CINEMA
No. 074 - Outubro/2004
“Olga” retrata uma época conturbada
        Estrelado por Camila Morgado (que interpreta a judia comunista Olga Benário) e Caco Ciocler (como Luís Carlos Prestes), Olga – estréia de Jayme Monjardim no cinema - conta uma grande história de amor, em todos os sentidos: a luta, os ideais, o marido, a maternidade. Da infância burguesa na Alemanha à morte numa das câmaras de gás de Hitler, as imagens retratam a alma de uma revolucionária que descobriu o amor e a crueldade no Brasil, onde se casou com Luís Carlos Prestes, engravidou e foi entregue por Getúlio Vargas aos nazistas.
        Baseado no livro homônimo do escritor Fernando Moraes, traduzido em 21 países, Olga tem roteiro e produção de Rita Buzzar. O elenco traz Fernanda Montenegro (como a mãe de Prestes, dona Leocádia), Eliane Giardini, Murilo Rosa, Luís Mello, Mariana Lima, Osmar Prado, Werner Schünemann, entre outros.
        O filme é uma grande história de amor e intolerância. Da infância burguesa na Alemanha à morte numa das câmaras de gás de Hitler, a obra retrata a vida e a alma da militante comunista Olga Benário Prestes. Filha de Eugenie Gutmann Benário (descendente de uma rica família judia da alta sociedade) e de Léo Benário (advogado e influente personalidade do Partido Social Democrata), Olga ingressou na Juventude Comunista aos 15 anos e desde cedo esteve ligada à estrutura interna do Partido Comunista na Alemanha, quando este já se encontrava na ilegalidade. Cinco anos depois, invadiu o presídio de Moabit e, numa ação ousada, resgatou o professor comunista Otto Braun durante seu julgamento.
        Em 1928, Olga, junto com Otto, foi enviada pelo partido à União Soviética onde se filiou ao Exército Vermelho. Em Moscou, recebeu treinamento militar e foi designada pela Internacional Comunista (Comintern) para cuidar da segurança pessoal do capitão Luís Carlos Prestes, na viagem que o traria de volta ao Brasil, para comandar o primeiro levante comunista na América do Sul. Em uma viagem arriscada, passando pela Europa e Estados Unidos e disfarçados como um rico casal de portugueses em lua-de-mel, Prestes e Olga se apaixonam.
        O militar experiente e disciplinado, aos 37 anos de idade, revela-se um homem tímido e que nunca havia estado antes com uma mulher. No Brasil, o casal se juntou a outros membros enviados pelo Comintern, que viviam na clandestinidade, e o grupo começou a organizar uma revolução comunista. No entanto, o movimento é tragicamente derrotado. Todos os revoltosos são esmagados pela polícia de Getúlio Vargas, muitos são presos e outros tantos mortos. Em 1936, Olga e Prestes foram presos e nunca mais se viram.
        O responsável pela prisão foi Filinto Müller, chefe da Polícia Militar do Distrito Federal na era Vargas. Anos antes, acusado de roubo, Filinto havia sido expulso da Coluna Prestes. A perseguição a Prestes também teria sido agravada pelo fato do militante não ter se aliado a Getúlio na Revolução de 30. E assim, Olga, grávida de sete meses, é deportada para a Alemanha de Hitler. Teve sua filha Anita Leocádia na prisão da Gestapo.
        Durante todo o tempo que ficou presa, trocou correspondências com o marido e continuou pregando seus ideais de liberdade e justiça social. Aos nove meses, Anita é separada de Olga. Entretanto, graças a uma campanha internacional deflagrada pelos incansáveis esforços da mãe de Prestes, dona Leocádia, a criança é salva e entregue à família. Olga nunca mais voltaria a ver Prestes ou sua filha. É umas das primeiras vítimas da solução final nazista, sendo morta em uma câmera de gás de Bernburg, em 1942.
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ENTREVISTA / JAIME MONJARDIM
Cineasta comenta a produção de “Olga”
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
        Como surgiu a idéia de passar o livro do Fernando Moraes, sobre a Olga Benário, para a tela?
        Costumo brincar dizendo que foi esta história que me escolheu. Eu fazia curtas e estava tentando fazer meu primeiro longa, sobre a história da minha mãe, quando li Olga. Me apaixonei e pensei em fazer um longa sobre a Olga também, mesmo sem nem ter ainda verba para o primeiro projeto. Isso há 23 anos, porque foi a Fernanda, minha ex-esposa, que me ajudou com a pesquisa. Nessa época, os direitos estavam com o Sílvio Tendler. Há dois anos encontrei por acaso com a Rita Buzzar, produtora e roteirista do filme, e ela perguntou se eu gostaria de dirigir Olga. Nem acreditei. Aceitei na mesma hora.
        Você buscou ser o mais histórico possível ou se permitiu maiores "liberdades artísticas"?
        Inspirei na fase do neo-realismo do cinema italiano, em Roberto Rosselini. Eu gosto muito desse cinema acadêmico, que utiliza uma linguagem mais simples.
        Quais foram os critérios que você adotou para a escolha do elenco?
        Queria bons atores e, se possível, que tivesse alguma semelhança física com os personagens reais.
        Quais as maiores dificuldades para a realização de Olga?
        O mais difícil foi ter que filmar tudo no Rio de Janeiro, num calor de 40 graus. Fazer um mundo de frio, europeu, no calor carioca não foi fácil. Foi um desafio. Cada cenário e cada locação tiveram que receber uma interferência diferenciada para reconstituir a década de 30 em três países diferentes: Brasil, Rússia e Alemanha.
        Como lhe parece o resultado final?
        Estou muito feliz com o resultado.
        Algum aspecto da Olga Benário real o interessou ou comoveu mais?
        Essa história me fascinou desde o início, sempre tive interesse em filmá-la. A história brasileira é repleta de grandes mulheres e suas vidas ainda são pouco exploradas. Sem a obra de Fernando Morais, Olga não existiria para o mundo.
        A Olga foi uma das milhões de vítimas da bestialidade nazista nos anos 30 e 40. Como você vê a intolerância político-religiosa em nossos dias?
        É inaceitável. A humanidade tem que olhar para trás e rever os erros cometidos para não repeti-los. É muito importante estar sempre filmando e refilmando a nossa história, a história do mundo. O que aconteceu, não pode se repetir. O que está acontecendo, não pode se repetir.
        Qual a sua avaliação do cinema nacional na última década?
        Estamos em um processo de retomada do cinema nacional e o sucesso que os filmes nacionais têm alcançado indicam que este é um mercado promissor, que os brasileiros estão voltando ao cinema para ver filme brasileiro e estão gostando do que estão vendo.