Walter
Feldman: um
democrata de espírito libertário
Onde nasceram os seus pais? Meu
pai nasceu em Rownes (Polônia) e minha mãe em Riga (Letônia).
Meu pai veio para o Brasil com 23 anos, pouco antes da II Guerra Mundial e
minha mãe veio com dois anos de idade. Você nasceu em São Paulo? Nasci
em São Paulo (SP), sou paulistano da gema. Nasci em 29 de janeiro de
1954, quatro dias depois do quarto centenário da fundação
de São Paulo. Há uma coisa interessante. O prefeito então
era o Jânio Quadros, que foi meu adversário quando ele voltou
a ser prefeito no final dos anos 80 e eu era vereador. Em
54 o Jânio Quadros anunciou que daria um enxoval de presente para os
que nascessem em São Paulo no dia 25 de janeiro. E eu fui nascer quatro
dias depois... - risos - A minha família era muito pobre e minha mãe
sonhava que eu nascesse no dia 25... Você vê que até no
meu nascimento eu já tinha uma birra com o Jânio... Fale um pouco de sua infância e seus primeiros
estudos. Com
dois anos de idade meus pais se mudaram para Itu, no interior paulista, por
causa das atividades comerciais de meu pai. Ali estudei em escola pública.
Em Itu o meu pai criou uma escolinha judaica para as crianças judias
da cidade. Havia cinco famílias judias lá. Meu pai ensinava
para elas o hebraico bíblico e as festas religiosas. Aos
13 anos voltamos para São Paulo. Sempre moramos na região da
Vila Mariana. Continuei os estudos no Liceu Pasteur, uma escola francesa.
Minha educação judaica foi feita com meus pais. Meu avô
materno foi zelador do colégio I. L. Peretz e meu avô paterno
era chazan. Depois você foi estudar Medicina? Exatamente.
Também na Vila Mariana, na Escola Paulista de Medicina, perto de casa.
Me especializei em Clínica Médica e UTI. Logo que me formei
fui para o Exército. Fui convocado e fui servir no Pantanal, onde fiquei
um ano. Voltei para São Paulo no final de 1978 e trabalhei como médico
até 1984. Mas já em 83 iniciei a vida política como vereador.
Como é que você sentiu a chama da vocação
política em sua vida? Senti
a vocação política desde a faculdade. Estávamos
no período militar e eu tinha muito claro a questão da liberdade,
participação e expressão de idéias. O regime militar
me chocava muito. Então comecei a participar do Centro Acadêmico,
das lutas estudantis, greves, passeatas... Comecei daí a fazer um trabalho
na periferia de São Paulo. Eu estava ligado ao Partido Comunista do
Brasil. Comente um pouco o início da sua atividade político-partidária. Fui
eleito vereador a primeira vez pelo PMDB, quando o Fernando Henrique Cardoso
era o presidente estadual de nosso partido. Aprendi muito com ele. As reuniões
que fazíamos eram verdadeiras palestras. O prefeito era o Mário
Covas. Em 88 fui reeleito, já na fundação do PSDB. O
prefeito então era o Jânio Quadros. Vamos abrir um capítulo à parte para você
falar do Jânio. Vocês dois tinham uma desavença especial.
Explique um pouco o que acontecia. A
minha formação política é democrática e
libertária. Tínhamos acabado de sair do regime militar e para
mim o Jânio era o responsável por aquele regime. Eu tinha uma
contradição ideológica com ele. Somado a isso, eu via
sua administração como não planejadora, não democrática,
centralista e mantinha uma relação com a Câmara dos vereadores
muito subserviente. Eu tinha todos os motivos para ser opositor a ele e me
tornei sua principal oposição. Sempre que ele fazia alguma coisa,
a imprensa imediatamente queria saber o que eu achava. O
Jânio Quadros era uma figura folclórica. Por exemplo, ele escrevia
bilhetinhos para todas as pessoas. E então nós inventamos os
bilhetinhos da população para o Jânio. Ele também
viajava muito e uma vez cheguei a ir atrás do Jânio a Boston.
Na minha opinião, ele não tinha identidade com a cidade. Fizemos
também o Dia Municipal da Cobrança, para cobrar aquilo que ele
disse que ia fazer. Foi uma mobilização enorme da população.
Tudo isso não era nada pessoal. Eu o achava inclusive uma figura muito
inteligente, mas para mim representava a ditadura ultrapassada. E nos anos seguintes, como seguiu na vida pública? Em
89 entrou a Luíza Erundina (PT) na Prefeitura de São Paulo e
continuamos oposição. Em 93-94 dei uma parada e voltei para
a medicina. Daí o Mário Covas me convidou para coordenar a sua
campanha para governador aqui na Capital. Aceitei e em seguida resolvi sair
candidato a deputado estadual. Fui eleito, tornei-me líder do Governo
em 95, fui para a Secretaria da Casa Civil em 97, depois fui reeleito deputado
estadual e eleito presidente da Assembléia Legislativa paulista. Durante seus dois mandatos como deputado estadual, quais
as principais realizações executadas? Antes
da administração Mário Covas, o estado de São
Paulo era uma nave sem rumo. Havia forte endividamento, carências na
área social e atraso na infra-estrutura do Estado exigida para a modernidade.
Covas entrou com a forte decisão de colocar o trem nos trilhos. Qual
era o parceiro que ele tinha? O Legislativo! Nós
precisamos privatizar muitas estatais para botar as contas em dia, modernizar
a máquina de arrecadação, fazer os programas de demissão
voluntária e redução de custos. Tudo isso passou pela
Assembléia. E esta parceria Governo-Legislativo continuou com o Geraldo
Alckmin.