LIVRO
No. 077 - Abril/2005
Romance de Noah Gordon revive
aventura e tragédia dos cristãos-novos

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HÉLIO DANIEL CORDEIRO
        Desde a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos tornaram-se na mais importante comunidade judaica da diáspora. Tal como a Babilônia, que no passado foi o principal centro cultural dos judeus exilados, a vida cultural judaico-norte-americana tem revelado ao mundo uma infinidade de talentos que vão das artes plásticas ao jazz. No campo da literatura, especialmente, a criatividade é ampla e variada: Allen Ginzberg, Bernard Malamud, Isaac Bashevis Singer, Noah Gordon, Philip Roth, Saul Bellow... só para citar alguns dos mais conhecidos do público brasileiro.
        Noah Gordon, o mais popular de todos eles, é bastante conhecido por livros como O Rabino, O Diamante de Jerusalém, O Físico e Xamã. Misturando temática judaica com ciência e mística medieval, o autor tem seus romances presentes nas listas dos mais vendidos em cada país onde é lançado. Literalmente, Gordon encontrou a fórmula do sucesso. Através de uma obra pouco arrojada esteticamente, mas cativante pela simplicidade narrativa, este filho de judeus russos, ex-estudante de medicina e jornalista graduado fez da ficção seu laboratório de experimentações criativas.
        O que mais surpreende em Gordon é sua capacidade de transformar temas complexos em best sellers. Seu recente sucesso no Brasil, O Último Judeu (Ed. Rocco) em três semanas nas livrarias vendeu dez mil exemplares. A temática do livro não foge à regra: uma história de terror durante a Inquisição.
        Ensaios sobre a Inquisição têm sido escritos por tarimbados historiadores em todo o mundo como a brasileira Anita Novinsky, o israelense Elias Lipiner, o português Francisco Bethencourt e o inglês Henry Kamen. Sua penetração, porém, acaba sendo restrita a círculos acadêmicos ou de iniciados. Curiosamente, observa-se o interesse também de autores de ficção pelo tema. Exemplos disso temos em O Santo Inquérito, de Dias Gomes; A Estranha Nação de Rafael Mendes, de Moacyr Scliar; O Judeu, de Bernardo Santareno, Memorial do Convento, de José Saramago; A Saga do Marrano, de Marcos Aguinis e O Último Cabalista de Lisboa, de Richard Zimler.
        A Inquisição é um assunto longe de ser esgotado, envolto em muito mistério e cuja discussão ou publicidade ainda incomoda bastante a ala tradicional da Igreja católica. Por isso mesmo, enquanto tema-tabu, desperta a curiosidade do leitor em geral. O Último Judeu, com argumentos bem construídos e ágil narrativa, prova isso.
        Neste livro Gordon conta a história de Yonah Helkias Toledano, figurativamente o último judeu da Espanha. O ano de 1492 entrou para a história por dois grandes feitos: a chegada de Colombo à América e a expulsão dos judeus da Espanha. Há uma corrente de historiadores que defende a tese da forte relação entre ambos os fatos. A Descoberta da América seria antes de mais nada um plano secreto de fuga do fanatismo religioso. Ou seja, segundo esta teoria, a partir do Decreto de Expulsão, os ricos financistas judeus da Península Ibérica teriam patrocinado as pesquisas de astrônomos e navegadores para a conquista do Novo Mundo.
        Enquanto isso na Espanha os reis Fernando de Aragão e Isabel de Castela, com seus exércitos, avançam sobre a Andaluzia mourisca até a queda de Granada, último reduto da resistência muçulmana na península. Encerradas as batalhas bélicas, os monarcas católicos iniciam uma nova cruzada de limpeza étnica e religiosa sobre o país. Os judeus teriam chegado às costas espanholas do Mediterrâneo com os mercadores fenícios ainda no tempo do rei Salomão, formaram comunidades no período romano, experimentaram as primeiras perseguições pelos visigodos, viveram com os muçulmanos a Era Dourada na Idade Média e no século XV sentiram as garras inquisitoriais.
        Yonah Toledano, protagonista de O Último Judeu, é uma das milhares de vítimas da intolerância religiosa que subitamente toma conta da sociedade espanhola. Diante do Decreto de Expulsão restava para o judeu o exílio ou a conversão forçada. Para Gordon seu personagem está marcado em meio aos acontecimentos históricos e na complexa convivência entre judeus e cristãos, desencadeada com os novos acontecimentos.
        Contrário à conversão e impedido de fugir do país, Toledano tem contra si o agravante de ser envolvido no roubo de relíquias cristãs. Foge e inicia uma vida errante na Espanha, procurando um lugar onde possa se estabelecer sem renunciar a Lei de Moisés. É obrigado a trocar de identidade e de profissão. De médico conceituado em Saragoça vira camponês na terra, servente num cabalouço, pastor de ovelhas nas montanhas da Andaluzia, marujo, polidor de armaduras e aprendiz de armeiro em Gibraltar. E talvez o mais difícil: teve de criar para si uma nova personalidade que não revelasse a mínima suspeita de seu passado judaico.
        O judaísmo de Yonah Todelano viveria em sua alma, onde não podia ser molestado. Escondido, acendia as velas, entoaria preces hebraicas e, sem gerar desconfiança dos gentios, transmitia a religião dos profetas israelitas e contava as histórias bíblicas para os cristãos-novos mais jovens. Sua esperança era a de que um dia eles ou seus netos pudessem voltar a ser judeus plenos novamente.

TRECHO / O ÚLTIMO JUDEU

        Yonah cruzava a argila vermelha da planície de Sagra, aproximando-se dos muros de Toledo. De longe viu a cidade no alto da rocha, áspera e clara no sol da tarde. Embora estivesse a uma vida de distância do rapaz apavorado que escapara de Toledo num burro, foi assaltado por incômodas recordações ao atravessar a Porta Bisagra. Ultrapassou o prédio da Inquisição, marcado pelo escudo de pedra com a cruz, o ramo de oliveira e a espada. Um dia, na casa do pai, quando ainda criança, ouvira David Mendoza explicar o significado dos dois símbolos a Helkias Toledano: “Se você aceitar a cruz, vão lhe dar o ramo de oliveira. Se recusar, vão aplicar a espada.”