RACHEL MIZRAHI
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 066 - Agosto/2003
Judeus sefaradis e orientais no Brasil
        A historiadora Rachel Mizrahi, em entrevista exclusiva à JUDAICA, analisa seu novo livro, Imigrantes Judeus do Oriente Médio: São Paulo e Rio de Janeiro.
        Fale um pouco de sua formação intelectual?
        Formei-me em Ciências Sociais pela USP (mestre em 1982 e doutora em História Social em 2000), pelo Departamento de História da mesma universidade. Fiz cursos de especialização em História Judaica, pela Universidade Hebraica e Instituto Yad Vashen, em Jerusalém.
        Minha dissertação de Mestrado (A Inquisição no Brasil: um Capitão-mor Judaizante) foi publicada em 1984, pelo CEJ da USP. Preparo, no momento, uma segunda edição. Em 1995 preparei Lembranças...Presente do passado, manual das histórias de vida dos participantes do Clube da Idade de Ouro. Publiquei diversos artigos em jornais e revistas da comunidade judaica brasileira.
        Como foi sua infância, vida familiar e comunitária?
Nasci em São Paulo e, no bairro da Mooca passei minha infância e adolescência. Ideais judaicos e sionistas fizeram meu pai insistir na educação judaica da família. Estudei no Brás, na Escola Israelita Brasileira Luiz Fleitlich, e depois completei estudos médios (Clássico) no Instituto de Educação António Firmino de Proença. Fui colega do José Serra, no Científico. Em 1957, a família associou-se à Hebraica. O rol de amizades se ampliou. Casei-me com Abrão Raul Bromberg, que fazia parte da equipe de atores do Sonho de uma Noite de Verão, peça clássica dirigida pelo saudoso ator e diretor, Sérgio Cardoso. O preparo e grandiosidade da encenação inauguraram o Teatro Arthur Rubenstein, fato que marcou a história da Hebraica na década de 60.
        Posso dizer que meu convívio comunitário se fez no clube. Anos mais tarde, acabei eleita conselheira e diretora do grupo Single´s. Depois, trabalhei por quase quatro anos como coordenadora do Grupo da Idade de Ouro. Tenho duas filhas, gêmeas: Sílvia, especializada em Computação Gráfica e Sandra, bióloga terminando doutorado pelo Instituto Oceanográfico da USP.
        Como surgiu a idéia de escrever o livro Imigrantes Judeus do Oriente Médio: São Paulo e Rio de Janeiro?
        Embora envolvida em estudos inquisitoriais sob a orientação da professora Anita Novinsky, o interesse em estudar os judeus do Oriente Médio (sefaradis e orientais) iniciou-se, em especial, quando assisti ao vídeo: Os Irmãos de Návio, cujo diretor (não me lembro o nome), ao explicar o fluxo imigratório judaico ao Brasil, não caracterizou, de forma correta, os primeiros imigrantes judeus do Oriente Médio, instalados na Mooca a partir do início do século passado e da qual minha família fazia parte. Meus avós, instalados no Rio de Janeiro e, meu pai Moisés Mayer em São Paulo, emigraram na década de 20, procedentes da antiga Safed, cidade do atual Estado de Israel.
        Quais as maiores dificuldades em realizar a tarefa?
        Controlar a emoção ao ouvir os depoentes idosos e, impedir a subjetividade, quando no uso da História Oral.
        Os imigrantes sefaradis e orientais estudados se integraram à comunidade judaica maior? Como se deu isso?
        Os sefaradis do Oriente Médio, judeus de origem ibérica, que falam o ladino em família, não apresentando dificuldade de comunicação (por entender o português), integraram-se rapidamente nas diversas cidades brasileiras onde se instalaram. Já os judeus de fala árabe (como os asquenazitas), iniciaram processo integrativo somente na terceira geração de descendentes. Os primeiros contatos entre esses dois grupos de imigrantes foram de estranheza e curiosidade. O imigrante judeu-oriental do período, “minoria da minoria” relacionava-se (e ainda se relaciona), amigavelmente, com seus conterrâneos: muçulmanos e cristãos-maronitas, sediados no Brás, nas Ruas Oriente e 25 de Março.
        A partir da instalação do Estado de Israel, o Brasil recebeu numerosas famílias procedentes dos países árabes que, discriminados e proibidos pelos dirigentes árabes de entrar em Israel, buscaram refúgio em países ocidentais. A maioria buscou a França, o Canadá, os EUA, o México e a Argentina.
        Como vê a contribuição deste seu livro para a melhor compreensão do papel dos judeus no Brasil?
        A maioria dos trabalhos acadêmicos sobre judeus no Brasil está voltada para os imigrantes asquenazitas. Estudos sobre a presença de cristãos-novos e judeus do período colonial brasileiro foram ampliados em várias universidades brasileiras estimulados pelas pesquisas de Anita Novinsky na Universidade de São Paulo. Meu trabalho Imigrantes Judeus do Oriente Médio: São Paulo e Rio de Janeiro cobre, acredito, uma lacuna da historiografia sobre imigrantes no Brasil.
        Como você vê o papel do empresariado em projetos ligados à cultura judaica?
        Meus trabalhos acadêmicos tiveram o apoio do CNPq. A publicação pela Ateliê Editorial recebeu ajuda financeira da Fundação Safra, da Fapesp, da Construtora Elias Victor Nigri, da Tecnisa e de beneméritos comunitários. Sem este apoio seria difícil empreender uma pesquisa de quase dez anos. O livro inclui um CD-Rom, onde as genealogias das primeiras famílias de judeus do Oriente Médio de São Paulo e do Rio de Janeiro, podem ser visualizadas.
        Entretanto, não posso deixar de assinalar que, no Departamento de Letras Orientais, no Centro de Estudos Judaicos da Universidade de São Paulo, existem bons trabalhos acadêmicos à espera de publicação.
        Qual a importância da imprensa judaica na divulgação da cultura do povo judeu junto à sociedade brasileira mais ampla?
        Solicitada pelos diretores de revistas comunitárias, produzi uma série de artigos e, à medida que eram publicados, via-me estimulada a produzir outros. No mercado editorial de São Paulo, os temas abordados por revistas difundem a cultura judaica, ganham repercussão e engrandecem o mercado editorial brasileiro e judaico.
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