Durante
as incontáveis conferências de paz entre israelenses e palestinos,
o ponto mais difícil de entendimento entre os dois povos sempre foi
a questão da soberania de Jerusalém, definida como capital eterna
e indivisível pelos judeus, considerada a terceira cidade sagrada (depois
de Meca e Medina, na Arábia Saudita) pelos muçulmanos e ainda
reivindicada como centro religioso por um cem número de seitas cristãs,
que vão da católica romana e ortodoxa grega aos protestantes
de todos os matizes.
Em meio às
tantas discussões políticas, muitas vezes tem se falado na divisão
da cidade, o que a tornaria ao mesmo tempo capital israelense e palestina.
Para a maioria dos israelenses, mesmo para os mais seculares, isso seria como
dividir a própria esposa com outro homem. Há também os
que propõem a sua internacionalização, o que para Israel
(usando ainda a metáfora da esposa) seria o mesmo que entregá-la
à prostituição.
Em ambos
os casos, o governo e o povo israelense, como a maioria dos judeus em todo
o mundo, são terminantemente contrários a qualquer ameaça
que tente mudar o atual status de Jerusalém. O ensaísta
israelense Amós Elon, autor de Jerusalém, a Cidade de Espelhos
(Ed. Saraiva) um livro bastante interessante que faz uma verdadeira biografia
da cidade, escreveu que “Jerusalém tornou-se a grande Capital
da Memória para os judeus.” E a história demonstra que
um povo sem memória está condenado a desaparecer...
Mas unanimidade
nunca foi uma característica judaica. André Chouraqui, judeu
israelense e uma das maiores autoridade em Bíblia, numa recente
entrevista chocou os conservadores ao declarar que Jerusalém deveria
ser a capital do mundo. Literal ou simbolicamente, o comentário mostra
mais uma vez que esta cidade desperta contraditórias paixões
em diferentes religiões e povos.
Referida em textos
egípcios por volta de 1900 a.C., a cidade entrou definitivamente para
a história universal com a conquista empreendida pelo rei David em
1000 a.C. De capital política do antigo Estado de Israel, tornou-se
meio século depois o centro espiritual do povo israelita no reinado
de Salomão (filho de David), com a construção do suntuoso
Templo sagrado. Desse momento em diante, Deus tinha um endereço na
Terra, ali em Jerusalém.
O conceito de cidade
sagrada encontrou campo fértil no Estado teocrático de Israel.
Jerusalém, invadida sucessivamente por egípcios, babilônicos,
persas, gregos, romanos, bizantinos, árabes, turcos e ingleses, sobreviveu
porém carinhosamente nos corações dos judeus durante
os quase dois mil anos de diáspora. Que segredo guarda esta cidade
para atrair povos tão distintos em todas as épocas? Para os
cabalistas, Jerusalém é o centro do universo, a porta para uma
outra dimensão.
O encantamento de
Jerusalém deixou sua marca na obra de Shakespeare, Blake, Dali, Chagall,
Borges e tantos outros. Místicos, poetas, músicos e pintores
vêem nela fonte constante de inspiração. Assim acontece
com Marek Halter, escritor nascido na Polônia em 1936, filho de um impressor
e de uma poetisa iídiche, que aos cinco anos de idade fugiu com os
pais de Varsóvia ocupada pelos nazistas indo para Moscou até
encontrar refúgio no longínquo Uzbequistão, na Ásia
Central. Halter emigrou para a França em 1950, onde tem se destacado
como combativo militante dos direitos humanos e criativo romancista.
Um de seus livros, Os Mistérios de Jerusalém
(Ediouro), reflete em Halter a aura mística que cerca a mais disputada
cidade da história. O romance, em si mesmo, alimenta a lenda. Eis o
enredo: em Nova York, Paris, Moscou e mesmo nas margens do Mar Morto um manuscrito
com mais de dois mil anos faz correr muito sangue. Ele revela um dos 64 enigmas
do Rolo dos Ta’amrés, que até hoje – ficticiamente,
claro - protegem o tesouro do Templo de Jerusalém.
O manuscrito é
cobiçado por eruditos, mafiosos e terroristas. Seus escritos revelariam
porque Deus escolheu Jerusalém, uma aldeia grudada aos flancos áridos
dos montes da Judéia, para ali fazer a sua morada. Para tentar desvendar
este mistério que dura três mil anos, um escritor apaixonado
pela história da cidade se deixa influenciar por um jovem repórter
do New York Times nesta busca do passado através de algumas
das mais fascinantes passagens das Sagradas Escrituras, para solucionarem
os mistérios do presente.
Os Mistérios de Jerusalém é alguma coisa como
a busca do Santo Graal e da arca perdida por Indiana Jones no melhor estilo
James Bond. Mistura de romance policial com romance de aventura, Halter trabalha
a ficção de modo a trazer o leitor para dentro da história,
por mais absurda que ela pareça. Na verdade, é o próprio
absurdo da narrativa que torna o texto envolvente e, para alguns psicanalistas
das grandes metrópoles, terapêutico enquanto escapismo, fuga
da realidade.
TRECHO
“Durante a noite inteira, palavras, gritos, imagens
de Jerusalém haviam se atropelado ruidosamente nos caminhos sinuosos
dos meus sonhos. A agressão a Rab Haïm me deixara profundamente
perturbado. Se a morte já não me angustiava depois da minha
operação, as brutalidades sofridas pelo velho alfarrabista,
em contrapartida me afligiam a mais não poder. Talvez por sua maneira
antiquada, mas penetrante, de manipular o tempo e a memória, os textos
e a carne do passado, Rab Haïm se tornara muito próximo de mim.
Como se, por uma conexão sutil e impalpável, pertencêssemos
à mesma família.
Assim, já que não conseguia adormecer, eu cometera o erro
de assistir televisão até tarde. No começo pretendia
apenas dar uma olhada nos telejornais noturnos, para ver se falavam daquela
agressão, mas o noticiário estava inteiramente ocupado pelo
atentado da madrugada anterior, perto da Porta de Damasco.