DESTAQUE
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 071 - Maio/2004
Jacó Guinsburg: o divulgador
do livro judaico no Brasil

        A Editora Perspectiva é uma das mais importantes editoras acadêmicas brasileiras, com destaque nos campos da filosofia, história, sociologia, arte e teatro, com muitos títulos ligados à cultura judaica. O responsável por este feito é o intelectual Jacó Guinsburg, diretor da editora, que com exclusividade para a JUDAICA faz um balanço da cultura judaica no Brasil. Por sua contribuição cultural, Guinsburg é o Destaque Judaísmo e Cultura 2004.
        Olhando para o passado, fale um pouco das realizações da Editora Perspectiva em prol da cultura judaica no Brasil?
        Eu acredito que, a primeira coisa que a Perspectiva fez - sendo coerente consigo própria - foi cumprir aquilo que ela prometeu desde o início. Ela se propôs a ser uma editora de caráter geral, com uma atenção específica para a edição de temática judaica. Com maior apoio, poderíamos ter feito o dobro ou o triplo. De um lado temos a sensação de que fomos coerentes conosco, de outro lado, lamentamos não ter feito tudo o que desejaríamos ter feito.
        Dos livros que o senhor editou, quais os que tiveram melhor receptividade pelo público ou que tenha se orgulhado de maneira especial de editar?
        Dos que editei, a maior parte tive satisfação pessoal. Eram obras de importância que mereciam ser editadas. Nem todas são de leitura imediata e fácil, mas eu achava que haveria um maior interesse por parte da comunidade. A verdade é que o interesse é sempre relativo.
        Uma coletânea de Sholem Aleichem que tem mais de 30 anos de existência comprova que este escritor não está sendo uma das coisas mais interessantes hoje em dia. A edição de I. L. Peretz é de 1966... No campo específico judaico, felizmente, nem todos os livros da Pespectiva são assim. Tenho livros que caminham extraordinariamente.
        O senhor detectou alguma explicação para esse desinteresse?
        Há muitos fatores, não é só a má vontade. Primeiro é o processo de tranformação. Entre o mundo e a comunidade do meu tempo de juventude e agora há muita mudança, com um processo de aculturação acelerado e, por outro lado, perda de raízes. Eu acredito que alguma coisa a mais poderia ter sido feita para manutenção e desenvolvimento da cultura judaica.
        Já pensou em publicar mais sobre os judeus medievais em Portugal e na Espanha?
        No Brasil, temos uma bibliografia relativamente pobre em todos os campos. Os judeus portugueses e espanhóis têm sido estudados no Brasil em termos de história da Inquisição e história do Brasil. Historiadores como a Anita Novinsky, por exemplo, publicou pela Perspectiva o importante Cristãos-novos na Bahia.
        Eu me referia a nomes como Maimon, Gabirol e Halevi...
        Se você pegar um país como a Argentina, que tem uma comunidade mais numerosa, os estudos nesse sentido também não são tão mais numerosos. Isso é para as universidades de Jerusalém, de Tel Aviv e, eventualmente, para as universidades americanas.
        No Brasil, alguém pode desenvolver uma tese original sobre esses pensadores, mas pensar que há condições para desenvolver linhas de estudo nesse sentido, é muito difícil.
        O que está editado sobre estes autores em outros países?
        Os textos estão reeditados em edições modernas americanas. Os alemães fizeram muitas edições já no século XIX, quando ali surgiu a Ciência do Judaísmo. E há o centro israelense, onde a história e a filosofia medieval são obrigatórias.
        Não conheço a produção holandesa, mas tenho certeza de que muita coisa ligada aos estudos spinozanos giram em torno desses pensadores. Não é possível estudar Spinoza sem pensar em dois filósofos judeus fundamentais: Maimon e Crescas.
        No Brasil, você pega um trabalho como Tempo e Religião, do falecido professor Walter Rehfeld, e verifica que ele é do nível de qualquer centro avançado. No Brasil falta uma produção sistemática.
        Isso não quer dizer que um Centro de Estudos Judaicos, na USP, não vá ter uma produção dessa naturreza. Ali professores importantes como Rifka Berezin e Nacny Rozenchan. Destaco também o papel importante para a difusão da cultura judaica desempenhado pela Associação Universitária de Cultura Judaica, iniciativa do saudoso Leon Feffer (z.l.)
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