CRISTÃOS-NOVOS
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 067 - Setembro/2003
Marranismo no Brasil no final do século XX
        Após a abertura política no Brasil nos anos 80 e o advento de vários casos de marranos que assumiram publicamente o judaísmo como sua opção religiosa, os anos 90 foram pródigos no que se refere ao fenômeno do aparecimento de cristãos-novos em vários Estados brasileiros. Duas datas históricas contribuíram muito para isso: a recordação e os eventos alusivos aos 500 anos da Expulsão dos judeus da Espanha (1492) e à Conversão Forçada dos judeus em Portugal (1597).
        Esta gente, que em graus diferentes tinham noção de sua ancestralidade judaico-ibérica, cujos ancestrais foram forçados a abandonar a religião mosaica, assumiram a sua identidade judaica, manifestaram interesse em estudar a história e a religião do povo judeu e, em vários casos, foram reconduzidos com acompanhamento rabínico ao judaísmo oficial, sendo que alguns dentre eles foram viver em Israel.
        Acompanhei de perto este capítulo sui generis da história judaica no Brasil, enviando literatura, esclarecendo dúvidas histórico-religiosas e colhendo suas fascinantes histórias de vida. Eis alguns casos:

1990

        Após diversas consultas de descendentes de cristãos-novos interessados em suas origens, inclusive via embaixada e consulado de Israel no Brasil, fundei a Shemá (Sociedade Hebraica para o Estudo do Marranismo/Centro Marrano do Brasil) para sistematizar pesquisas sobre o assunto. A entidade teve cerca de 50 membros regulares de vários Estados e atendeu cerca de 300 interessados na questão, a grande maioria brasileiros, mas também houve correspondentes dos Estados Unidos, Portugal, Espanha, Israel, Argentina, Uruguai, França e Suíça. Algumas dessas cartas foram publicadas no Informativo Shemá. Os trabalhos da Shemá foram concluídos em 1997, após as cerimônias de recordação pelos 500 anos do batismo forçado dos judeus em Portugal.

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        Paulo Lázaro de Brito Galvão Freire, que se define como judeu-marrano e também assina com o nome hebraico de Shaul ben Elazar, relata sobre a situação dos judeus, criptojudeus e seus descendentes na região amazônica ocidental. Sua carta é um clamor para que a comunidade judaica organizada os ajudem a se manterem judeus em meio à selva e apesar da distância dos grandes centros urbanos do Sudeste. Em suas palavras vemos o apego ao judaísmo, a luta pela sobreviência em ambiente hostil e um forte sionismo.
        Diz Freire: “Sabemos que na cidade de Guajará-Mirim existe um templo onde se reúnem algumas famílias israelitas. Em Porto Velho existem marranos. Existem também famílias de judeus bolivianos que na sua maior parte são de origem marroquina. A maioria dos marroquinos são casados com caboclas de outros Estados. O motivo desses casamentos é a não existência de uma comunidade israelita, mas seus filhos continuam na tradição e na vontade de serem judeus.
        “O que nossos corações mais almejam é que as lideranças judaicas no Brasil nos ouçam e nos ajudem, não deixando que desapareçam ou se apaguem no tempo, causado pela corrosão da indiferença, esta marca sublime do bandeirantismo que marranos distantes das grandes metrópoles, que sempre desbravaram os confins da terra e principalmente da nossa Pátria.
        “Não é justo que morram ou se evaporem as gotas de suor e sangue derramados nestas matas, no cultivo e comercialização da borracha dos pequenos comerciantes ribeirinhos que viajaram em pequenas embarcações para longínquas aldeias e corrutelas da Amazônia, trazendo progresso, formando cidades, passando por perigos indescritíveis, enfrentando muitas vezes a morte.
        “O que queremos é a preservação da cultura e tradição de nossos pais. Um homem sem passado não conhece seu presente e jamais saberá o seu futuro. Por isso o nosso apelo é que acheguem a nós e venham ter conosco, pois somos judeus com muita honra, independente das decisões das lideranças israelitas e saibam que se Israel precisar de nós estamos prontos. Jamais nos esqueceremos de Adonai Shabaoth.” (Carta de Porto Velho - RO)

1991

        Ruy da Fonseca Saraiva, descendente da família cristã-nova Saraiva-Leão (ramo Bezerra de Menezes e Fonseca), conta um caso interessante de identificação fisionômica com os judeus, ocorrido em Teresópolis (RJ): “Passando na calçada fronteira à sinagoga, fui cercado por um grupo de judeus, que em língua estranha me abordavam. Vendo que eu não entendia nada, passaram ao português, interrogando-me: ‘O patrício não vai hoje à festa em nossa sinagoga?’ No mesmo dia, horas depois, fui abordado por um grupo de mulheres, com a mesma pergunta.”

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        Waldyr Pereira de Barros, funcionário público aposentado, nascido em Pernambuco em 1929, conta sobre sua família: “Eram muito fechados com gente estranha. Falavam uma língua muito estranha toda vez que chegavam parentes do interior. Nunca abatiam animais em suas casas, e toda vez que se faziam necessário abatê-los, um determinado parente chamado Jacó, que era abatedor oficial e que antes de executar os seus serviços dizia algumas preces em uma língua que naquela fase de minha idade não me lembro de nenhuma palavra.”
        Existia em sua casa desenhos de Moisés pendurados nas paredes. Penduradas por trás das portas de entradas, acima do umbral das mesmas, haviam caixas contendo alguma porção de terra, e que todos que chegavam em suas casas punham nas mesmas suas mãos e diziam algumas palavras que não mais se recorda como eram.
        Diz que começou a se sentir judeu ainda muito novo, com 12 ou 13 anos, quando presenciava certas atitudes dos seus avós, tias e tios, dos demais conhecidos que sempre se reuniam nas casas dos mesmos. Desde pequeno, ouvia dizerem ser da Nação! Quando o abençoavam, colocavam suas mãos sobre sua cabeça! Sempre às sextas-feiras mudavam de roupas mais cedo. Mudavam as toalhas da mesa trocando-as por outras de cor branca, sendo feito com portas e janelas fechadas.
        Também tinham horror à religião católica. Quando chegava a quaresma, não saíam quase de casa, ficavam como se estivessem escondidos, como se houvesse medo de que alguma coisa pudesse lhe acontecer. Não comiam carne de porco, nem tocavam em seus derivados.

1992

        José Carlos Canal: “Amo muito o povo judeu, sua pátria, a ponto de ler tudo sobre Israel. Escrevo com o intuito de conhecer melhor os cristãos-novos não só no Brasil, como na Europa. (Carta de Vila Velha - ES)

1993

        Antônio Maria Colaço Soares: Buscando mais informações sobre o marranismo no Brasil, escreveu: “Sou industrial e faço parte de uma família de judeus marranos oriundos de Portugal.” (Carta de Santos - SP)

1993

        Antônio Máximo Lourenço: “Tenho acompanhado através de matérias vários judeus com sobrenomes de origem portuguesa. Isto realmente aguçou a minha curiosidade. Venho solicitar, se possível, informações sobre os meus sobrenomes.” (Carta de São Paulo - SP)

1993

        Elias Paz e Silva: “Sabedor do trabalho de busca das origens judaicas sefaradis do Brasil, e interessado que sou nas questões do nosso povo solicito a V.S. me enviar material publicado sobre o assunto. Como jornalista e professor de Comunicação Social da Universiade Federal do Piauí, desenvolvo pesquisa sobre a penetração judaica no Nordeste brasileiro.” É também poeta e enviou-me um livreto seu com algumas poesias. (Carta de Teresina - PI)

1993

        Walderer Almeida: “Meu sangue de nordestino descendente de marranos ferveu ao ler uma crítica a Trudi Landau (em outro periódico). Deus nos concedeu uma cabeça para pensar e capacidade intelectual para evoluir como seres criados à sua imagem e semelhança.” (Carta de Petrópolis - RJ)

1994

        Verônica Barbosa Azevedo: “Eu gostaria de obter maiores informações sobre a entidade (Shemá), em especial, gostaria de saber como é feita a pesquisa genealógica.” E “Não existe nenhum papel que diga que sou filha de mãe judia. Mas no meu coração me sinto judia! No meu coração fui escrava no Egito, exilada na Babilônia, deportada pelos romanos, queimada no fogo da Inquisição e segregada em guetos e massacrada no Holocausto. Para mim a religião judaica é ímpar, a ética judaica é sem precedentes, o Deus de Israel é Echad.” (Carta de São José dos Campos - SP)

1995

        Publico Os Marranos e a Diáspora Sefardita, livro-guia para os cristãos-novos brasileiros conhecerem sua história, a cultura judaico-sefaradi e o judaísmo.

1997

        Leilani Torres Souza: “Solicito ajuda para também encontrar as minhas raízes e retornar a uma origem que me foi usurpada pela intolerância religiosa, pois sou descendente de novos-cristãos por parte de mãe. Tentei algum tempo atrás voltar no tempo para conseguir a documentação dos meus ancestrais, mas só consegui até a minha avó. A nossa família Torres Galindo é de origem espanhola da Galícia que emigrou no princípio do século XVIII.” (Carta do Rio de Janeiro - RJ)

1999

        Valéria Maria de Abreu: “Em primeiro lugar, apresento-me como judaizável (sic), descendente de judeus, provavelmente marranos, uma vez que Magalhães e Abreu são famílias portuguesas. Uma bisavó minha, Ana Tobé Magalhães, se dizia ‘filha de judeus’. Sou freqüentadora da Sinagoga do Ceará.” (Carta de Fortaleza - CE)

2000

        Dvora I. C. O. Albuquerque: Pertenço à comunidade judaica de Recife, sou membro da Na´amat Pioneiras, organização da qual participo ativamente, sou filiada ao Centro Israelita de Pernambuco e freqüento assiduamente o Shabat. Cresci em um lar no qual os costumes e as tradições do judaísmo sempre foram respeitados e vivenciados.” (Carta de Jaboatão de Guararapes - PE)

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        Reginaldo Ramos de Lima: “As matérias sobre genealogias têm me despertado o interesse sobre a história de prováveis cristãos-novos no norte do Piauí, que migraram para a região após a expulsão dos holandeses e, nos séculos XVIII e XIX estiveram ligados ao comércio de carne com outras províncias do Brasil. Assim, os Carvalho de Almeida, os Fernandes Lima, os Benigna de Medeiros, os Siqueira e os Machados teriam algum laço de parentesco com os cristãos-novos? A toponímia de alguns lugares na fronteira norte do Piauí com o Ceará é sugestiva: Jericó, Morro do Judeu e Olhos d´Água dos Judeus.” (Carta de Brasília - DF)

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        Ricardo Rabello: “Há pouco tempo descobri que sou de origem judaica, tudo através de pesquisa na Internet e também por um professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, Alfredo Mordechai Rabello. Fiquei um pouco desconcertado porque não sabia desse fato. Como poderia conhecer meus rituais e hábitos, se em minha cidade não tenho o conhecimento de nenhuma família judaica? Eu quero me reencontrar com a minha verdadeira identidade.” (Carta de Natal - RN)

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