Faleceu
recentemente em São Paulo, vítima de falência múltipla
dos órgãos, o poeta e tradutor Haroldo de Campos. O intelectual
projetou-se junto à comunidade judaica pelas traduções
poéticas – conhecidas como transcriações –
que fez de vários livros da Bíblia Hebraica.
No
início de 1994, quando do lançamento de meu livro Israelitas
na Cultura Brasileira, na Secretaria de Cultura do Estado de São
Paulo, tive a honra de contar com Haroldo de Campos na mesa de debates, juntamente
com Nelson Ascher, José Luis Goldfarb e Jaime Pinsky. Sem dúvida,
um time de peso na cultura judaico-brasileira.
Alguns
meses depois, tive o privilégio de entrevistá-lo com exclusividade
no Consulado de Israel em São Paulo, a convite do então cônsul
Yosef Arad. Campos acabava de regressar de Israel e contou-me sua experiência
cultural no Estado judeu e leu para os presentes sua recente transcriação
do poema “O legado”, do israelense Haim Guri. A conversa animada
continuou na Hebraica, em almoço oferecido pelo Consulado e pela Associação
Universitária de Cultura Judaica, com as presenças de Leon Feffer,
Jacó Guinsburg e o Yosef Arad.
Haroldo
Campos nasceu em 1929, em São Paulo (SP). Filho de Eurico de Campos
e Elvira Prado Browne de Campos, era casado com Carmem de Arruda Campos, com
quem teve Cid de Campos. Fez os estudos secundários no Colégio
de São Bento, de 1942 a 1947. Formou-se em Direito pela USP, em 1952,
e doutorou-se em Letras na mesma universidade, em 1972.
Em
1952, ele fundou junto com Augusto de Campos e Décio Pignatari o movimento
da poesia concreta. Em 1956 e 1957, participou do lançamento oficial
da Poesia Concreta na I Exposição Nacional de Arte Concreta,
no MAM/SP e no saguão do MEC/RJ. Em 1958, publicaria o Plano-Piloto
para Poesia Concreta, com Augusto de Campos e Décio Pignatari.
Nos anos seguintes trabalhou como tradutor, crítico e teórico
literário, além de professor Titular do curso de pós-graduação
em Comunicação e Semiótica da Literatura na PUC/SP. Em
1992 foi laureado com o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária
do Ano; em 1999 o Prêmio Jabuti de Poesia foi conferido para seu livro
Crisantempo: no Espaço Curvo Nasce Um (1998).
Considerado
o "mais barroco" dos concretistas, Haroldo de Campos tem sua obra
poética intimamente ligada ao movimento. A crença em uma “crise
no verso” o levou ao experimentalismo, à busca de novas formas
de estruturação e sintaxe, em curtos poemas-objeto ou longos
poemas em prosa.
O
concretismo é o primeiro "produto de exportação"
da poesia brasileira, para usar a expressão de Oswald de Andrade, pois
foi concebido como movimento internacional e surgiu, se não antes,
pelo menos ao mesmo tempo em que se manifestava em outros países.
O
grupo formado por Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari
usou pela primeira vez a expressão "poesia concreta” no
Festival de Música de Vanguarda do Teatro Arena em 1955. No ano seguinte,
o movimento Concretista seria definido com uma exposição no
Museu de Arte Moderna de São Paulo.
No
manifesto Plano Piloto para Poesia Concreta, publicado em 1958, os poetas
elencam, entre seus precursores e influenciadores, Oswald de Andrade (figura-chave
da primeira fase Modernista) e João Cabral de Melo Neto (poeta que
se filiava à Geração de 45), mas que havia criado uma
"arquitetura funcional do verso" que se aproximava dos princípios
do Concretismo.
A
poesia concreta, segundo Philadelpho Menezes, estava "intimamente associada
ao movimento de boom desenvolvimentista que levanta o país
nos anos 50, simbolizado exemplarmente pelo plano de criação
de Brasília, uma nova cidade idealizada como centro do poder, matematicamente
situada no centro geográfico do país. Basta recordar que o principal
texto da poesia concreta, publicado em 1958, tem o título Plano
Piloto para Poesia Concreta, assinado por Augusto e Haroldo de Campos
e Décio Pignatari. É uma citação direta e assumida
do Plano Piloto para a Construção de Brasília, elaborado
por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, que sonhava construir do nada, em
meio ao inóspito cerrado do Planalto Central brasileiro, uma cidade
dentro dos moldes mais racionalistas idealizados pelo urbanismo modernista
europeu.
Ao
longo dos anos, os irmãos Campos realizaram trabalho decisivo nas áreas
de teoria literária e lingüística, e desenvolveram linhas
particulares de criação poética. Para Benedito Nunes,
"tentar separar a trajetória poética de Haroldo de Campos
dos rumos do Concretismo seria tão absurdo como pretender estudar os
rumos de André Breton independentemente da trajetória do surrealismo”
(1).
Nota:
- Fontes: www.uol.com.br/haroldodecampos e www.itaucultural.