CLÁSSICOS
No. 082 - Dezembro/2005
Livro resume o melhor
da literatura mundial

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HÉLIO DANIEL CORDEIRO

        Em três mil anos de história a inteligência e a criatividade humanas produziram uma infinidade de obras-primas geniais. Em Tudo que Você Precisa Ler sem Ser um Rato de Biblioteca (Ed. Papagaio), o jornalista e escritor Luiz Carlos Lisboa apresenta os clássicos universais mais antigos e as principais obras literárias do último século ao leitor, que através deste livro introdutório poderá seguir o caminho das letras imortais das grandes obras de todos os tempos.
        Como diz Lisboa no prefácio de seu livro: “Não é sempre que se lembra que a curiosidade humana é a mola do prazer artístico e da descoberta científica, e que toda conclusão fechada sobre um fato ou um fenômeno que ainda vai ser desvendado resulta no enfraquecimento da atenção e na diminuição de interesse pela vida.”
        E mais à frente: “O leitor precisa chegar aos livros essenciais levado pela curiosidade que o faz sempre buscar a resposta para o mistério de estar vivo. Se tiver sorte, descobrirá aquilo que normalmente as palavras sozinhas não ensinam, quando não interagem com o leitor.”
        E conclui Lisboa: “Ninguém deve julgar um livro pela aparência, pela dissonância de um título, pela estranheza do assunto. A procura da grande obra passa em geral pela paciência, pela tolerância e pela coleta de informações, e o melhor modo de encontrá-la é descobrir em que ponto esse ou aquele texto estabelece uma ponte invisível com o leitor. E há ainda o conhecimento do livro que emana, de forma misteriosa, de um primeiro contato, seja folheando suas páginas, seja lendo uma informação isolada sobre o seu conteúdo.”
        Organizado cronologicamente, o primeiro livro comentado pelo autor é a Odisséia, de Homero (século VIII a.C.), “o mais antigo estudo conhecido dos mitos, religiões e valores da humanidade, sendo o primeiro marco da cultura ocidental.” Em seguida comenta O Livro do Tao, atribuído a Lao-Tsu (510 a.C.), clássico da literatura chinesa, que moldou a cultura e a sociedade desse grande povo oriental.
        E a lista dos grandes clássicos da Antigüidade segue com Analectos (Confúncio), Orestíada (Ésquilo), Medéia (Eurípedes), Édipo Rei (Sófocles), Lisístrata (Aristófanes), Bhagavad Gita (anônimo), A Arte da Guerra (Sun-Tzu), O Banquete (Platão), Eneida (Virgílio), Metamorfoses (Ovídio), Satiricon (Petrônio), Vidas Paralelas (Plutarco), Meditações (Marco Aurélio) e Confissões (Agostinho). A seqüência cronológica, em paralelo com a ascensão e declínio dos grandes impérios (chinês, grego, hindu e romano), delineia a evolução cultural e as diferenças sociais entre os povos.
        Já na Idade Média surgem As Mil e Uma Noites (anônimo), História de Guênji (Murasaki Shikibu), Rubaiat (Omar Khayan), A Linguagem dos Pássaros (Farid ud-Din-Attar), A Divina Comédia (Dante Alighieri) e os Contos de Canterbury (Geoffrey Chaucer). Onde notamos o descolamento dos centros culturais da Ásia (especialmente entre árabes e persas) para a Europa.
        E é entre a diversidade cultural européia, com diferentes nações e idiomas que surgem as grandes obras literárias e filosóficas da Modernidade, tais como O Príncipe (Maquiavel), Ensaios (Montaigne), Hamlet (Shakespeare), Dom Quixote (Cervantes), Discurso sobre o Método (Descartes), Pensamentos (Pascal), Robinson Crusoe (Daniel Defoe), As Viagens de Gúliver (Jonathan Swift), Tom Jones (Henry Fielding), Cândido (Voltaire), Confissões (Jean-Jacques Rousseau), dentre outras.
        Após a Revolução Francesa (que inaugura uma nova era) continuarão a surgir uma série de clássicos por todo continente europeu como Orgulho e Preconceito (Jane Austen), O Vermelho e o Negro (Stendhal), Fausto (Goethe), Almas Mortas (Nikolai Gogol), O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë), David Copperfield (Charles Dickens), Madame Bovary (Gustave Flaubert), Alice no País da Maravilhas (Lewis Carroll), Guerra e Paz (Leon Tolstói), Casa de Bonecas (Henrik Ibsen), Os Maias (Eça de Queiroz), Os Irmãos Karamázovi (Fiodor Dostoievski), O Médico e o Monstro (Robert Louis Stevenson), Um Estudo em Vermelho (Arthur Conan Doyle), Senhorita Júlia (August Strindberg), Fome (Knut Hamsun), A Máquina do Tempo (H. G. Wells) e Cirano de Bergerac (Edmond Rostand).
        Ao longo do século XIX ganha vulto a literatura norte-americana, onde se destacam obras como Os Pioneiros (Fenimore Cooper), Contos (Edgar Allan Poe), Moby Dick (Herman Melville), Walden (Henry David Thoreau), Folhas de Relva (Walt Whitman) e Aventuras de Huck (Mark Twain).
        Lisboa entra então no século XX e destaca uma série de obras de diferentes autores, estilos, gêneros e literaturas nacionais, das quais citamos uma parte: Tipos de Experiência Religiosa (William James), O Coração das Trevas (Joseph Conrad), O Jardim das Cerejeiras (Anton Chekhov), Em Busca do Tempo Perdido (Marcel Proust), A Metamorfose (Franz Kafka), Ulisses (James Joyce), Babbit (Sinclair Lewis), A Consciência de Zeno (Italo Svevo), A Montanha Mágica (Thomas Mann), O Grande Gatsby (Scott Fitzgerald), O Sol Também se Levanta (Ernest Hemingway), Os Sete Pilares da Sabedoria (T. E. Lawrence), Orlando (Virginia Woolf), O Som e a Fúria (William Faulkner), O Homem sem Qualidades (Robert Musil), Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), Trópico de Câncer (Henry Miller), Satã em Gorai (Isaac Bashevis Singer), Réquiem (Anna Akmátova), O País da Neve (Yassunari Kawabata), E o Vento Levou... (Margaret Mitchell), As Vinhas da Ira (John Steinbeck), O Zero e o Infinito (Arthur Koestler), Longa Jornada Noite Adentro (Eugene O’Neill), O Estrangeiro (Albert Camus), Obra Poética (Fernando Pessoa), O Jogo das Pérolas de Vidro (Hermann Hesse), A Segunda Guerra Mundial (Winston Churchill) 1984 (George Orwell), A Cantora Careca (Eugene Ionesco).
        E prossegue na segunda metade do século com O Apanhador em Campo de Centeio (J. D. Salinger), O Senhor da Moscas (William Golding), Lolita (Vladimir Nabokov), O Eterno Agora (Paul Tillich), Pé na Estrada (Jack Kerouac), O Leopardo (Giuseppe di Lampedusa), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), Poemas Escolhidos (T. S. Eliot), Herzog (Saul Bellow), A Sangue Frio (Truman Capote), O Complexo de Portnoy (Philip Roth), Cem Anos de Solidão (Gabriel García-Márques), Ragtime (E. L. Doctorow), Obra Completa (Jorge Luis Borges), Se um Viajante numa Noite de Inverno (Italo Calvino), Memórias (Raymond Aron), A Jangada de Pedra (José Saramago), A Fogueira das Vaidades (Tom Wolfe), Personas Sexuais (Camille Paglia), Por Amor ao Mundo (Elizabeth Young-Bruehl) e O que Ler e Por quê (Harold Bloom).
        O fato de não haver nenhuma obra de autor brasileiro na seleção de Luiz Carlos Lisboa é justificada pelo critério dele ter incluído neste volume apenas o melhor da literatura internacional. Neste sentido, fica clara a ausência de pelo menos um grande clássico: Os Lusíadas, de Luís de Camões, obra que praticamente formaliza a língua portuguesa literária, escrita na época das grandes navegações marítimas.
        Descontando isso, Tudo que Você Precisa Ler sem Ser um Rato de Biblioteca é uma obra interessante e bem escrita, que funciona como um guia de primeiros passos para a leitura dos clássicos universais.