INTRODUÇÃO
No. 079 - Julho/2005
A filosofia na caverna de Platão
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HÉLIO DANIEL CORDEIRO
        Foi em um curso de Estética sobre Novalis na Universidade de São Paulo em 2004 que me veio a idéia de reunir meus escritos “pré-filosóficos” e publicá-los em forma de livro. Pré-filosóficos porque eu os escrevi numa fase de minha formação intelectual (entre 1983 e início de 1987) ainda antes de ingressar no estudo acadêmico-formal da filosofia.
        A identificação com Novalis foi instantânea, mas o que me fez decidir pela publicação foi o comentário do tradutor e comentador Rubens Rodrigues Torres Filho na abertura do Pólen, a principal obra do jovem pensador alemão:
        “Para quem não quer confundir rigor com rigidez, é fértil considerar que a filosofia não é somente uma exclusividade desse competente e titulado técnico chamado filósofo. Nem sempre ela se apresentou em público revestida de trajes acadêmicos, cultivada em viveiros protetores contra o perigo da reflexão: a própria crítica da razão, de Kant, com todo o seu aparato tecnológico, visava, declaradamente, libertar os objetos da metafísica do ‘monopólio das Escolas’.”
        E ainda:
        “O filosofar, desde a Antigüidade, tem acontecido na forma de fragmentos, poemas, diálogos, cartas, ensaios, confissões, meditações, paródias, peripatéticos passeios, acompanhados de infindável comentário, sempre recomeçado, e até os modelos mais clássicos de sistema (Spinoza com sua ética, Hegel com sua lógica, Fichte com sua doutrina-da-ciência) são atingidos nesse próprio estatuto sistemático pelo paradoxo constitutivo que os faz viver.” (1)
        Esta também é a minha visão da filosofia. Basta recorrermos aos fragmentos dos pré-socráticos (Tales de Mileto, Pitágoras de Samos, Heráclito de Éfeso, Zenão de Eléia, Demócrito de Abdera e outros) para verificarmos como estes esparsos escritos, muitas vezes desconexos e herméticos, valem ouro na bolsa de valores da cultura universal. O que não significa que a falta de um sistema amplo e complexo implique necessariamente que os escritos de novos pensadores hodiernos devam todos ser taxados automaticamente de inferiores.
        Quando foi que eu comecei a filosofar? Volto no tempo e me vem à memória uma bela canção do gaúcho Hermes Aquino, “Nuvem passageira”. Eu tinha uns 13 anos de idade quando comecei a pensar filosoficamente sobre a vida, através da letra desta canção:

Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai

Não adianta escrever meu nome numa pedra
Pois essa pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar

Eu sou nuvem passageira...

A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito
E a namorada analisada por sobre o divã

Eu sou nuvem passageira...

Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer ou me matar
Eu vou deixar em dia a vida e a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar.

        Depois, mergulhei fundo na sabedoria bíblica, especialmente nos livros dos Provérbios e os Eclesiastes, ambos atribuídos (sem certeza científica) ao rei Salomão e também no livro de , uma profunda reflexão sobre o sofrimento humano. Desde então a Bíblia tem sido para mim uma fonte inesgotável de conhecimento e inspiração ética. Além de remeter às minhas origens sefaradis, esta obra que marcou todo o Ocidente pode ser lida como um código de ética universal e, para quem conhece um pouco o hebraico, vai observar também a riqueza poética de seus textos, parte dos quais brilhantemente transcriados para o português pelo mestre Haroldo de Campos.
        Vamos em frente!
        Alguns anos depois me passou pelas mãos um livro estritamente sobre filosofia: Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos, de S. E. Frost Jr. A obra foi meu primeiro contato objetivo com os domínios do saber filosófico. Ali o autor, de maneira geral, apresenta as idéias dos principais filósofos em torno da natureza do universo, o lugar do homem no mundo, o que é o bem e o mal, a natureza de Deus, destino verso livre-arbítrio, alma e imortalidade, o homem e o Estado, o homem e a educação, espírito e matéria, as idéias e o pensamento.
        Bem, não preciso nem dizer que aquilo para mim foi um prato cheio e acendeu em minha mente, de uma vez por todas, a sede pelo saber das questões mais profundas da vida humana. Como diz o autor na introdução do livro: “O pensamento é a estrada que conduz à Filosofia.” (2) E acho que desde então não parei mais de filosofar.
        Li em seguida Para Além do Bem e do Mal, de Nietzsche, e Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, obras que me marcaram fortemente na minha concepção religiosa da vida. Em seguida tomei contato com a prosa místico-filosófica de Hermann Hesse (Pequenas Alegrias), com os conceitos cético-lógicos de Russel (As Idéias de Bertrand Russell, de A. J. Ayer) e com os textos metafísico-humanistas de Martin Heidegger. Desse último incluí um texto seu no prefácio de meu primeiro livro, Judaísmo e Humanismo (3), uma coletânea de artigos sobre judaísmo e pensamento humanístico universal, o que também não deixou de ser uma reflexão filosófica em torno da religião e da cultura.
        Academicamente, entrei de corpo e alma nos domínios da ciência-mestra com o curso formal de filosofia na USP, onde Spinoza foi um dos primeiros filósofos a me chamar a atenção antes de me apaixonar pela teoria do conhecimento e a filosofia da ciência com seus vários pensadores mais contemporâneos. Mas eu já flertava com a sublime disciplina desde antes, quando freqüentei dois cursos de extensão universitária na Unicamp. O primeiro, com o físico inglês Steven French, estudamos a “moralidade” da posse e uso das armas nucleares pelas super-potências; o segundo, com vários palestrantes, refletimos em torno do Estado e da filosofia política segundo vários pensadores, como Norberto Bobbio e Michelangelo Bovero.
        Para finalizar, algumas palavras sobre as idéias e a linguagem da presente coletânea. Para não descaracterizar as minhas crenças de quando escrevi estes artigos, procurei mantê-los praticamente idênticos como quando foram escritos originalmente, embora reconheça que há muito tempo o contato com a vida acadêmica e as incontáveis leituras tenham modificado algumas das minhas convicções sobre vários dos temas ali abordados. Salvo algumas expressões de linguagem demasiadamente confusas, evitei inclusive modificar a construção estilística dos textos. Embora a prática jornalística diária tenha me propiciado evoluir bastante no uso da linguagem, creio que mantendo os textos em seu formato original estarei sendo mais coerente com aquilo em que eu então acreditava e pretendia dizer.

Notas:
1) Abertura ao Pólen, de Novalis (Ed. Iluminuras, São Paulo, 2001).
2) S. E. Frost Jr.: Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos (Ed. Cultrix, São Paulo, S/d.), p. 9.
3) S/Ed., Campinas, 1986.