LITERATURA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 064 - Maio/2003
A mulher marrana na ficção de Selma Szkurnik
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        Co-autora de Rua Nova 19 (Ed. Papel Virtual), livro sobre a sobrevivência espiritual e física dos judaizantes portugueses perseguidos pela fúria da Inquisição, fala de seu processo criativo para o romance. Selma, que reside no Rio de Janeiro, concedeu esta entrevista a JUDAICA através do correio eletrônico.
        Como nasceu seu interesse pelo tema cristão-novo?
        O meu interesse pelo assunto nasceu quando entendi que o Brasil ao comemorar 500 anos de descobrimento havia esquecido da fundamental importância dos cristãos-novos, desde a chegada nas caravelas com Pedro Álvares Cabral. Um País que não conhece a sua verdadeira história tem sua identidade comprometida, talvez sejamos chegados a meios sucessos porque nos desconhecemos.
        Como foi o processo de estudo do assunto?
        A pesquisa foi feita através da leitura de vários livros durante três anos, e também eu tive o apoio da professora Anita Novinsky, que me ajudou muito nas dúvidas que eu tive durante o processo de estudo. Na realidade eu estava preparando um roteiro de um longa metragem, já concluído, quando achei importante expor o que estava sentindo em um livro, assim nasceu Rua Nova 19.
        Achei muito criativa a abordagem em forma de ficção. Por que optou por esta linguagem, ao invés da abordagem ensaística?
        Quando eu convidei o Virgílio Moretzsohn para participar do livro foi para que ele pudesse dar este tipo de tratamento lingüístico, sei que não estamos habituados a este tipo de linguagem, mas este fato faz com que a obra seja diferente de algumas.
        Como vê o papel da mulher na preservação do judaísmo marrano?
        Entendi durante a minha pesquisa que foi evidente e primordial o papel das mulheres neste período da história. A intimidade do lar - reduto puramente feminino - foi de fundamental importância. Elas foram as responsáveis pela manutenção da tradição judaica, em vários sentidos tanto na parte dietética como nos costumes diários.
        Hoje nós vemos diversas comunidades que mantém hábitos que certamente remontam deste período, tanto no Brasil como em Portugal. Podemos exemplificar Belmonte em Portugal e também Venhaver no Rio Grande do Norte no Brasil. O curioso nestas comunidades é que os hábitos adquiridos e preservados foram passados na sua maioria pelas mulheres.
        O que fica muito evidente na narrativa de seu livro é a sensualidade das personagens femininas nas relações amorosas. Isso foi consciente?
        As minhas personagens têm o feminino apresentado sem falsos pudores, acho que as mulheres têm desejo, erotismo e eu não quis que elas fossem tratadas como a mesma dialética que o momento histórico impunha: ser alguém ditado de forma imposta sem poder assumir a sua verdade.
        Caso este livro fosse narrado nos dias de hoje, as trataria da mesma forma, a sensualidade não tem moda.
        Fique à vontade para fazer qualquer comentário complementar.
        Acho que o mundo está vivendo uma grande reflexão imposta pela intolerância, a história certamente ajudará nesta revisão de valores.
TRECHO / RUA NOVA 19
Eis o homem novo
SELMA ROSENZWEIG SZKURNIK
        E assim faz-se. Inicia-se o processo violento da conversão, e aparece, nos mundos da terra toda de Portugal, o cristão-novo, aquele batizado impositivamente, e passam a sê-lo todos os levados à pia batismal por ordem do rei, que também promulga, pelo édito de 5 de dezembro, a expulsão dos judeus e mouros do reino.
        Na Espanha, a notícia convém, embora os reis católicos tenham permitido que os mouros se fixassem em seu país ou se utilizassem do reino vizinho no sentido de irem para África. Para os judeus, a saída é o mar. D. Manuel, o Venturoso, ama o luxo, as artes, tem presas no coração ardoroso as vaidades cortesãs, imita os príncipes italianos, assim, pouco sabe da sobriedade dos reis cavaleiros, quer ser magnífico todo o tempo, tal duque da família de Medici, exótico, colonialista, exímio, senhor da "navegação e comércio da Etiópia".
        No alto do convento dos Jerônimos, mandado por ele construir à beira do rio Tejo, de onde partem as naus descobridoras, tem o rei a intuição do mar, seus marinheiros vão às Índias, Brasil, Groelândia, Terra do Labrador, decreta as Ordenações Manuelinas. E escreve seu Diário: "Daqui de cima, amo o meu povo e os súditos que passo a ter a cada volta das minhas caravelas. De longe, amo-os como ninguém. Quando ouço-lhes, todavia, de perto a respiração, afronto-me. Eis o hábito da mesmice, das coisas sem importância, dos queixumes que não empolgam. Que homem tem densidade para postar-se ao lado da majestade?
        Digo ao papa Alexandre VI, através do meu embaixador, D. Fernando de Almeida, Bispo de Ceuta, que ampliei com minhas inumeráveis conquistas, o gênero humano. Encerro agora o ciclo do Mediterrâneo e Adriático, e vou conhecer, pela rota das montanhas das águas, a terra ignota. Deus me leva, Deus me retorna. Sem Ele, que expedição triunfa? Tenho que suportar, embora, a perícia do mestre em matemática Abraão Zacuto entre os meus. É ele quem ensina a Vasco da Gama os segredos acerca dos cálculos da marinharia. Um judeu dando lições aos cristãos melhores que posso reunir! Mas se eles pagam o que mando, por que não reconhecer?
        Ligo Portugal às lonjuras antípodas. Ahmad ibn Madjid, o piloto mais cobiçado de todos, é meu empregado. Tendo-o a bordo, uno duas civilizações que antes se batiam: a arábico-índica, dos mares apenas conhecidos dos asiáticos, e a européia, que pela primeira vez sai das latitudes ocidentais. Tiro de Veneza os mercados de pimenta, do cravo, da noz-moscada, enfio minha mão nos tesouros do Oriente. O que mais pode-se pedir a um soberano, além de manter as terras aradas e limpas e os mares dominados? Os judeus, infames e desditosos, até quando vou ter que enviá-los aos bandos para o inferno? De onde certamente vieram."
        Do lado dos Jerônimos, esmeraram-se os arquitetos portugueses na construção da igreja e do convento de Santa Maria de Belém, junto do mar frondoso e dócil aos apetites reinóis. Ergueu-os na praia das Despedidas, de onde saem e para onde voltam as embarcações vitoriosas. E a torre de pedra branca, mais alta do que o costume, em estilo florido, ousado, pleno de graças, que só a mãe do Cristo merece.
        Enquanto rezam todos os que crêem, matam os que podem, sofrem os que devem, D. Manuel I levanta armada numa vista, de treze navios, dos quais nove seriam entregues ao jovem Pedro Álvares Cabral, "homem de muitos primores e honra", educado no Castelo de São Jorge, em Lisboa, embora sob a coordenação de Vasco da Gama, com quem Pedro se atrita, por não querer subordinar-se a ele, o que lhe valeu, de D. Manuel, o afastamento, morrendo, aos 52 anos, sozinho e enfermo, auto-exilado na pequena cidade de Santarém, ao norte de Lisboa.