LITERATURA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 068 - Dezembro /2003
Um tributo a Haroldo de Campos
        Faleceu recentemente em São Paulo, vítima de falência múltipla dos órgãos, o poeta e tradutor Haroldo de Campos. O intelectual projetou-se junto à comunidade judaica pelas traduções poéticas – conhecidas como transcriações – que fez de vários livros da Bíblia Hebraica.
        No início de 1994, quando do lançamento de meu livro Israelitas na Cultura Brasileira, na Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, tive a honra de contar com Haroldo de Campos na mesa de debates, juntamente com Nelson Ascher, José Luis Goldfarb e Jaime Pinsky. Sem dúvida, um time de peso na cultura judaico-brasileira.
        Alguns meses depois, tive o privilégio de entrevistá-lo com exclusividade no Consulado de Israel em São Paulo, a convite do então cônsul Yosef Arad. Campos acabava de regressar de Israel e contou-me sua experiência cultural no Estado judeu e leu para os presentes sua recente transcriação do poema “O legado”, do israelense Haim Guri. A conversa animada continuou na Hebraica, em almoço oferecido pelo Consulado e pela Associação Universitária de Cultura Judaica, com as presenças de Leon Feffer, Jacó Guinsburg e o Yosef Arad.
        Haroldo Campos nasceu em 1929, em São Paulo (SP). Filho de Eurico de Campos e Elvira Prado Browne de Campos, era casado com Carmem de Arruda Campos, com quem teve Cid de Campos. Fez os estudos secundários no Colégio de São Bento, de 1942 a 1947. Formou-se em Direito pela USP, em 1952, e doutorou-se em Letras na mesma universidade, em 1972.
        Em 1952, ele fundou junto com Augusto de Campos e Décio Pignatari o movimento da poesia concreta. Em 1956 e 1957, participou do lançamento oficial da Poesia Concreta na I Exposição Nacional de Arte Concreta, no MAM/SP e no saguão do MEC/RJ. Em 1958, publicaria o Plano-Piloto para Poesia Concreta, com Augusto de Campos e Décio Pignatari. Nos anos seguintes trabalhou como tradutor, crítico e teórico literário, além de professor Titular do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Literatura na PUC/SP. Em 1992 foi laureado com o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano; em 1999 o Prêmio Jabuti de Poesia foi conferido para seu livro Crisantempo: no Espaço Curvo Nasce Um (1998).
        Considerado o "mais barroco" dos concretistas, Haroldo de Campos tem sua obra poética intimamente ligada ao movimento. A crença em uma “crise no verso” o levou ao experimentalismo, à busca de novas formas de estruturação e sintaxe, em curtos poemas-objeto ou longos poemas em prosa.
        O concretismo é o primeiro "produto de exportação" da poesia brasileira, para usar a expressão de Oswald de Andrade, pois foi concebido como movimento internacional e surgiu, se não antes, pelo menos ao mesmo tempo em que se manifestava em outros países.
        O grupo formado por Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari usou pela primeira vez a expressão "poesia concreta” no Festival de Música de Vanguarda do Teatro Arena em 1955. No ano seguinte, o movimento Concretista seria definido com uma exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo.
        No manifesto Plano Piloto para Poesia Concreta, publicado em 1958, os poetas elencam, entre seus precursores e influenciadores, Oswald de Andrade (figura-chave da primeira fase Modernista) e João Cabral de Melo Neto (poeta que se filiava à Geração de 45), mas que havia criado uma "arquitetura funcional do verso" que se aproximava dos princípios do Concretismo.
        A poesia concreta, segundo Philadelpho Menezes, estava "intimamente associada ao movimento de boom desenvolvimentista que levanta o país nos anos 50, simbolizado exemplarmente pelo plano de criação de Brasília, uma nova cidade idealizada como centro do poder, matematicamente situada no centro geográfico do país. Basta recordar que o principal texto da poesia concreta, publicado em 1958, tem o título Plano Piloto para Poesia Concreta, assinado por Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari. É uma citação direta e assumida do Plano Piloto para a Construção de Brasília, elaborado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, que sonhava construir do nada, em meio ao inóspito cerrado do Planalto Central brasileiro, uma cidade dentro dos moldes mais racionalistas idealizados pelo urbanismo modernista europeu.
        Ao longo dos anos, os irmãos Campos realizaram trabalho decisivo nas áreas de teoria literária e lingüística, e desenvolveram linhas particulares de criação poética. Para Benedito Nunes, "tentar separar a trajetória poética de Haroldo de Campos dos rumos do Concretismo seria tão absurdo como pretender estudar os rumos de André Breton independentemente da trajetória do surrealismo” (1).

Nota:

- Fontes: www.uol.com.br/haroldodecampos e www.itaucultural.

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