ENTREVISTA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 064 - Maio/2003
Walter Feldman: um
democrata de espírito libertário
        Onde nasceram os seus pais?
        Meu pai nasceu em Rownes (Polônia) e minha mãe em Riga (Letônia). Meu pai veio para o Brasil com 23 anos, pouco antes da II Guerra Mundial e minha mãe veio com dois anos de idade.
        Você nasceu em São Paulo?
        Nasci em São Paulo (SP), sou paulistano da gema. Nasci em 29 de janeiro de 1954, quatro dias depois do quarto centenário da fundação de São Paulo. Há uma coisa interessante. O prefeito então era o Jânio Quadros, que foi meu adversário quando ele voltou a ser prefeito no final dos anos 80 e eu era vereador.
        Em 54 o Jânio Quadros anunciou que daria um enxoval de presente para os que nascessem em São Paulo no dia 25 de janeiro. E eu fui nascer quatro dias depois... - risos - A minha família era muito pobre e minha mãe sonhava que eu nascesse no dia 25... Você vê que até no meu nascimento eu já tinha uma birra com o Jânio...
        Fale um pouco de sua infância e seus primeiros estudos.
        Com dois anos de idade meus pais se mudaram para Itu, no interior paulista, por causa das atividades comerciais de meu pai. Ali estudei em escola pública. Em Itu o meu pai criou uma escolinha judaica para as crianças judias da cidade. Havia cinco famílias judias lá. Meu pai ensinava para elas o hebraico bíblico e as festas religiosas.
        Aos 13 anos voltamos para São Paulo. Sempre moramos na região da Vila Mariana. Continuei os estudos no Liceu Pasteur, uma escola francesa. Minha educação judaica foi feita com meus pais. Meu avô materno foi zelador do colégio I. L. Peretz e meu avô paterno era chazan.
        Depois você foi estudar Medicina?
        Exatamente. Também na Vila Mariana, na Escola Paulista de Medicina, perto de casa. Me especializei em Clínica Médica e UTI. Logo que me formei fui para o Exército. Fui convocado e fui servir no Pantanal, onde fiquei um ano. Voltei para São Paulo no final de 1978 e trabalhei como médico até 1984. Mas já em 83 iniciei a vida política como vereador.
        Como é que você sentiu a chama da vocação política em sua vida?
        Senti a vocação política desde a faculdade. Estávamos no período militar e eu tinha muito claro a questão da liberdade, participação e expressão de idéias. O regime militar me chocava muito. Então comecei a participar do Centro Acadêmico, das lutas estudantis, greves, passeatas... Comecei daí a fazer um trabalho na periferia de São Paulo. Eu estava ligado ao Partido Comunista do Brasil.
        Comente um pouco o início da sua atividade político-partidária.
        Fui eleito vereador a primeira vez pelo PMDB, quando o Fernando Henrique Cardoso era o presidente estadual de nosso partido. Aprendi muito com ele. As reuniões que fazíamos eram verdadeiras palestras. O prefeito era o Mário Covas. Em 88 fui reeleito, já na fundação do PSDB. O prefeito então era o Jânio Quadros.
        Vamos abrir um capítulo à parte para você falar do Jânio. Vocês dois tinham uma desavença especial. Explique um pouco o que acontecia.
        A minha formação política é democrática e libertária. Tínhamos acabado de sair do regime militar e para mim o Jânio era o responsável por aquele regime. Eu tinha uma contradição ideológica com ele. Somado a isso, eu via sua administração como não planejadora, não democrática, centralista e mantinha uma relação com a Câmara dos vereadores muito subserviente. Eu tinha todos os motivos para ser opositor a ele e me tornei sua principal oposição. Sempre que ele fazia alguma coisa, a imprensa imediatamente queria saber o que eu achava.
        O Jânio Quadros era uma figura folclórica. Por exemplo, ele escrevia bilhetinhos para todas as pessoas. E então nós inventamos os bilhetinhos da população para o Jânio. Ele também viajava muito e uma vez cheguei a ir atrás do Jânio a Boston. Na minha opinião, ele não tinha identidade com a cidade. Fizemos também o Dia Municipal da Cobrança, para cobrar aquilo que ele disse que ia fazer. Foi uma mobilização enorme da população. Tudo isso não era nada pessoal. Eu o achava inclusive uma figura muito inteligente, mas para mim representava a ditadura ultrapassada.
        E nos anos seguintes, como seguiu na vida pública?
        Em 89 entrou a Luíza Erundina (PT) na Prefeitura de São Paulo e continuamos oposição. Em 93-94 dei uma parada e voltei para a medicina. Daí o Mário Covas me convidou para coordenar a sua campanha para governador aqui na Capital. Aceitei e em seguida resolvi sair candidato a deputado estadual. Fui eleito, tornei-me líder do Governo em 95, fui para a Secretaria da Casa Civil em 97, depois fui reeleito deputado estadual e eleito presidente da Assembléia Legislativa paulista.
        Durante seus dois mandatos como deputado estadual, quais as principais realizações executadas?
        Antes da administração Mário Covas, o estado de São Paulo era uma nave sem rumo. Havia forte endividamento, carências na área social e atraso na infra-estrutura do Estado exigida para a modernidade. Covas entrou com a forte decisão de colocar o trem nos trilhos. Qual era o parceiro que ele tinha? O Legislativo!
        Nós precisamos privatizar muitas estatais para botar as contas em dia, modernizar a máquina de arrecadação, fazer os programas de demissão voluntária e redução de custos. Tudo isso passou pela Assembléia. E esta parceria Governo-Legislativo continuou com o Geraldo Alckmin.
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