CRISTÃOS-NOVOS
No. 083 - Fevereiro/2006
Jamil Sayeg e os marranos da
Sinagoga Israelita Brasileira

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HÉLIO DANIEL CORDEIRO
        No início de 1987 eu trabalhava como jornalista na redação da revista O Hebreu (editada pelo Eliahu Chut no Bom Retiro, em São Paulo), quando fui convidado por Jamil Sayeg, presidente da Sinagoga Israelita Brasileira (SIB), localizada no antigo bairro paulistano da Mooca, a participar dos serviços religiosos dessa entidade.
        Atendi prontamente ao convite de Sayeg, pois eu tinha pela frente o desafio de organizar na SIB um grupo de anussim (descendentes de judeus sefaradis convertidos ao catolicismo na Península Ibérica antes e durante a fúria inquisitorial). Naquela época, marranismo era um assunto muito pouco conhecido mesmo dentro da comunidade judaica brasileira.
        Além de marranos residentes em São Paulo, freqüentavam a sinagoga com alguma regularidade gente vinda de diversas cidades interioranas. Participávamos do serviço religioso do Shabat nas manhãs de sábado e promovíamos estudos bíblico-talmúdicos nas tardes de domingo. Um dos participantes do grupo foi o historiador Paulo Valadares, de Campinas.
        Para comentar um pouco mais sobre esta experiência de aproximação (e, em alguns casos, de integração) ao judaísmo brasileiro, entrevistei quase vinte anos depois, na sede da revista JUDAICA (Jardim Paulista), o próprio Jamil Sayeg, figura chave para a existência daquele grupo.
        Jamil Sayeg nasceu em São Paulo em 1927. O seu pai nasceu em Beirute (Líbano) e viveu em Damasco (Síria) onde conheceu sua mãe. Como muitos outros judeus do Oriente Médio, emigraram para o Brasil. Aqui chegaram em 1914.
        O entrevistado sempre teve uma intensa militância nos trabalhos da comunidade judaica de São Paulo, seja através da Federação Israelita paulista ou, mais especificamente, na SIB, fundada por emigrantes sírio-libaneses nas primeiras décadas do século XX.
        Pergunto a Sayeg quais foram suas primeiras informações sobre os marranos. Ele explica que já conhecia o assunto através de palestras da professora Anita Novinsky. “Ela gostaria que todos os marranos viessem para o judaísmo. Dizia que eles deveriam ser abraçados, porque entre eles havia elementos de alto nível.” – comenta.
        Sayeg destaca também o papel singular que teve o empresário e líder comunitário Leon Feffer (z.l.) no seu esclarecimento sobre a questão marrana no Brasil. Feffer argumentava que, “com a fundação do Estado de Israel, nós precisamos trazer de volta para a comunidade os marranos brasileiros que estão espalhados pelo País.”
        Sayeg afirma que o Leon Feffer tinha mesmo razão. Diz que em suas viagens como advogado pelo interior de São Paulo, conheceu vários comerciantes, fazendeiros e pecuaristas cristãos-novos.
        “Eles não divulgavam em sua região que eram de origem judaica, pois tinham receio. Mas sabendo que eu era judeu, me convidavam para rezar o Cabalat Shabat em suas casas.” – observa, destacando algumas dessas cidades paulistas onde conheceu estes marranos: Americana, Araraquara, Araras, Ibitinga, Limeira, Piracicaba, Sorocaba, dentre outras.
        Por diversas razões, o grupo da SIB teve vida muito curta, existindo por uns dois anos. Mas como pesquisador das questões marrano-sefaradis e jornalista divulgador do tema, não desisti da idéia de organizar os estudos sobre o marranismo brasileiro e oferecer alguma orientação para quem buscava encontrar suas raízes judaicas.
        Nos anos que se seguiram passei a receber uma grande quantidade de cartas de pessoas de todo o Brasil que diziam descender de cristãos-novos e que buscavam conhecer mais o judaísmo ou até mesmo retornar oficialmente à religião mosaica.         Algumas destas cartas eram repassadas para mim, inclusive, pela Embaixada de Israel em Brasília e pelo Consulado israelense em São Paulo.
        Assim, em 1990 fundei a Sociedade Hebraica para Estudo do Marranismo (Shemá), cujas primeiras reuniões no bairro do Bom Retiro contou com a presença da maioria dos anussim da SIB e de outros marranos vindos de diversas cidades do interior paulista.
        A experiência da fundação da Shemá e dos primeiros anos dos trabalhos da entidade estão registrados em meu livro Os Marranos e a Diáspora Sefardita, obra em que também proponho o resgate das raízes judaicas do Brasil e um estudo sobre a identidade marrana do povo brasileiro.