Responsável
pela introdução dos estudos da Inquisição na Universidade
de São Paulo, a historiadora revela detalhes de sua cidade natal na
Polônia, da infância e formação intelectual no Brasil
e de seus estudos acadêmicos em Israel e Portugal. Na entrevista exclusiva
à JUDAICA, concedida durante quase três horas em seu apartamento
no Jardim Europa, a professora fala da religiosidade de sua mãe e do
sionismo de seu pai, das influências filosóficas da amiga Mina
Kuperman e do tio Miguel Zaltzman, dos professores João Cruz Costa
e Haim Beinart, da amizade com Leon Feffer e muito mais. Por sua atuação
na vida cultural judaico-brasileira e, principalmente por seus estudos em
torno do marranismo, Anita Novinsky é o destaque Judaísmo e
Cultura 2003 (1).
Vamos começar falando de sua cidade natal, Stachow.
Ela fica onde na Polônia?
Próximo
de Cracóvia, a umas duas horas de carro desta cidade. Stachow era um
shtetl (2) onde a maioria da população era judia e praticamente
toda ela foi exterminada pelos nazistas. Estive lá há dois anos.
Ela continua sendo pequeníssima. Tem uma grande praça central
com as lojas, o mercado e casas em volta.
Seus pais também nasceram em Stachow?
Minha
mãe sim, meu pai nasceu em Kielce (Polônia).
Quais os nomes de seus pais?
Minha
mãe se chamava Gitl (3) Buchwald (4) e meu pai Shimil (5) Waingarten
(6). Depois ele mudou o sobrenome para Waingort aqui no Brasil.
Eles vieram diretamente para São Paulo?
Meu
pai veio na frente, antes da II Guerra Mundial, porque ele sentiu que a situação
estava se agravando na Polônia. Ele pretendia preparar o caminho para
nos levar para os Estados Unidos. Quando ele chegou no Brasil, escreveu nos
dizendo que aqui parecia uma Golden Land, uma terra de ouro. Resolveu
ficar no Brasil e mandou nos buscar.
Minha
mãe contava que antes de embarcarmos, meu avô nos acompanhou
e me carregava no colo o tempo todo. Eu tinha um ano e meio e era muito pesada
para ele. Mamãe dizia: "Larga ela, é tão pesada."
E aí meu avô me abraçava mais forte ainda e perguntava:
"Quando é que eu vou ver ela de novo?"
Meu
avô ficou na Polônia. Meus pais tentaram depois trazê-lo
para o Brasil, mas ele dizia que os negócios estavam ruins por lá
e queria adiar a viagem para primeiro vender seus imóveis na praça
principal de Stachow. Ele acabou assassinado na câmara de gás
de Auschwitz. Tenho ainda a última carta que ele me escreveu.
Quando
estive agora na Polônia, eu fui com uma estudante falar com os idosos
da vila para ver se encontrava a casa onde meu avô morava. Um deles
me mostrou e agora ela está habitada por um polaco. Alguns homens que
passavam na rua e ouviram a nossa conversa comentaram em polonês (e
dando risada) que quando os nazistas chegaram bateram bastante nele e o chamavam
de "judeu".
Todas
aquelas propriedades pertencentes aos judeus foram confiscadas pelo regime
comunista da Polônia, nunca foram devolvidas e hoje pertencem aos polacos.
Como foi a viagem para o Brasil?
Viemos
minha mãe, eu e minha irmã, só nós três,
na terceira classe de um navio de imigrantes. Minha mãe sempre contava
que eu estava muito doente durante a viagem. Um dia o comandante me viu chorando
e perguntou para minha mãe o que eu tinha. Quando soube que eu estava
doente, pediu para o garçom me trazer um suco de laranja. Nem isso
tínhamos na terceira classe. Costumo contar isso para minhas filhas,
que cresceram no Brasil com toda a fartura, em liberdade e sem saber o que
foi o anti-semitismo.
Como foram os primeiros anos em São Paulo?
Como
todo judeu o meu pai fez comércio para poder sobreviver. Ele gostava
bastante de terras. Como na Polônia ele não podia ter terras,
ele comprou muitas propriedades aqui e foi um dos primeiros fazendeiros judeus
no Brasil. Ele tinha uma fazenda imensa perto de Sorocaba e foi ele quem introduziu
a indústria de carpas no País. Não existia carpa no Brasil
e como judeu gosta muito desse peixe na Páscoa, meu pai introduziu
a criação de carpa na fazenda dele.
Na
época da Páscoa iam frigoríficos buscar as carpas na
fazenda. E ainda há pouco existia no Guarujá uma peixaria chamada
Peixaria do Sol, que se abastecia só com os peixes da Fazenda do Sol
de meu pai, como era chamada.
Meu
pai passava só dois ou três dias por semana na sua loja, chamada
a Cidade de Viena, localizada na esquina da Rua José Bonifácio
com a Paulo Egídio. Foi uma das primeiras lojas a trabalhar pret-a-porte.
Ele ficava pouco na loja porque não gostava de comércio, mas
aquilo era a sua sobrevivência. Depois na quarta ou quinta-feira ele
já ia para a fazenda e ficava lá até domingo. Depois
que papai morreu eu vendi esta fazendo para o Antônio Ermínio
de Morais.
Você ia muito à fazenda?
Não
muito, eu gostava mais de praia. Minha irmã Luíza gostava mais
e ia muito com meu pai. Minha irmã foi casada com um grande cientista,
o José Setzer, professor de Geologia na USP e um dos maiores climatologistas
do mundo. E hoje, o filho dele, o Valdemar Setzer também é professor
da USP, com vários livros publicados. Ele tem um livro maravilhoso
sobre educação de criança que você vai adorar (7)
e vou emprestar para você. O Valdemar é antropósofo.
Rudolf Steiner...
Isso
mesmo. É uma beleza a filosofia de Steiner.
Onde você morava quando criança?
Nos
anos 30 meu pai comprou um terreno na Av. Brasil, 637 quando ela ainda não
era asfaltada e construiu nossa casa lá. Enquanto isso morávamos
na Rua Guadalupe. Ele foi um dos primeiros judeus a residir no Jardim América,
os outros dois eram o David Kopenhagen e o Samuel Saslavsky.
Nossa
casa era maravilhosa, muito grande, com um jardim imenso. Tínhamos
oito cachorros e às vezes até mais, dinamarqueses, bacês...
Meu pai era fanático por cachorros. E eu também gosto (8).
Nesta
casa na Avenida Brasil se reuniram os primeiros sionistas do Estado de São
Paulo. Meu pai foi fundador do partido sionista paulista. Ele nunca gostou
de kavod, de receber as honras, e deu a presidência para o Maurício
Blaustein. Meu pai, o Blaustein e o Bidlowsky foram os três homens que
fizeram o partido sionista em São Paulo.
Quando
o Beguin (9) veio ao Brasil pela primeira vez, antes do Estado de Israel conquistar
a sua independência, ele foi recebido pelo meu pai e pelo Adhemar de
Barros. Na ocasião meu pai fez um discurso e tenho ele gravado até
hoje. Vou doá-lo ao Museu Sionista de Israel. Depois vieram os Shazar
e outras autoridades do futuro Israel, eles ficavam em nossa casa. Fui criada
numa casa sionista.
Nestas
reuniões sionistas de nossa casa é que começou a aparecer
um jovem interessado no sionismo: o Leon Feffer.
Que interessante! Como foi a sua amizade com o Leon
Feffer?
O
Leon Feffer era para mim como um segundo pai. Ele vinha sempre aos sábados
comer shulent (10) conosco. Até o fim da sua vida ele lembrava
do shulent de minha mãe. Depois perdemos um pouco o contato, mas aconteceu
de ele vir morar no prédio ao lado e ser meu vizinho. Aí nos
reencontramos e renasceu aquela amizade. Eu era como uma filha para ele. Ele
vinha quase todas as noites aqui em casa. Às vezes ele saia de um reunião
às onze horas da noite e passava aqui e sentava nesta cadeira (11).
Tínhamos
muita coisa para conversar. Ele lembrava daquelas antigas reuniões,
de todo o movimento sionista, enfim... A música iídiche também
nos unia muito. Eu colocava canções iídiches para tocar
e ele aqui sentado chorava de emoção. A música que ele
mais gostava era Vu ahin zol ich gein ("Para onde eu vou?")
Eu
também ia muito à casa dele aos domingos de manhã, quando
fazia as reuniões de música. Ele tocava violino e seu neto Rubinho
tocava piano. Tenho comigo a fita cassete do Leon Feffer tocando as músicas.
Um dia ele me convidou para eu falar sobre os meus estudos. Ele fez uma reunião
com a família e seus amigos e eu falei sobre as raízes judaicas
do Brasil. Tenho também uma cópia em vídeo desta reunião.
O vídeo ficou muito lindo.
Quando
abrimos o congresso Confarad em São Paulo, fizemos uma homenagem ao
Leon Feffer. Eu chamei o Rubinho para representar a família e disse
que a melhor homenagem que poderíamos prestar ao Leon Feffer era ouvi-lo
tocar violino. Então colocamos o cassete para todos ouvi-lo tocar.
Como era o judaísmo em sua casa?
Minha
mãe era ortodoxa, estritamente casher (12). Em Pessach
(13) trocava-se toda a louça, limpava-se toda a casa, o Shabat
(14) era sagrado, para as sextas-feiras à noite fazia-se aqueles jantares
deliciosos que desde a rua a gente já sentia o cheiro apetitoso. Um
grande desgosto que eu dava para a minha mãe, e hoje eu lamento, é
que eu não guardava o Shabat.
Fui
criada em uma casa que era ultra-ortodoxa pelo lado de minha mãe, enquanto
meu pai era um livre-pensador, completamente ateu, ao mesmo tempo que ele
era muito sionista. Dessas duas heranças, a religião e o sionismo,
eu herdei o amor à história.
Onde você estudou o primário e o ginásio?
Na
Escola Americana do Mackenzie, em Higienópolis.
O que levou você a estudar Filosofia na USP?
Entrei
na USP com 18 anos. Tenho a impressão que desde os dez anos de idade
eu sofri a influência de duas pessoas altamente cultas. Uma foi uma
moça que morava conosco.
Os
judeus tinham o costume de ajudar os pobres. Uma família quando tinha
lugar em sua casa ajudava as crianças judias abandonadas. O estudo
era tão importante para os judeus na Europa que quando uma aldeia com
escola sabia que havia crianças sem escola em outra aldeia, eles as
traziam para estudar. Meu avô, como tinha muitas casas, trazia as crianças
das aldeias vizinhas para estudar em Stachow.
Uma
de minhas influências foi uma moça órfã, que eu
chamava de tia, que meus pais mandaram vir da Polônia e a abrigaram
em nossa casa aqui no Brasil. Esta mulher foi a primeira feminista que eu
conheci. Ela escrevia para jornais nos Estados Unidos, conhecia hebraico e
iídiche, filosofia, Spinoza, Kant, Cervantes... Ela se chamava Mina
Kuperman.
E a outra pessoa que me influenciou, que era casado com a irmã de minha
mãe, foi o Miguel Zaltzman. O Leon Feffer gostava muito dele. O Zaltzman
era um grande talmudista e hebraista. Conhecia Goethe, era poeta e pintava
que era uma beleza. Eu ainda tenho aqui em casa dois quadros que ele pintou
da minha mãe e do meu pai. Ele era um judeu revisionista, da linha
do Jabotinsky.
Aliás,
Jabotinsky foi um profeta. Ele entendeu que se os judeus não pegassem
em armas, se não formassem um exército, iriam como gado para
o matadouro. Acho que ainda não foi dada a devida justiça à
obra do Wladimir Jabotinsky.
A faculdade de Filosofia ficava na Rua Maria Antônia?
Não,
o curso era ainda na Praça da República, no terceiro andar da
Escola Normal (15). A USP foi criada lá pelo Armando de Salles Oliveira.
Dizem que ele também era judeu. Comecei lá e terminei na Maria
Antônia.
No meu curso de Filosofia eu me apaixonei pela filosofia
de Spinoza, principalmente por causa de suas origens judaico-ibéricas.
Alguns filósofos chamaram mais a sua atenção durante
o curso?
Quero
destacar aqueles que lecionaram na USP e foram meus professores, como os catedráticos
Jean Mougue, Granget, Gurvitch, Otto Kleinberg e os seus assistentes brasileiros:
o João Cruz Costa e o Lívio Teixeira.
O que fez com que você trocasse a Filosofia pela
História, quando terminou a graduação?
Quando
eu estava no primeiro ano de Filosofia, o João Cruz Costa um dia chegou
para mim e disse: "Ah, então você é judia. Você
já ouviu falar de Lúcio de Azevedo?" Eu disse: não.
E ele continuou: "Você já ouviu falar em Mendes dos Remédios?"
Não, disse também. Daí ele pediu: "Então
pega um lápis e escreva: João Lúcio de Azevedo: História
dos Cristãos-novos Portugueses, Joaquim Mendes dos Remédios:
História dos Judeus em Portugal..." Ele me deu uma lista
de livros e continuou: "Este País foi feito por judeus. Você
tem uma missão: estudar a história dos cristãos-novos
no Brasil." Aí eu comecei a me interessar pela história
dos cristãos-novos.
Você não tinha a menor idéia da
existência dos cristãos-novos?
Nada,
nunca tinha ouvido falar de cristão-novo. Mas tenho de lhe contar uma
passagem importante na minha casa. Quando eu era criança, com uns nove
ou dez anos, minha mãe que não era formada em universidade mas
gostava muito de ler os jornais e revistas em iídiche que recebia dos
Estados Unidos, dizia para mim: "Você não conhece nada de
história. Você sabe o que fizeram com os judeus na Espanha? Você
sabe que eles queimavam os judeus? Você sabe quem foi Torquemada? Ele
mandava torturar e matar os judeus."
Minha
mãe falava tanto em Torquemada que fiquei com esse nome na cabeça.
Quando o João Cruz Costa me mandou ler aqueles livros, eu encontrei
o nome do Torquemada e imediatamente me lembrei do que minha mãe me
tinha dito. Aí comecei a me apaixonar pelo assunto.
Depois
que você passou a estudar este tema, alguma vez você perguntou
ao João Cruz Costa por que ele se interessava tanto pelos cristãos-novos?
Ele
disse para mim que era de origem judaica e que o nome Cruz foi adotado justamente
para despistar a Inquisição. Ele era um grande batalhador pelo
humanismo, autor de Contribuição à História
das Idéias no Brasil (16). Inclusive a tese de doutorado dele foi
sobre Francisco Saches, um judeu de Portugal precursor de Descartes (17).
Muito interessante!
Então
quando terminei o curso de Filosofia em 1956 o professor Lourival Gomes Machado
(que era sociólogo) me chamou em sua sala e disse que eu ia trabalhar
o meu doutoramento sobre os cristãos-novos. Passei então para
a História e fui orientada nas pesquisas pelo Cruz Costa e o Gomes
Machado.
Em 1963 você foi estudar com o Haim Beinart em
Jerusalém. Como foi isso?
Eu
conheci uma pessoa aqui em São Paulo, que era de Israel, que me aconselhou
ir estudar com o Beinart. Não havia nenhum especialista em marranismo
no Brasil. Os primeiros estudos que fiz sobre o marranismo foi com o Haim
Beinart, que era discípulo de Itzhik Baer.
Eu
não conhecia Israel e resolvi que queria ir. Viajei no navio que fez
a a primeira viagem Brasil-Israel, o Theodor Herzl. Este navio levou a primeira
leva de turistas brasileiros para Israel. Viajei com a minha filha Sônia,
que ia junto com um grupo de estudantes. A viagem durou 17 dias.
Eu
não conhecia ninguém em Israel e não sabia onde morar.
Recomendaram-me uma senhora em Jerusalém que alugava quartos. A casa
ficava na King George, 42, no centro de Jerusalém, e esta senhora muito
distinta era ninguém menos que a filha do Eliezer Ben Yehuda, o inspirador
do hebraico moderno. Chamava-se Ada Ben Yehuda.
Contei
ao Beinart que eu queria estudar marranismo e ele ficou muito encantado comigo.
Umas três vezes por semana ele vinha a esta casa onde passei a morar.
Ele passava a tarde inteira me dando aula e colocou à minha disposição
os livros da biblioteca da Universidade Hebraica.
Onde ficava a biblioteca da universidade?
Onde
está o Gvat Gan hoje, na Faculdade de Ciências, em frente ao
Knesset (18). A biblioteca central onde eu estudei ainda hoje está
lá. Ali eu tinha uma mesa e todos os livros que eu queria eram colocados
à minha disposição. Estudei quase um ano em Israel.
Então o seu mergulho no assunto aconteceu em
Jerusalém?
Foi
lá, mesmo. Não havia nenhum especialista no Brasil. Tinha só
o Cruz Costa que me chamou a atenção. Varnhagen no século
XIX, Capistrano de Abreu, Rodolfo Garcia e Paulo Prado no início do
século XX falaram da importância dos cristãos-novos, mas
depois a tradição se perdeu e até a década de
1960 não se falou mais no assunto.
Depois, em 1965 você foi estudar em Portugal.
Como foi esta experiência?
Eu
ganhei uma bolsa da Fundação Caloustre Gulbekian e passei um
ano trabalhando no arquivo da Torre do Tombo. Ali eu vasculhei todos os arquivos
de Lisboa (da Academia de Ciências, da Biblioteca Nacional e da Biblioteca
da Ajuda), depois trabalhei na Biblioteca Pública do Porto e de Évora.
Como foi o acesso a este material em meio à ditadura
de Salazar?
Os
judeus de Lisboa formavam uma pequena comunidade muito medrosa e tinham receio
de falar. Então fui pesquisar na Torre do Tombo, dirigida pela Emília
Felix, uma mulher maravilhosa que pôs um funcionário para me
auxiliar nos depósitos. Ele subia em uma escada enorme e retirava do
alto das estantes os papéis cheios de poeira.
Eu
trabalhei diretamente nos depósitos, porque o Arquivo Nacional da Torre
do Tombo estava fechado ao público. Microfilmei muita coisa e tenho
esta documentação toda indexada. Isso não foi feito tudo
de uma vez, mas ao longo de 30 anos. No início, para eu poder trabalhar
nos depósitos e microfilmar aqueles documentos, precisei de uma carta
do ministro da Educação português.
Em 1965 havia outros pesquisadores na Torre do Tombo?
A
única pessoa que trabalhou lá foi a Sônia Siqueira. Ela
ficou uns dois meses pesquisando.
E os portugueses?
Nenhum
nessa época. O Antônio José Saraiva publicou seu livro
(19) só em 69. O único que tinha sido arquivista lá e
publicou alguns trabalhos nessa época foi o Bivar Guerra. Era um homem
maravilhoso que escreveu um livro sobre os judeus de Barcelos.
Outro
pesquisador foi o Revah (20). Ele morava na França, mas todo ano, em
agosto, ele passava um mês em Lisboa para trabalhar nos arquivos. Eu
conheci ele lá. Nós dois morávamos na York House, uma
casa em Lisboa que era o centro da intelectualidade dos pesquisadores de fora
que vinham pesquisar em Portugal. Nós íamos e voltávamos
a pé da Torre do Tombo e conversávamos muito.
Como foi a repercussão de sua tese Cristãos-novos
na Bahia (21)?
Depois
que o Lourival Gomes Machado foi para Paris trabalhar como diretor cultural
da Unesco, passei a ser orientada pelo Sérgio Buarque de Hollanda.
Foi ele quem nesse período teve maior influência no meu trabalho.
Quando eu publiquei Cristãos-novos na Bahia
tive de romper com o Haim Beinart. Ele ficou possesso quando leu a minha tese,
alegando que ela era marxista. Eu coloquei tudo em termos de luta de classes,
a aristocracia contra a burguesia e a classe média. Ele achava que
não era isso. Para Beinart a perseguição contra os judeus
era religiosa e para mim era uma perseguição econômica.
O
problema é que ele não soube acatar, reconhecer e nem tolerar
as minhas idéias. Ele ficou furioso e começou a me atacar. Então
eu rompi com ele e durante 20 anos não nos falamos. Agora nos reconciliamos,
porque ele está velhinho e o reencontrei na casa de amigos em Portugal.
E
vou dizer mais: eu queria me mudar para Israel naquela época (início
dos anos 70). Minhas filhas eram pequenas, o Maurício meu marido também
gostava muito de lá e foi convidado para trabalhar na indústria
bélica israelense. Ofereceram uma casa em Ashkelon, carro, telefone
e um bom salário. Também o secretário do Shimon Peres
telefonou-me diretamente para dizer que precisavam do Maurício em Israel.
Quem acabou atrapalhando minha ida foi o Beinart.
Bem, você ficou mesmo no Brasil e cumpriu a sua
missão...
De
fato! Eu introduzi os estudos inquisitoriais no Brasil. Comecei a dar aulas
sobre a Inquisição na USP em 1969. A Universidade de São
Paulo foi a primeira no mundo que colocou no seu currículo o estudo
da Inquisição.
Notas:
1) O Destaque Judaísmo e Cultura foi criado pela revista JUDAICA
para ressaltar o trabalho cultural, social e comunitário daquelas
pessoas envolvidas nestas áreas. Os destaques já contemplados
(categoria nacional) foram: Leon Feffer, Samuel Klein, Marcos Arbaitman,
Joseph e Moise Safra e Girsz Aronson.
2) Aldeia na Europa Oriental habitada basicamente por judeus (em iídiche).
3) Virou Eugênia no Brasil.
4) Floresta de livro (em iídiche).
5) Samuel.
6) Jardim de vinha (em iídiche).
7) Meios Eletrônicos e Educação: Uma Visão
Alternativa (Ed. Escrituras, São Paulo, 2001).
8) Enquanto dava esta entrevista, seu cachorrinho bege atual descansava
em seu colo.
9) Menahem Beguin, que depois foi primeiro-ministro de Israel.
10) Feijoada judaica.
11) Mostra a cadeira, a mesma onde a entrevistada estava sentada.
12) Código de leis dietéticas judaicas.
13) Páscoa judaica.
14) Sábado judaico, do anoitecer de sexta-feira ao anoitecer do sábado.
15) Onde hoje é a Secretaria Estadual de Educação.
16) Ed. José Olympio, Rio de Janeiro, 1956.
17) Ensaio sobre a Vida e Obra do Filósofo Francisco Sanches
(FFCL-USP, São Paulo, 1942).
18) Parlamento israelense.
19) Inquisição e Cristãos-novos (Ed. Inova,
Porto).
20) Israel Salvador Revah.
21) Ed. Perspectiva, São Paulo, 1972.