No. 065 - Julho/2003
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CRISTÃOS-NOVOS
Redemocratização política
e marranismo no Brasil

HÉLIO DANIEL CORDEIRO
        De uma maneira geral, os judeus nunca se deram bem em regimes autoritários. Isso deste os faraós do antigo Egito. Basta darmos uma olhada pelos livros de história e ver o que aconteceu na Espanha e Portugal sob a Inquisição, na Rússia czarista e stalinista, na Alemanha nazista, novamente no Egito de Nasser, na Síria de Hafez Assad, no Irã de Khomeini, na Líbia de Khadafi, no Iraque de Saddam Hussein e por aí vai.
        E não precisamos ir muito longe geográfica e historicamente. Os regimes militares que infestaram a América Latina a partir dos anos 60 também deixaram suas vítimas judias, como o jornalista Vladimir Herzog, aqui mesmo no Brasil.
        A redemocratização brasileira nos anos 80 permitiu maior liberdade de expressão. A exemplo do que acontecera no Portugal pós-Salazar com a comunidade de Belmonte, um dos resultados práticos da abertura política no Brasil foi o aparecimento e a divulgação do fenômeno marrano, presente em várias partes do País.
        Na época, o tema cristão-novo era algo conhecido apenas em livros e voltados para o período colonial. E nesse ponto devemos louvar as pesquisas empreendidas por autores brasileiros como Anita Novinsky, Elias Lipiner e José Gonçalves Salvador e também articulistas como Jacob Pinheiro Goldberg, Rachel Mizrahi, Maria Liberman, Maria Luíza Tucci Carneiro, dentre outros que aqui e ali levantaram o assunto em periódicos.
        O fenômeno marrano no Brasil ganhou manchete em 1980 quando a revista Veja de São Paulo publicou a matéria “Judeus de novo”, sobre os judaizantes de Natal, no Rio Grande do Norte. De lá pra cá venho acompanhando tudo o que aparece sobre o assunto na mídia, seja em forma de reportagens, artigos, cartas, livros, documentários e filmes.
        Relaciono a seguir essas manifestações marrano-brasileiras colhidas ao longo dos anos 80. Na minha concepção, a redemocratização política contribuiu diretamente para que os marranos no Brasil viessem a público com maior ênfase a partir de então.

1980

        A citada matéria da Veja fala no ingresso ao judaísmo em Natal de 40 novos judeus, que “driblando as leis da aculturação, acabam de retornar ao rebanho hebreu”. A reportagem cita os nomes de José Nunes Cabral, João Dias Medeiros e Ivan Pereira de Souza Birnbaum. A assunto chamou-me muito a atenção e apressei-me em ler e arquivar a matéria.
        Bosco Cavaler Viegas, que também assina com o nome hebraico de Yahia Ben David, comenta sobre seu estudo Serão Quase Todos os Brasileiros Descendentes de Judeus. Fala aí sobre a chamada parte oculta do Descobrimento do Brasil, como faceta importante que eclodiu no folclore, economia e herança nacional brasileiros. (Texto do Rio de Janeiro - RJ)

1984

        Ricardo César Lima fala de sua afinidade por Israel e aos judeus, tentando encontrar informações sobre seus antepassados: “Desde que me entendo como gente, manifesto em mim grande fascínio por tudo que se relaciona com Israel. Nunca entendi a razão disto, pois fui criado num lugar onde dizia-se que o judeu matou Jesus. No entanto o normal seria desgostar ao invés de gostar. Como pernambucano, minha família é de origem holandesa, porém creio eu que também trazemos sangue judeu. Aí está a questão. Esta dúvida é porque nosso patriarca chegou ao Brasil há 200 anos e se estabeleceu numa região do interior do Estado e também registrou seus filhos com outro sobrenome, aliás, vários sobrenomes.” (Carta de Recife - PE)

1985

        Fátima Maria Barbosa: “Desejo saber como devo fazer para conseguir morar em algum kibutz, em Israel, pois gostaria de dedicar a minha vida em contribuição a este país. Tenho paixão a tudo de Israel: sua cultura, sua gente e seu Deus. Gastaria de lá me fixar. (Carta do Rio de Janeiro - RJ)
        Hélzio Corrêa de Negreiros: “Inconscientemente, sou judeu. Como, não sei dizer-lhe. Gosto de tudo o que gira em torno desse povo e, por que não dizer também, relaciono-me bem com ele. Há algum tempo alguém me falou que, se assim procedo, é porque também sou judeu. Perguntei como. Afirmou que segundo o meu sobrenome sou descendente de judeus cristãos. (Carta de São Paulo - SP)

1986

Laércio Balbino da Silva: “Não sou judeu, propriamente dito, apesar de esporadicamente ir à sinagoga, onde me sinto muitíssimo bem. Vou acompanhado de meu cunhado, irmã e sobrinho, que são judeus. Lendo alguns livros e obtendo algumas informações, tive a impressão de que o sobrenome de nossa família (Ferreira Silva) é de origem judaica. Pelo que me informaram, somos descendentes dos cristãos-novos. Meus ancestrais foram obrigados a se converter ao cristianismo por imposição imperial do reinado português. A pergunta é: tenho algum vínculo ou direito de voltar à minha origem judaica? Quanto à aparência física, não tenho dúvidas, pois meu professor de biologia disse-me que é provável que eu seja descendente.” (Carta de São Paulo - SP)
        Luís Cláudio de Andrade: “Incentivado por amigos judeus e não-judeus, resolvi investigar se eu não tinha ascendência judaico-marrana. Procurei então livros sobre o assunto na biblioteca da CIP e qual não foi a minha surpresa ao deparar com diversos sobrenomes bem comuns no Brasil, intimamente relacionados com judeus.” (Carta de São Paulo - SP)

1987

        Em São Paulo, a Sinagoga Israelita Brasileira sob a presidência de Jamil Sayeg, permite a participação de um grupo de marranos no serviço de Shabat. Aos domingos estes marranos se reuniam na mesma sinagoga para estudar Tanach e Talmud. Fiz parte do grupo, juntamente com Francisco de Assis Oliveira (que hoje vive em Israel), Paulo Valadares e outros.
        Miguel Toivonen Ortiz: “Gostaria de saber se eu também sou descendente de judeus. Saber que os meus ancestrais foram judeus, para mim se tornaria uma das maiores alegrias da minha vida, pois judeu de coração eu já sou. Vivo como judeu, alimento-me como judeu, amo a Torá como os judeus, amo a Éretz Israel como todos os judeus, guardo e honro o Shabat como os judeus e há muito pretendo circuncidar a mim e aos meus dois filhos, para cumprir o mandamento de Deus. (Carta de São Paulo - SP)

1988

        Francisco Gaspar de Menezes Cruz: Professor universitário nascido em Fortaleza (CE) em 1926 e radicado em Campina Grande (PB). Leu sobre a árvore genealógica da família Menezes, por sua vez ligados aos Barbosa, Cordeiro, Bezerra e Castro, em que nos séculos XVIII e XIX apareciam muitos nomes hebraicos (como Samuel, filho de Benjamin, filho de Baruque...) “Mas é do lado materno em que o cristão-novo assoma em genealogia.” - comentou. No fim do século XVIII, perto de 1780, três irmãos de sobrenome Gaspar saíram de Portugal perseguidos pela Inquisição e chegaram ao Brasil. Aqui cada irmão foi se estabelecer numa região diferente. Um deles passou pelo interior da Bahia e chegou a Fortaleza. Outro foi a Mato Grosso, de onde “veio o general Eurico Gaspar Dutra.”

1989

        Jorge Sobreira: “Gostaria, se possível, me informarem o endereço ou fone do movimento de retorno às origens dos judeus portugueses, pois tenho alguns amigos portugueses de origem judaica sempre me questionando a respeito. Por eu ser judeu português e como na América minha família faz parte de uma comunidade luso-judaica, acho que deve existir algo semelhante no Brasil.” (Carta de Recife - PE)

1990

        Após diversas consultas de gente interessada em suas origens, inclusive via embaixada e consulado de Israel no Brasil, fundei a Shemá (Sociedade Hebraica para o Estudo do Marranismo/Centro Marrano do Brasil) para sistematizar pesquisas sobre o assunto. A entidade teve cerca de 50 membros regulares de vários Estados brasileiros e atendeu cerca de 300 interessados na questão, a grande maioria brasileiros, mas também houve correspondentes dos Estados Unidos, Portugal, Espanha, Israel, Argentina, Uruguai, França e Suíça. Algumas dessas cartas foram publicadas no Informativo Shemá.
        Os trabalhos da Shemá foram concluídos em 1997, após as cerimônias de recordação pelos 500 anos do batismo forçado dos judeus em Portugal.