E
assim faz-se. Inicia-se o processo violento da conversão, e aparece,
nos mundos da terra toda de Portugal, o cristão-novo, aquele batizado
impositivamente, e passam a sê-lo todos os levados à pia batismal
por ordem do rei, que também promulga, pelo édito de 5 de dezembro,
a expulsão dos judeus e mouros do reino.
Na
Espanha, a notícia convém, embora os reis católicos tenham
permitido que os mouros se fixassem em seu país ou se utilizassem do
reino vizinho no sentido de irem para África. Para os judeus, a saída
é o mar. D. Manuel, o Venturoso, ama o luxo, as artes, tem presas no
coração ardoroso as vaidades cortesãs, imita os príncipes
italianos, assim, pouco sabe da sobriedade dos reis cavaleiros, quer ser magnífico
todo o tempo, tal duque da família de Medici, exótico, colonialista,
exímio, senhor da "navegação e comércio da
Etiópia".
No
alto do convento dos Jerônimos, mandado por ele construir à beira
do rio Tejo, de onde partem as naus descobridoras, tem o rei a intuição
do mar, seus marinheiros vão às Índias, Brasil, Groelândia,
Terra do Labrador, decreta as Ordenações Manuelinas.
E escreve seu Diário: "Daqui de cima, amo o meu povo e
os súditos que passo a ter a cada volta das minhas caravelas. De longe,
amo-os como ninguém. Quando ouço-lhes, todavia, de perto a respiração,
afronto-me. Eis o hábito da mesmice, das coisas sem importância,
dos queixumes que não empolgam. Que homem tem densidade para postar-se
ao lado da majestade?
Digo
ao papa Alexandre VI, através do meu embaixador, D. Fernando de Almeida,
Bispo de Ceuta, que ampliei com minhas inumeráveis conquistas, o gênero
humano. Encerro agora o ciclo do Mediterrâneo e Adriático, e
vou conhecer, pela rota das montanhas das águas, a terra ignota. Deus
me leva, Deus me retorna. Sem Ele, que expedição triunfa? Tenho
que suportar, embora, a perícia do mestre em matemática Abraão
Zacuto entre os meus. É ele quem ensina a Vasco da Gama os segredos
acerca dos cálculos da marinharia. Um judeu dando lições
aos cristãos melhores que posso reunir! Mas se eles pagam o que mando,
por que não reconhecer?
Ligo
Portugal às lonjuras antípodas. Ahmad ibn Madjid, o piloto mais
cobiçado de todos, é meu empregado. Tendo-o a bordo, uno duas
civilizações que antes se batiam: a arábico-índica,
dos mares apenas conhecidos dos asiáticos, e a européia, que
pela primeira vez sai das latitudes ocidentais. Tiro de Veneza os mercados
de pimenta, do cravo, da noz-moscada, enfio minha mão nos tesouros
do Oriente. O que mais pode-se pedir a um soberano, além de manter
as terras aradas e limpas e os mares dominados? Os judeus, infames e desditosos,
até quando vou ter que enviá-los aos bandos para o inferno?
De onde certamente vieram."
Do
lado dos Jerônimos, esmeraram-se os arquitetos portugueses na construção
da igreja e do convento de Santa Maria de Belém, junto do mar frondoso
e dócil aos apetites reinóis. Ergueu-os na praia das Despedidas,
de onde saem e para onde voltam as embarcações vitoriosas. E
a torre de pedra branca, mais alta do que o costume, em estilo florido, ousado,
pleno de graças, que só a mãe do Cristo merece.
Enquanto
rezam todos os que crêem, matam os que podem, sofrem os que devem, D.
Manuel I levanta armada numa vista, de treze navios, dos quais nove seriam
entregues ao jovem Pedro Álvares Cabral, "homem de muitos primores
e honra", educado no Castelo de São Jorge, em Lisboa, embora sob
a coordenação de Vasco da Gama, com quem Pedro se atrita, por
não querer subordinar-se a ele, o que lhe valeu, de D. Manuel, o afastamento,
morrendo, aos 52 anos, sozinho e enfermo, auto-exilado na pequena cidade de
Santarém, ao norte de Lisboa.