COMUNIDADES
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 091 - Dezembro/2006
A histórias dos judeus em Campinas (SP)
        Na ininterrupta busca de novas terras, novas moradas, na Galut anterior à fundação do Estado de Israel, estabeleceu-se em Campinas, interior paulista, algumas famílias judias com a forte esperança de aí viver em paz e prosperar.
        Para conhecer melhor a história e a atualidade dos judeus campineiros, entrevistei quando ali estudava (meados da década de 1980), Jayme Medaljon e Oscar Bromberg, então respectivamente presidente e vice-presidente da Sociedade Israelita Brasileira Beth Jacob de Campinas, e Vivian Schlesinger, então diretora da Escola de Hebraico da entidade.
        A história carece de dados mais completos para determinar o ano ou, o que é mais importante, o personagem da primeira vinda de judeus à região campineira. Pressupõe-se que desde fins do século XIX algumas famílias judias há existiam na região. Todavia, é somente a partir do início do século XX que se tornou efetiva a presença judaica na cidade de Campinas, com a vinda e permanência de algumas famílias.
        Estas eram procedentes, em sua quase exclusividade, da Europa Oriental (Rússia, Polônia e Romênia, principalmente), que vitimadas por crises econômicas e o anti-semitismo que tornavam sobremaneira difíceis a vida no Leste europeu, imigraram para o Novo Mundo, explicam Medaljon e Bromberg.
                                                                          Primeiras famílias
        Os primeiros judeus a se fixarem em Campinas (1900-30) foram Francisco Kapsen, Jack Grinberg, Jacob e José Schick, Jacob Schurguin, Luiz Taub, Moisés Gandelman, Rubens Frug e Sam Epstein, com suas famílias, juntamente com outras duas, os Kaufman e os Treiber.
        Digno de nota com referência a estas famílias é o fato de que Jacob Schic teve uma filha nascida em Campinas (Anna Stella Schic) considerada uma das maiores concertistas de piano brasileira, e que viveu muitos anos em Paris. Também Sam Epstein foi pai de uma destacada artista da música erudita, a também pianista, Stelinha Epstein.
        Assim, em qualidade suficiente para organizarem-se em comunidade, foi criado em 30 de outubro de 1914 o Centro Israelita Beth Jacob, contando com a participação de 30 a 40 famílias de judeus residentes em Campinas. Em semelhança ao ocorrido em outros centros judaicos, o núcleo principal da comunidade campineira foi a sinagoga, com suas atinentes atividades religiosas e culturais, possibilitando desta maneira maior entrosamento entre os israelitas locais.
        Quanto à atividade econômica, os pioneiros judeus eram essencialmente mascates, fazendo do comércio de variados artigos manufaturados a fonte maior de sua sobrevivência. Com a passar dos anos, outras novas famílias judias chegavam a Campinas, fazendo da mesma a sua cidade de residência.
        Durante toda a história, o Centro Israelita Beth Jacob foi o grande responsável pela centralização da vida judaica em Campinas, dando sempre enfoque especial ao serviço religioso. Ao lado da religiosidade, aspectos da cultura judaica também foram trabalhados. Em 1962 a instituição passou a se chamar Sociedade Israelita Brasileira Beth Jacob.
                                                                          Numero incerto
        Hoje a entidade conta com aproximadamente cem famílias cadastradas. Em sua sinagoga, realizam-se, ao menos uma vez por semana os serviços religiosos tradicionais. Às crianças, são ministradas aulas de cultura judaica e hebraico. Entre os eventos culturais mais amplos, destacam-se a apresentação de palestras e alguns filmes de conteúdo judaico. Ainda dentro da Sociedade Israelita Brasileira Beth Jacob funciona a loja Bnai Brith, com membros campineiros.
        A região de Campinas é uma das mais desenvolvidas de todo o Brasil no que toca ao ensino universitário, pesquisas e indústrias de alta tecnologia. Localiza-se a cerca de 90 quilômetros da capital paulista. O número preciso de pessoas de origem judaica na cidade é desconhecido.
        Fica difícil saber ao todo quantos judeus vivem em Campinas atualmente, pois muitos deles não estão cadastrados na entidade. Há muitos jovens judeus estudando na Unicamp e Puccamp, profissionais liberais e executivos de grandes empresas que moram por algum tempo na cidade, não aparecendo na estatística da instituição.
        Quantos aos membros da entidade, a maioria dedica-se ao comércio e a profissões liberais como advogados, dentistas, engenheiros, médicos e professores, dando a sua contribuição à vida campineira em geral, finalizam Medaljon e Bromberg.
                                                                           Educação judaica

       
A Sociedade Israelita Brasileira Beth Jacob de Campinas, consciente da tarefa de transmitir os valores do povo judeu às gerações futuras, desenvolveu um trabalho junto às crianças, filhos dos associados, visando perpassar a elas ao menos as noções básicas de judaísmo, a fim de poderem crescer como indivíduos conscientes de sua herança judaica.
        Conforme disse Vivian Schlesinger, a atuação da Escola de Hebraico dividia-se em duas partes. Uma era o ensino da língua hebraica, onde as crianças aprendiam, além do comum no estudo de qualquer idioma (vocabulário mais importante e expressões idiomáticas tradicionais) recebiam também informações especiais quanto ao paralelo existente entre vocabulário e costumes judaicos, buscando desta forma tornar mais fácil o conhecimento teórico recebido, e conseqüentemente, a identificação prática do mesmo.
        A outra parte implicava em ministrar a cultura judaica, enfocando essencialmente a tradição e significado das festas do povo judeu. Aí, as crianças podiam ter uma visão da história do feriado e saber qual é a comida típica do mesmo, chegando ainda a atuar no seu preparo nas festas principais. Outro importante objetivo desta seção da Escola de Hebraico é o intercâmbio de crianças e jovens com vista a uma maior aproximação entre eles e a sinagoga local.
        Para inspirar um pouco mais aqueles pais que ainda não matricularam seus filhos em escolas judaicas, lembramos da sua responsabilidade de ensinar a criança a viver em dois mundos e incorporar duas culturas, cada uma com suas próprias exigências e seus próprios impactos. E concluímos com as palavras do pedagogo Arnaldo Niskier, que certa vez declarou que a escola judaica oferece a melhor formação do que representa ser judeu numa sociedade brasileira.
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