Costumávamos
nos falar sempre em ladino, usando não apenas a linguagem coloquial,
mas desafiando mutuamente nossa memória com o uso de expressões
e provérbios. Cada conversa ou encontro era tão alegre, divertido
e intelectualmente estimulante, que resolvemos formar um grupo de amigas que
compartilhassem essa herança cultural.KUALO KE TE DIGA
PRENDA DE MI ALMA
KE TU NO SUPIERAS
KUANDO TE TOPI
TODOS LOS KAMINOS
SE TORNAN MAS ANCHOS,
TODAS LAS NOCHADAS
PUJADAS DE LUNA,
TODAS LAS MANYANAS
INCHIDAS DE SOLO.
Que posso dizer-te
Dádiva de minha alma
Que tu não soubesses
Quando te encontrei
Todos os caminhos
Ficam mais largos,
As noites inteiras
Intensas de luar,
Todas as manhãs
Iluminadas de sol.
Alguns
historiadores levantam a hipótese de que israelitas acompanharam os
fenícios em suas viagens pelo Mediterrâneo desde o século
X a.C., quando o rei Salomão de Israel firmou intercâmbio de
navegação com o rei Hirão de Tiro e nos séculos
seguintes (1). Segundo a Bíblia, a frota de Salomão
estava ligada a Társis (2). Na época, Tarshish (em
hebraico) designava tanto uma quanto várias cidades de Tartessos (sul
da Espanha) e também era termo geográfico para designar o “fim
do mundo” (3).
Cidades
como Córdoba, Toledo, Granada, Sevilha e Lisboa fervilhavam com a vida
judaica em seu esplendor. Séculos depois, com as guerras de reconquista
dos reis católicos Fernando e Isabel, tudo mudaria com a expulsão
dos judeus dos reinos espanhóis em 1492. Em Portugal a situação
não seria melhor. Em 1497, durante o reinado de Dom Manuel, todos os
judeus portugueses foram convertidos à força. Encerrava-se assim
de forma dramática a gloriosa vida judaica na Península Ibérica.Notas:
1) Léon Poliakov: De Maomé aos Marranos (Ed. Perspectiva,
São Paulo, 1984, Trad. Ana M. Goldberger Coelho e Jacó Guinsburg),
p. 13 e 14. E Maria Guadalupe Pedrero-Sánchez: Os Judeus na Espanha
(Ed. Giordano, São Paulo, 1994), pp. 13 e 14.
2) I Reis 10: 22.
3) Moisés Espírito Santo: Dicionário Fenício-Português
(UNL, Lisboa, s/d.), p. 14.
4) Atual Elvira, próximo de Granada (sul da Espanha).
5) Moisés Espírito Santo: Origens do Cristianismo Português
(UNL, Lisboa, s/d.), p. 151.
6) No Brasil viveram como criptojudeus, ou seja, judeus secretos, também
chamados de cristãos-novos ou marranos.
7) Sefaradi: originário de Sefarad, termo hebraico que na
Idade Média designava a Andaluzia e depois passou a designar toda a
Península Ibérica.