeus em Portugal
        O fenômeno marrano
_Sistematizando estudos
        A nação dos marranos está em alta
        O marrano como realidade viva
        O vocábulo “marrano” e a dispersão judaico-portuguesa
        A Inquisição segundo Anita Novinsky
_Sefarad’92
        Dos califados na Espanha ao ladino de Jerusalém
        Ecos da cultura judaico-ibérica em 500 anos de história
        Colombo, um judeu português?
        A nova Sefarad e os judeus
        Raízes judaicas no Brasil
        Vínculos do fogo
        Inquisição: rol dos culpados
        Inquisição: ensaios sobre mentalidade, heresias e arte
        Inquisição: um punhal sobre a Espanha
        Sefarad’92 na USP
_Definindo conceitos
        O marranismo como filosofia existencial da sobrevivência sefaradi pós-Inquisição
        Os marranos - quem são?
        Sobrenomes cristãos-novos portugueses durante a Inquisição
_O interesse da imprensa
        Raízes à mostra
        Marranos: os judeus retornados
        Volta às raízes
        Judeus reescrevem a história do Brasil à sua própria imagem
_Diplomacia cultural: Israel, Europa, EUA
_Caleidoscópio religioso-literário
        Orações dos marranos portugueses
                “Os Dez Mandamentos”
                “Orações de sábado”
                “Ao entrar numa Igreja”
                “Oração de Daniel”
                “Oração dos marranos de Trás-os-Montes e de Belmonte”
        Canções ladinas
                “Yo m’enamorí”
                “Por amar una doncella”
        Poemas
                “Spinoza”
                “La vieja sinagoga”
                “Ken dira a la Espanya