TRADIÇÃO SEFARADI
No. 076 - Fevereiro/2005
Ladino renasce em São Paulo
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POESIA
Kuando te topi
BEATRIZ MAZLIAH
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
        Anna Barki Bigio e Clara Hakim Kochen vêm direcionando especial atenção à preservação e cultivo do ladino, primeiramente no círculo familiar e de amizades e agora em âmbito mais amplo em reuniões, nas quais trabalham sobre fragmentos multidisciplinares resgatados de acervo que desejam salvar do esquecimento. Para conhecer mais este trabalho, a reportagem da JUDAICA esteve na residência de Anna Bigio no bairro de Cerqueira César, onde entrevistou as idealizadoras da iniciativa.
        Nos últimos 20 anos têm havido algumas iniciativas heróicas de fazer o ladino renascer em Israel, na Europa, na América do Norte e no Brasil. Alguns descendentes de sefaradis famosos são o filósofo holandês Baruch Spinoza, o dramaturgo brasileiro Antônio José da Silva, o psicólogo austríaco Jacob Levy Moreno, o escritor búlgaro Elias Canetti, o filósofo francês Edgar Morin, o cantor israelense Yoran Gaon e o empresário brasileiro Senor Abravanel (Sílvio Santos).
        As protagonistas brasileiras do renascimento do ladino são as senhoras Anna Barki Bigio e Clara Hakim Kochen, residentes em São Paulo (SP). Anna descende de sefaradis italianos e turcos, enquanto Clara descende de sefaradis marroquinos e turcos também. Segue a entrevista:
        Como surgiu a idéia das tardes de ladino em São Paulo?
        Costumávamos nos falar sempre em ladino, usando não apenas a linguagem coloquial, mas desafiando mutuamente nossa memória com o uso de expressões e provérbios. Cada conversa ou encontro era tão alegre, divertido e intelectualmente estimulante, que resolvemos formar um grupo de amigas que compartilhassem essa herança cultural.
        Vocês encontraram alguma dificuldade no início?
        Para a realização desse projeto se fazia necessário um ponto de encontro e um horário confortável entre as horas de pico de trânsito. Foi encorajante o estímulo dado pelo rabino Jacob Garzon, que apoiou a iniciativa oferecendo uma sala para as reuniões no Colégio Iavne, cuja localização e facilidade de estacionamento atende com comodidade o projeto.
        Quem freqüenta o grupo?
        Senhoras de famílias turcas, gregas, iugoslavas e de outras origens de fala ladina. Entretanto há várias freqüentadoras asquenazitas de presença constante, por curiosidade intelectual na antropologia cultural dos sefaradis. Em média cerca de 25 ou 30 senhoras participam das reuniões, mas temos cerca de 50 inscritas.
        Qual a programação do grupo?
        As tardes de ladino são alegres e extremamente gratificantes pela transmissão e permuta de conhecimento sobre um grupo judaico que teimosamente preserva seus costumes, sua língua, suas raízes e seus valores.
        Nossas tardes são mensais e têm a seguinte pauta: texto cultural ou artigo literário em ladino e comentários; leitura de um kuento (conto folclórico), leitura de uma biografia de uma personalidade sefaradi, dichos (provérbios), sua sabedoria e humor; usos e costumes dos sefaradis; curiosidades e receitas típicas e música com cantos tradicionais.
        Quais os objetivos que vocês almejam com o grupo?
        É particularmente encorajante saber que hoje em dia em Israel e em vários países há um renovado interesse na cultura judaico-espanhola. Estamos dando nossa pequena contribuição, procurando salvar essa herança cultural de tão grande valor histórico e riqueza cultural, que deve ser cultivada e transmitida a nossos filhos, como o legado de grande valor, de um povo a que temos o orgulho de pertencer.
        Como devem proceder os interessados em participar das tardes de ladino?
        Todos os interessados podem participar e serão bem-vindos. As reuniões são sempre nas terceiras terças-feiras de cada mês, no Colégio Iavne: Rua Pe. João Manoel, 727, das 16h00 às 17h30 (exceto nos feriados judaicos e nas férias escolares). Para outras informações os interessados podem entrar em contato diretamente com a gente pelos telefones: 3256-2200 (Anna) e 5572-8586 (Clara).
KE SE ABREN LOS CIELOS
POR VERTE PASAR,
KE BRILIA LA TIERRA
KUANDO TU PISAS,
KE KANTAN LAS FLORES
E AVOLTA LA MAR.

KUALO KE TE DIGA
PRENDA DE MI ALMA
KE TU NO SUPIERAS
KUANDO TE TOPI

TODOS LOS KAMINOS
SE TORNAN MAS ANCHOS,
TODAS LAS NOCHADAS
PUJADAS DE LUNA,
TODAS LAS MANYANAS
INCHIDAS DE SOLO.

Que abrem-se os céus
Para te ver passar,
Que a terra brilha
Quando tu pisas,
Que cantam as flores
E agita-se o mar.

Que posso dizer-te
Dádiva de minha alma
Que tu não soubesses
Quando te encontrei

Todos os caminhos
Ficam mais largos,
As noites inteiras
Intensas de luar,
Todas as manhãs
Iluminadas de sol.

Tradução de Clara Hakim Kochen
HISTÓRIA
Presença na Península Ibérica
moldou a tradição sefaradi

HÉLIO DANIEL CORDEIRO
        O ano 70 d.C. marca a destruição do Templo de Jerusalém pelas tropas romanas sob o comando de Tito e o início da grande diáspora do povo judeu. Na realidade, então já existiam várias comunidades judaicas concentradas especialmente no Egito e Babilônia. No início da era cristã, já era bastante conhecida a presença de judeus na Ásia Menor (atual Turquia), Grécia e Itália.
        Alguns historiadores levantam a hipótese de que israelitas acompanharam os fenícios em suas viagens pelo Mediterrâneo desde o século X a.C., quando o rei Salomão de Israel firmou intercâmbio de navegação com o rei Hirão de Tiro e nos séculos seguintes (1). Segundo a Bíblia, a frota de Salomão estava ligada a Társis (2). Na época, Tarshish (em hebraico) designava tanto uma quanto várias cidades de Tartessos (sul da Espanha) e também era termo geográfico para designar o “fim do mundo” (3).
        Durante a administração romana na Península Ibérica, surgem algumas vagas informações da presença judaica na região. Estes judeus dedicavam-se a atividades comerciais e utilizavam a língua latina como meio de comunicação. No início do século IV a presença judaica já deveria ser significativa, ao ponto do concílio de Eliberi (4) incluir na pauta de discussão a questão judaica. Foi o primeiro concílio ibérico de que se tem notícia e ocorreu provavelmente em 308, portanto ainda antes de Constantino adotar o cristianismo como religião oficial do Império Romano (5).
        Com a tomada da península pelos visigodos, a situação permaneceu relativamente tranqüila para os judeus. Os novos conquistadores eram originários de terras germânicas e seguiam a versão ariana do cristianismo. Uma mudança radical na vida judaica da Espanha aconteceu com a conversão do rei Recaredo ao catolicismo romano em 589. Os judeus passaram então a ser sistematicamente discriminados. Esta situação só foi normalizada em 711 com a conquista muçulmana da região.
        Esta fase da história judaica é a chamada Idade de Ouro do judaísmo ibérico. Ali nasceram figuras importantes como Salomon ibn Gabirol, Iehuda Halevi, Moshe ben Maimon, Isaac Abravanel e tantos outros filósofos, teólogos, poetas e tradutores que marcaram a cultura da Idade Média européia. A convivência com os muçulmanos fez com que os judeus utilizassem a língua árabe no dia a dia, enquanto o hebraica ficou praticamente restrito à sinagoga.
        Cidades como Córdoba, Toledo, Granada, Sevilha e Lisboa fervilhavam com a vida judaica em seu esplendor. Séculos depois, com as guerras de reconquista dos reis católicos Fernando e Isabel, tudo mudaria com a expulsão dos judeus dos reinos espanhóis em 1492. Em Portugal a situação não seria melhor. Em 1497, durante o reinado de Dom Manuel, todos os judeus portugueses foram convertidos à força. Encerrava-se assim de forma dramática a gloriosa vida judaica na Península Ibérica.
        Expulsos, os judeus rumaram para países em que sua liberdade religiosa era garantida, destacando-se a Turquia e a Holanda. Comunidades judaicas de origem ibérica também formaram-se na França, Itália, Marrocos, Inglaterra e Brasil (6). Importantes comunidades também se formaram na Grécia, Bulgária, Bósnia, Sérvia, Israel e Egito, territórios relativamente sob administração turco-otomana.
        A marca lingüística destes judeus sefaradis (7) era o uso de um dialeto hispânico, algo como um portunhol medieval recheado de palavras derivadas do hebraico, que com o tempo foi incorporando expressões turcas e gregas, dentre outras. Este dialeto (ou idioma segundo algumas correntes), era o ladino. O ladino floresceu nestes países até a Segunda Guerra Mundial, quando as comunidades judaicas ali foram exterminadas pelos nazistas.

Notas:
1) Léon Poliakov: De Maomé aos Marranos (Ed. Perspectiva, São Paulo, 1984, Trad. Ana M. Goldberger Coelho e Jacó Guinsburg), p. 13 e 14. E Maria Guadalupe Pedrero-Sánchez: Os Judeus na Espanha (Ed. Giordano, São Paulo, 1994), pp. 13 e 14.
2) I Reis 10: 22.
3) Moisés Espírito Santo: Dicionário Fenício-Português (UNL, Lisboa, s/d.), p. 14.
4) Atual Elvira, próximo de Granada (sul da Espanha).
5) Moisés Espírito Santo: Origens do Cristianismo Português (UNL, Lisboa, s/d.), p. 151.
6) No Brasil viveram como criptojudeus, ou seja, judeus secretos, também chamados de cristãos-novos ou marranos.
7) Sefaradi: originário de Sefarad, termo hebraico que na Idade Média designava a Andaluzia e depois passou a designar toda a Península Ibérica.