1980
A
citada matéria da Veja fala no ingresso ao judaísmo em Natal
de 40 novos judeus, que “driblando as leis da aculturação,
acabam de retornar ao rebanho hebreu”. A reportagem cita os nomes de
José Nunes Cabral, João Dias Medeiros e Ivan Pereira de Souza
Birnbaum. A assunto chamou-me muito a atenção e apressei-me
em ler e arquivar a matéria.
Bosco
Cavaler Viegas, que também assina com o nome hebraico de Yahia Ben
David, comenta sobre seu estudo Serão Quase Todos os Brasileiros
Descendentes de Judeus. Fala aí sobre a chamada parte oculta do
Descobrimento do Brasil, como faceta importante que eclodiu no folclore, economia
e herança nacional brasileiros. (Texto do Rio de Janeiro - RJ)
1984
Ricardo César Lima fala de sua afinidade por Israel e aos judeus, tentando encontrar informações sobre seus antepassados: “Desde que me entendo como gente, manifesto em mim grande fascínio por tudo que se relaciona com Israel. Nunca entendi a razão disto, pois fui criado num lugar onde dizia-se que o judeu matou Jesus. No entanto o normal seria desgostar ao invés de gostar. Como pernambucano, minha família é de origem holandesa, porém creio eu que também trazemos sangue judeu. Aí está a questão. Esta dúvida é porque nosso patriarca chegou ao Brasil há 200 anos e se estabeleceu numa região do interior do Estado e também registrou seus filhos com outro sobrenome, aliás, vários sobrenomes.” (Carta de Recife - PE)
1985
Fátima
Maria Barbosa: “Desejo saber como devo fazer para conseguir morar em
algum kibutz, em Israel, pois gostaria de dedicar a minha vida em contribuição
a este país. Tenho paixão a tudo de Israel: sua cultura, sua
gente e seu Deus. Gastaria de lá me fixar. (Carta do Rio de Janeiro
- RJ)
Hélzio
Corrêa de Negreiros: “Inconscientemente, sou judeu. Como, não
sei dizer-lhe. Gosto de tudo o que gira em torno desse povo e, por que não
dizer também, relaciono-me bem com ele. Há algum tempo alguém
me falou que, se assim procedo, é porque também sou judeu. Perguntei
como. Afirmou que segundo o meu sobrenome sou descendente de judeus cristãos.
(Carta de São Paulo - SP)
1986
Laércio Balbino da Silva:
“Não sou judeu, propriamente dito, apesar de esporadicamente
ir à sinagoga, onde me sinto muitíssimo bem. Vou acompanhado
de meu cunhado, irmã e sobrinho, que são judeus. Lendo alguns
livros e obtendo algumas informações, tive a impressão
de que o sobrenome de nossa família (Ferreira Silva) é de origem
judaica. Pelo que me informaram, somos descendentes dos cristãos-novos.
Meus ancestrais foram obrigados a se converter ao cristianismo por imposição
imperial do reinado português. A pergunta é: tenho algum vínculo
ou direito de voltar à minha origem judaica? Quanto à aparência
física, não tenho dúvidas, pois meu professor de biologia
disse-me que é provável que eu seja descendente.” (Carta
de São Paulo - SP)
Luís
Cláudio de Andrade: “Incentivado por amigos judeus e não-judeus,
resolvi investigar se eu não tinha ascendência judaico-marrana.
Procurei então livros sobre o assunto na biblioteca da CIP e qual não
foi a minha surpresa ao deparar com diversos sobrenomes bem comuns no Brasil,
intimamente relacionados com judeus.” (Carta de São Paulo - SP)
1987
Em
São Paulo, a Sinagoga Israelita Brasileira sob a presidência
de Jamil Sayeg, permite a participação de um grupo de marranos
no serviço de Shabat. Aos domingos estes marranos se reuniam
na mesma sinagoga para estudar Tanach e Talmud. Fiz parte
do grupo, juntamente com Francisco de Assis Oliveira (que hoje vive em Israel),
Paulo Valadares e outros.
Miguel
Toivonen Ortiz: “Gostaria de saber se eu também sou descendente
de judeus. Saber que os meus ancestrais foram judeus, para mim se tornaria
uma das maiores alegrias da minha vida, pois judeu de coração
eu já sou. Vivo como judeu, alimento-me como judeu, amo a Torá
como os judeus, amo a Éretz Israel como todos os judeus, guardo
e honro o Shabat como os judeus e há muito pretendo circuncidar
a mim e aos meus dois filhos, para cumprir o mandamento de Deus. (Carta de
São Paulo - SP)
1988
Francisco Gaspar de Menezes Cruz: Professor universitário nascido em Fortaleza (CE) em 1926 e radicado em Campina Grande (PB). Leu sobre a árvore genealógica da família Menezes, por sua vez ligados aos Barbosa, Cordeiro, Bezerra e Castro, em que nos séculos XVIII e XIX apareciam muitos nomes hebraicos (como Samuel, filho de Benjamin, filho de Baruque...) “Mas é do lado materno em que o cristão-novo assoma em genealogia.” - comentou. No fim do século XVIII, perto de 1780, três irmãos de sobrenome Gaspar saíram de Portugal perseguidos pela Inquisição e chegaram ao Brasil. Aqui cada irmão foi se estabelecer numa região diferente. Um deles passou pelo interior da Bahia e chegou a Fortaleza. Outro foi a Mato Grosso, de onde “veio o general Eurico Gaspar Dutra.”
1989
Jorge Sobreira: “Gostaria, se possível, me informarem o endereço ou fone do movimento de retorno às origens dos judeus portugueses, pois tenho alguns amigos portugueses de origem judaica sempre me questionando a respeito. Por eu ser judeu português e como na América minha família faz parte de uma comunidade luso-judaica, acho que deve existir algo semelhante no Brasil.” (Carta de Recife - PE)
1990
Após
diversas consultas de gente interessada em suas origens, inclusive via embaixada
e consulado de Israel no Brasil, fundei a Shemá (Sociedade Hebraica
para o Estudo do Marranismo/Centro Marrano do Brasil) para sistematizar pesquisas
sobre o assunto. A entidade teve cerca de 50 membros regulares de vários
Estados brasileiros e atendeu cerca de 300 interessados na questão,
a grande maioria brasileiros, mas também houve correspondentes dos
Estados Unidos, Portugal, Espanha, Israel, Argentina, Uruguai, França
e Suíça. Algumas dessas cartas foram publicadas no Informativo
Shemá.
Os
trabalhos da Shemá foram concluídos em 1997, após as
cerimônias de recordação pelos 500 anos do batismo forçado
dos judeus em Portugal.