1990
Após diversas consultas de descendentes de cristãos-novos interessados em suas origens, inclusive via embaixada e consulado de Israel no Brasil, fundei a Shemá (Sociedade Hebraica para o Estudo do Marranismo/Centro Marrano do Brasil) para sistematizar pesquisas sobre o assunto. A entidade teve cerca de 50 membros regulares de vários Estados e atendeu cerca de 300 interessados na questão, a grande maioria brasileiros, mas também houve correspondentes dos Estados Unidos, Portugal, Espanha, Israel, Argentina, Uruguai, França e Suíça. Algumas dessas cartas foram publicadas no Informativo Shemá. Os trabalhos da Shemá foram concluídos em 1997, após as cerimônias de recordação pelos 500 anos do batismo forçado dos judeus em Portugal.
* * *
Paulo
Lázaro de Brito Galvão Freire, que se define como judeu-marrano
e também assina com o nome hebraico de Shaul ben Elazar, relata sobre
a situação dos judeus, criptojudeus e seus descendentes na
região amazônica ocidental. Sua carta é um clamor para
que a comunidade judaica organizada os ajudem a se manterem judeus em meio
à selva e apesar da distância dos grandes centros urbanos do
Sudeste. Em suas palavras vemos o apego ao judaísmo, a luta pela
sobreviência em ambiente hostil e um forte sionismo.
Diz
Freire: “Sabemos que na cidade de Guajará-Mirim existe um templo
onde se reúnem algumas famílias israelitas. Em Porto Velho
existem marranos. Existem também famílias de judeus bolivianos
que na sua maior parte são de origem marroquina. A maioria dos marroquinos
são casados com caboclas de outros Estados. O motivo desses casamentos
é a não existência de uma comunidade israelita, mas
seus filhos continuam na tradição e na vontade de serem judeus.
“O
que nossos corações mais almejam é que as lideranças
judaicas no Brasil nos ouçam e nos ajudem, não deixando que
desapareçam ou se apaguem no tempo, causado pela corrosão
da indiferença, esta marca sublime do bandeirantismo que marranos
distantes das grandes metrópoles, que sempre desbravaram os confins
da terra e principalmente da nossa Pátria.
“Não
é justo que morram ou se evaporem as gotas de suor e sangue derramados
nestas matas, no cultivo e comercialização da borracha dos
pequenos comerciantes ribeirinhos que viajaram em pequenas embarcações
para longínquas aldeias e corrutelas da Amazônia, trazendo
progresso, formando cidades, passando por perigos indescritíveis,
enfrentando muitas vezes a morte.
“O
que queremos é a preservação da cultura e tradição
de nossos pais. Um homem sem passado não conhece seu presente e jamais
saberá o seu futuro. Por isso o nosso apelo é que acheguem
a nós e venham ter conosco, pois somos judeus com muita honra, independente
das decisões das lideranças israelitas e saibam que se Israel
precisar de nós estamos prontos. Jamais nos esqueceremos de Adonai
Shabaoth.” (Carta de Porto Velho - RO)
1991
Ruy da Fonseca Saraiva, descendente da família cristã-nova Saraiva-Leão (ramo Bezerra de Menezes e Fonseca), conta um caso interessante de identificação fisionômica com os judeus, ocorrido em Teresópolis (RJ): “Passando na calçada fronteira à sinagoga, fui cercado por um grupo de judeus, que em língua estranha me abordavam. Vendo que eu não entendia nada, passaram ao português, interrogando-me: ‘O patrício não vai hoje à festa em nossa sinagoga?’ No mesmo dia, horas depois, fui abordado por um grupo de mulheres, com a mesma pergunta.”
* * *
Waldyr
Pereira de Barros, funcionário público aposentado, nascido
em Pernambuco em 1929, conta sobre sua família: “Eram muito
fechados com gente estranha. Falavam uma língua muito estranha toda
vez que chegavam parentes do interior. Nunca abatiam animais em suas casas,
e toda vez que se faziam necessário abatê-los, um determinado
parente chamado Jacó, que era abatedor oficial e que antes de executar
os seus serviços dizia algumas preces em uma língua que naquela
fase de minha idade não me lembro de nenhuma palavra.”
Existia
em sua casa desenhos de Moisés pendurados nas paredes. Penduradas
por trás das portas de entradas, acima do umbral das mesmas, haviam
caixas contendo alguma porção de terra, e que todos que chegavam
em suas casas punham nas mesmas suas mãos e diziam algumas palavras
que não mais se recorda como eram.
Diz
que começou a se sentir judeu ainda muito novo, com 12 ou 13 anos,
quando presenciava certas atitudes dos seus avós, tias e tios, dos
demais conhecidos que sempre se reuniam nas casas dos mesmos. Desde pequeno,
ouvia dizerem ser da Nação! Quando o abençoavam, colocavam
suas mãos sobre sua cabeça! Sempre às sextas-feiras
mudavam de roupas mais cedo. Mudavam as toalhas da mesa trocando-as por
outras de cor branca, sendo feito com portas e janelas fechadas.
Também
tinham horror à religião católica. Quando chegava a
quaresma, não saíam quase de casa, ficavam como se estivessem
escondidos, como se houvesse medo de que alguma coisa pudesse lhe acontecer.
Não comiam carne de porco, nem tocavam em seus derivados.
1992
José Carlos Canal: “Amo muito o povo judeu, sua pátria, a ponto de ler tudo sobre Israel. Escrevo com o intuito de conhecer melhor os cristãos-novos não só no Brasil, como na Europa. (Carta de Vila Velha - ES)
1993
Antônio Maria Colaço Soares: Buscando mais informações sobre o marranismo no Brasil, escreveu: “Sou industrial e faço parte de uma família de judeus marranos oriundos de Portugal.” (Carta de Santos - SP)
1993
Antônio Máximo Lourenço: “Tenho acompanhado através de matérias vários judeus com sobrenomes de origem portuguesa. Isto realmente aguçou a minha curiosidade. Venho solicitar, se possível, informações sobre os meus sobrenomes.” (Carta de São Paulo - SP)
1993
Elias Paz e Silva: “Sabedor do trabalho de busca das origens judaicas sefaradis do Brasil, e interessado que sou nas questões do nosso povo solicito a V.S. me enviar material publicado sobre o assunto. Como jornalista e professor de Comunicação Social da Universiade Federal do Piauí, desenvolvo pesquisa sobre a penetração judaica no Nordeste brasileiro.” É também poeta e enviou-me um livreto seu com algumas poesias. (Carta de Teresina - PI)
1993
Walderer Almeida: “Meu sangue de nordestino descendente de marranos ferveu ao ler uma crítica a Trudi Landau (em outro periódico). Deus nos concedeu uma cabeça para pensar e capacidade intelectual para evoluir como seres criados à sua imagem e semelhança.” (Carta de Petrópolis - RJ)
1994
Verônica Barbosa Azevedo: “Eu gostaria de obter maiores informações sobre a entidade (Shemá), em especial, gostaria de saber como é feita a pesquisa genealógica.” E “Não existe nenhum papel que diga que sou filha de mãe judia. Mas no meu coração me sinto judia! No meu coração fui escrava no Egito, exilada na Babilônia, deportada pelos romanos, queimada no fogo da Inquisição e segregada em guetos e massacrada no Holocausto. Para mim a religião judaica é ímpar, a ética judaica é sem precedentes, o Deus de Israel é Echad.” (Carta de São José dos Campos - SP)
1995
Publico Os Marranos e a Diáspora Sefardita,
livro-guia para os cristãos-novos brasileiros conhecerem sua história,
a cultura judaico-sefaradi e o judaísmo.
1997
Leilani Torres Souza: “Solicito ajuda para também encontrar as minhas raízes e retornar a uma origem que me foi usurpada pela intolerância religiosa, pois sou descendente de novos-cristãos por parte de mãe. Tentei algum tempo atrás voltar no tempo para conseguir a documentação dos meus ancestrais, mas só consegui até a minha avó. A nossa família Torres Galindo é de origem espanhola da Galícia que emigrou no princípio do século XVIII.” (Carta do Rio de Janeiro - RJ)
1999
Valéria Maria de Abreu: “Em primeiro lugar, apresento-me como judaizável (sic), descendente de judeus, provavelmente marranos, uma vez que Magalhães e Abreu são famílias portuguesas. Uma bisavó minha, Ana Tobé Magalhães, se dizia ‘filha de judeus’. Sou freqüentadora da Sinagoga do Ceará.” (Carta de Fortaleza - CE)
2000
Dvora I. C. O. Albuquerque: Pertenço à comunidade judaica de Recife, sou membro da Na´amat Pioneiras, organização da qual participo ativamente, sou filiada ao Centro Israelita de Pernambuco e freqüento assiduamente o Shabat. Cresci em um lar no qual os costumes e as tradições do judaísmo sempre foram respeitados e vivenciados.” (Carta de Jaboatão de Guararapes - PE)
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Reginaldo Ramos de Lima: “As matérias sobre genealogias têm me despertado o interesse sobre a história de prováveis cristãos-novos no norte do Piauí, que migraram para a região após a expulsão dos holandeses e, nos séculos XVIII e XIX estiveram ligados ao comércio de carne com outras províncias do Brasil. Assim, os Carvalho de Almeida, os Fernandes Lima, os Benigna de Medeiros, os Siqueira e os Machados teriam algum laço de parentesco com os cristãos-novos? A toponímia de alguns lugares na fronteira norte do Piauí com o Ceará é sugestiva: Jericó, Morro do Judeu e Olhos d´Água dos Judeus.” (Carta de Brasília - DF)
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Ricardo Rabello: “Há pouco tempo descobri que sou de origem judaica, tudo através de pesquisa na Internet e também por um professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, Alfredo Mordechai Rabello. Fiquei um pouco desconcertado porque não sabia desse fato. Como poderia conhecer meus rituais e hábitos, se em minha cidade não tenho o conhecimento de nenhuma família judaica? Eu quero me reencontrar com a minha verdadeira identidade.” (Carta de Natal - RN)