“Para quem não quer confundir rigor com rigidez,
é fértil considerar que a filosofia não é somente
uma exclusividade desse competente e titulado técnico chamado filósofo.
Nem sempre ela se apresentou em público revestida de trajes acadêmicos,
cultivada em viveiros protetores contra o perigo da reflexão: a própria
crítica da razão, de Kant, com todo o seu aparato tecnológico,
visava, declaradamente, libertar os objetos da metafísica do ‘monopólio
das Escolas’.” Eu
sou nuvem passageira
Que com o vento se vai
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai
Não
adianta escrever meu nome numa pedra
Pois essa pedra em pó vai se transformar
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar
Eu sou nuvem passageira...
A
lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito
E a namorada analisada por sobre o divã
Eu sou nuvem passageira...
Por
isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer ou me matar
Eu vou deixar em dia a vida e a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar.
Depois, mergulhei fundo na sabedoria bíblica, especialmente
nos livros dos Provérbios e os Eclesiastes, ambos atribuídos
(sem certeza científica) ao rei Salomão e também no
livro de Jó, uma profunda reflexão sobre o sofrimento
humano. Desde então a Bíblia tem sido para mim uma
fonte inesgotável de conhecimento e inspiração ética.
Além de remeter às minhas origens sefaradis, esta obra que
marcou todo o Ocidente pode ser lida como um código de ética
universal e, para quem conhece um pouco o hebraico, vai observar também
a riqueza poética de seus textos, parte dos quais brilhantemente
transcriados para o português pelo mestre Haroldo de Campos.
Vamos em frente!
Alguns anos depois me passou pelas mãos um livro estritamente sobre
filosofia: Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos,
de S. E. Frost Jr. A obra foi meu primeiro contato objetivo com os domínios
do saber filosófico. Ali o autor, de maneira geral, apresenta as
idéias dos principais filósofos em torno da natureza do universo,
o lugar do homem no mundo, o que é o bem e o mal, a natureza de Deus,
destino verso livre-arbítrio, alma e imortalidade, o homem e o Estado,
o homem e a educação, espírito e matéria, as
idéias e o pensamento.
Bem, não preciso nem dizer que aquilo para mim foi um prato cheio
e acendeu em minha mente, de uma vez por todas, a sede pelo saber das questões
mais profundas da vida humana. Como diz o autor na introdução
do livro: “O pensamento é a estrada que conduz à Filosofia.”
(2) E acho que desde então não parei mais de filosofar.
Li em seguida Para Além do Bem e do Mal, de Nietzsche, e
Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, obras que me marcaram
fortemente na minha concepção religiosa da vida. Em seguida
tomei contato com a prosa místico-filosófica de Hermann Hesse
(Pequenas Alegrias), com os conceitos cético-lógicos
de Russel (As Idéias de Bertrand Russell, de A. J. Ayer)
e com os textos metafísico-humanistas de Martin Heidegger. Desse
último incluí um texto seu no prefácio de meu primeiro
livro, Judaísmo e Humanismo (3), uma coletânea de
artigos sobre judaísmo e pensamento humanístico universal,
o que também não deixou de ser uma reflexão filosófica
em torno da religião e da cultura.
Academicamente, entrei de corpo e alma nos domínios da ciência-mestra
com o curso formal de filosofia na USP, onde Spinoza foi um dos primeiros
filósofos a me chamar a atenção antes de me apaixonar
pela teoria do conhecimento e a filosofia da ciência com seus vários
pensadores mais contemporâneos. Mas eu já flertava com a sublime
disciplina desde antes, quando freqüentei dois cursos de extensão
universitária na Unicamp. O primeiro, com o físico inglês
Steven French, estudamos a “moralidade” da posse e uso das armas
nucleares pelas super-potências; o segundo, com vários palestrantes,
refletimos em torno do Estado e da filosofia política segundo vários
pensadores, como Norberto Bobbio e Michelangelo Bovero.
Para finalizar, algumas palavras sobre as idéias e a linguagem da
presente coletânea. Para não descaracterizar as minhas crenças
de quando escrevi estes artigos, procurei mantê-los praticamente idênticos
como quando foram escritos originalmente, embora reconheça que há
muito tempo o contato com a vida acadêmica e as incontáveis
leituras tenham modificado algumas das minhas convicções sobre
vários dos temas ali abordados. Salvo algumas expressões de
linguagem demasiadamente confusas, evitei inclusive modificar a construção
estilística dos textos. Embora a prática jornalística
diária tenha me propiciado evoluir bastante no uso da linguagem,
creio que mantendo os textos em seu formato original estarei sendo mais
coerente com aquilo em que eu então acreditava e pretendia dizer.
Notas:
1) Abertura ao Pólen, de Novalis (Ed. Iluminuras, São
Paulo, 2001).
2) S. E. Frost Jr.: Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos
(Ed. Cultrix, São Paulo, S/d.), p. 9.
3) S/Ed., Campinas, 1986.