Em
três mil anos de história a inteligência e a criatividade
humanas produziram uma infinidade de obras-primas geniais. Em Tudo que
Você Precisa Ler sem Ser um Rato de Biblioteca (Ed. Papagaio),
o jornalista e escritor Luiz Carlos Lisboa apresenta os clássicos
universais mais antigos e as principais obras literárias do último
século ao leitor, que através deste livro introdutório
poderá seguir o caminho das letras imortais das grandes obras de
todos os tempos.
Como
diz Lisboa no prefácio de seu livro: “Não é sempre
que se lembra que a curiosidade humana é a mola do prazer artístico
e da descoberta científica, e que toda conclusão fechada sobre
um fato ou um fenômeno que ainda vai ser desvendado resulta no enfraquecimento
da atenção e na diminuição de interesse pela
vida.”
E
mais à frente: “O leitor precisa chegar aos livros essenciais
levado pela curiosidade que o faz sempre buscar a resposta para o mistério
de estar vivo. Se tiver sorte, descobrirá aquilo que normalmente
as palavras sozinhas não ensinam, quando não interagem com
o leitor.”
E
conclui Lisboa: “Ninguém deve julgar um livro pela aparência,
pela dissonância de um título, pela estranheza do assunto.
A procura da grande obra passa em geral pela paciência, pela tolerância
e pela coleta de informações, e o melhor modo de encontrá-la
é descobrir em que ponto esse ou aquele texto estabelece uma ponte
invisível com o leitor. E há ainda o conhecimento do livro
que emana, de forma misteriosa, de um primeiro contato, seja folheando suas
páginas, seja lendo uma informação isolada sobre o
seu conteúdo.”
Organizado
cronologicamente, o primeiro livro comentado pelo autor é a Odisséia,
de Homero (século VIII a.C.), “o mais antigo estudo conhecido
dos mitos, religiões e valores da humanidade, sendo o primeiro marco
da cultura ocidental.” Em seguida comenta O Livro do Tao,
atribuído a Lao-Tsu (510 a.C.), clássico da literatura chinesa,
que moldou a cultura e a sociedade desse grande povo oriental.
E
a lista dos grandes clássicos da Antigüidade segue com Analectos
(Confúncio), Orestíada (Ésquilo), Medéia
(Eurípedes), Édipo Rei (Sófocles), Lisístrata
(Aristófanes), Bhagavad Gita (anônimo), A Arte
da Guerra (Sun-Tzu), O Banquete (Platão), Eneida
(Virgílio), Metamorfoses (Ovídio), Satiricon
(Petrônio), Vidas Paralelas (Plutarco), Meditações
(Marco Aurélio) e Confissões (Agostinho). A seqüência
cronológica, em paralelo com a ascensão e declínio
dos grandes impérios (chinês, grego, hindu e romano), delineia
a evolução cultural e as diferenças sociais entre os
povos.
Já
na Idade Média surgem As Mil e Uma Noites (anônimo),
História de Guênji (Murasaki Shikibu), Rubaiat
(Omar Khayan), A Linguagem dos Pássaros (Farid ud-Din-Attar),
A Divina Comédia (Dante Alighieri) e os Contos de Canterbury
(Geoffrey Chaucer). Onde notamos o descolamento dos centros culturais da
Ásia (especialmente entre árabes e persas) para a Europa.
E
é entre a diversidade cultural européia, com diferentes nações
e idiomas que surgem as grandes obras literárias e filosóficas
da Modernidade, tais como O Príncipe (Maquiavel), Ensaios
(Montaigne), Hamlet (Shakespeare), Dom Quixote (Cervantes),
Discurso sobre o Método (Descartes), Pensamentos
(Pascal), Robinson Crusoe (Daniel Defoe), As Viagens de Gúliver
(Jonathan Swift), Tom Jones (Henry Fielding), Cândido
(Voltaire), Confissões (Jean-Jacques Rousseau), dentre outras.
Após
a Revolução Francesa (que inaugura uma nova era) continuarão
a surgir uma série de clássicos por todo continente europeu
como Orgulho e Preconceito (Jane Austen), O Vermelho e o Negro
(Stendhal), Fausto (Goethe), Almas Mortas (Nikolai Gogol),
O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë), David Copperfield
(Charles Dickens), Madame Bovary (Gustave Flaubert), Alice
no País da Maravilhas (Lewis Carroll), Guerra e Paz
(Leon Tolstói), Casa de Bonecas (Henrik Ibsen), Os Maias
(Eça de Queiroz), Os Irmãos Karamázovi (Fiodor
Dostoievski), O Médico e o Monstro (Robert Louis Stevenson),
Um Estudo em Vermelho (Arthur Conan Doyle), Senhorita Júlia
(August Strindberg), Fome (Knut Hamsun), A Máquina
do Tempo (H. G. Wells) e Cirano de Bergerac (Edmond Rostand).
Ao
longo do século XIX ganha vulto a literatura norte-americana, onde
se destacam obras como Os Pioneiros (Fenimore Cooper), Contos
(Edgar Allan Poe), Moby Dick (Herman Melville), Walden
(Henry David Thoreau), Folhas de Relva (Walt Whitman) e Aventuras
de Huck (Mark Twain).
Lisboa
entra então no século XX e destaca uma série de obras
de diferentes autores, estilos, gêneros e literaturas nacionais, das
quais citamos uma parte: Tipos de Experiência Religiosa (William
James), O Coração das Trevas (Joseph Conrad), O
Jardim das Cerejeiras (Anton Chekhov), Em Busca do Tempo Perdido
(Marcel Proust), A Metamorfose (Franz Kafka), Ulisses
(James Joyce), Babbit (Sinclair Lewis), A Consciência
de Zeno (Italo Svevo), A Montanha Mágica (Thomas Mann),
O Grande Gatsby (Scott Fitzgerald), O Sol Também se
Levanta (Ernest Hemingway), Os Sete Pilares da Sabedoria (T.
E. Lawrence), Orlando (Virginia Woolf), O Som e a Fúria
(William Faulkner), O Homem sem Qualidades (Robert Musil), Admirável
Mundo Novo (Aldous Huxley), Trópico de Câncer
(Henry Miller), Satã em Gorai (Isaac Bashevis Singer), Réquiem
(Anna Akmátova), O País da Neve (Yassunari Kawabata),
E o Vento Levou... (Margaret Mitchell), As Vinhas da Ira
(John Steinbeck), O Zero e o Infinito (Arthur Koestler), Longa
Jornada Noite Adentro (Eugene O’Neill), O Estrangeiro
(Albert Camus), Obra Poética (Fernando Pessoa), O Jogo
das Pérolas de Vidro (Hermann Hesse), A Segunda Guerra Mundial
(Winston Churchill) 1984 (George Orwell), A Cantora Careca
(Eugene Ionesco).
E
prossegue na segunda metade do século com O Apanhador em Campo
de Centeio (J. D. Salinger), O Senhor da Moscas (William Golding),
Lolita (Vladimir Nabokov), O Eterno Agora (Paul Tillich),
Pé na Estrada (Jack Kerouac), O Leopardo (Giuseppe
di Lampedusa), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), Poemas
Escolhidos (T. S. Eliot), Herzog (Saul Bellow), A Sangue
Frio (Truman Capote), O Complexo de Portnoy (Philip Roth),
Cem Anos de Solidão (Gabriel García-Márques),
Ragtime (E. L. Doctorow), Obra Completa (Jorge Luis Borges),
Se um Viajante numa Noite de Inverno (Italo Calvino), Memórias
(Raymond Aron), A Jangada de Pedra (José Saramago), A
Fogueira das Vaidades (Tom Wolfe), Personas Sexuais (Camille
Paglia), Por Amor ao Mundo (Elizabeth Young-Bruehl) e O que
Ler e Por quê (Harold Bloom).
O
fato de não haver nenhuma obra de autor brasileiro na seleção
de Luiz Carlos Lisboa é justificada pelo critério dele ter
incluído neste volume apenas o melhor da literatura internacional.
Neste sentido, fica clara a ausência de pelo menos um grande clássico:
Os Lusíadas, de Luís de Camões, obra que praticamente
formaliza a língua portuguesa literária, escrita na época
das grandes navegações marítimas.
Descontando
isso, Tudo que Você Precisa Ler sem Ser um Rato de Biblioteca
é uma obra interessante e bem escrita, que funciona como um guia
de primeiros passos para a leitura dos clássicos universais.