Elias
Lipiner considera Gaspar da Gama o primeiro judeu a pisar em solo brasileiro
e o define como "uma figura deveras curiosa e exótica". Existem
várias versões sobre a biografia de Gaspar da Gama (não
se sabe seu nome judaico original) até ele ter sido aprisionado por
Vasco da Gama nas Índias.1
Para
o cronista Gaspar Correia (nascido em 1496) o administrador Gaspar da Gama
estava a serviço de Sabayo, governador árabe de Goa (Índia),
como capitão-mor de sua esquadra em 1498 quando um dia soube da passagem
naquelas paragens de uma esquadra portuguesa e decidiu ir saudar a tripulação.
Homem alto e maduro, exprimiu sua alegria em visitar um navio de sua terra,
a Espanha, e pediu permissão para entrar a bordo de uma das embarcações.
Vasco
da Gama, desconfiado de tratar-se de um espião, ordenou que lhes amarrassem
as mãos e o prendessem. O visitante foi torturado e disse ser judeu
de Granada, ter viajado por muitos países e ter chegado à Índia
através da Turquia e Meca. O navegador recusou a libertá-lo,
imaginando como poderia ser útil os conhecimentos do visitante. Levou-o
a Portugal, onde foi batizado no ano seguinte, sendo Vasco da Gama seu padrinho.
Seu novo nome seria uma homenagem a um dos três reis magos (Gaspar)
e ao próprio padrinho.
Gaspar
da Gama caiu nas graças de Manuel I. O rei chamava-o freqüentemente
à corte para ouvir suas histórias de terras exóticas.
Como falava várias línguas, o monarca designou-o conselheiro
e intérprete do almirante Pedro Álvares Cabral na expedição
que descobriu o Brasil.
João
de Barros (1496-1571) relata, porém, que Gaspar da Gama afirmou que
seus pais eram originários de Bosna (ou Posna), Polônia, tendo
sido obrigados a abandonar sua casa por um decreto que expulsava os judeus.
Emigraram para Jerusalém e para Alexandria, onde Gaspar nasceu.
Enquanto
Damião de Góes (1502-74) diz em sua obra que Gaspar, quando
visitou a expedição portuguesa ao largo da ilha de Angediva,
não falou espanhol, mas italiano, acrescentando que era judeu natural
do reino da Polônia, da cidade Posna."
Lipiner
sugere que tenha nascido em torno de 1458, em Alexandria (Egito) e tenha chegado
muito jovem à Índia. Arnold Wiznitzer (que também crê
ter sido Gaspar da Gama o primeiro judeu a chegar ao Brasil), está
mais inclinado a achar ter ele nascido em Granada, versão defendida
por Gaspar Correia, que morou na Índia e trás mais detalhes
do biografado. Alguns cronistas dizem que ele tinha família em Calecute,
outros em Cochim e outros ainda em Goa.2
Com
outro intérprete, Gonzalo Madeira, de Tânger (possivelmente cristão-novo),
tentou se comunicar com os índios tupis. Deixou o Brasil em 11 de maio
de 1500 e prestou valiosos serviços na Índia. Parece ter regressado
a Portugal, onde teria morrido entre 1510-15. Costuma-se atribuir a Gaspar
da Gama e Fernando de Noronha a mudança dos nomes cristãos Ilha
de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz para Brasil, nome da árvore encontrada
nas terras descobertas que passou a designar o País.
Notas:
1) Em Gaspar da Gama - Um Converso na Frota de Cabral (Ed. Nova Fronteira),
Elias Lipiner faz um amplo estudo sobre este personagem histórico,
baseando-se em documentação de cronistas da época do
Descobrimento.
2) Os Judeus no Brasil Colonial (Ed. Pioneira, São Paulo, 1966),
pp. 2-4.