LIVROS
No. 100 - Dezembro/2007
Elie Wiesel revisita
os mensageiros bíblicos

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HÉLIO DANIEL CORDEIRO

        A leitura da Bíblia, em sua concepção mais ampla, tem muito a nos ensinar em valores éticos em nosso tempo. Isso fica claro na leitura de Mensageiros, de Elie Wiesel (Ed.Roswitha Kempf).
        O título da tradução brasileira do livro é bem diferente do original francês (Celebration Biblique), mas a tradutora Luba Jeffe o fez acertadamente. As narrativas de Wiesel tratam de alguns dos mais famosos mensageiros bíblicos: Adão, Isaque, Jacó, José, Moisés, Jó e outros.
        Já desde o início dos anos oitenta Wiesel vinha ganhando destaque nas áreas literária e social em todo o mundo. O reconhecimento maior veio com o Nobel da Paz em 1986, por seus esforços em alertar o mundo sobre o Holocausto na Segunda Guerra Mundial (do qual ele mesmo é um sobrevivente), para que tais crimes não voltem a acontecer. Nada mais justo a este batalhador da causa judaica, que faz questão de escrever em francês, que nasceu na Hungria e vive nos Estados Unidos.
        O prefácio da obra sintetiza muito bem o modo como o autor trata os seus mensageiros: "Wiesel tira os personagens do pedestal dos heróis e os traz, com carinho e sensibilidade, para o plano dos seres humanos: com suas falhas e fraquezas, seus conflitos e angústias, seus momentos de glória e êxtase".
        Quer dizer, nada da idéia de super-homens para os heróis das histórias bíblicas. Eles eram pessoas comuns com responsabilidades especiais.
        Adão simboliza o mistério do começo. O começo da humanidade, de sua história.Por que Deus criou um só primeiro homem? Aludindo a um midrash (interpretação judaica da Bíblia) Wiesel responde: "Para dar uma lição de igualdade e nos ensinar que não há homem que seja superior a outro. Todos temos o mesmo antepassado". Talvez esta espécie de igualdade humana seja o grande mistério daquele tempo do Bereshit, o começo do mundo. Mas havia igualdade de fato?
        Passamos então aos irmãos Abel e Caim. Caim foi o primeiro assassino, aquele que se rebela por se sentir discriminado. Abel é a primeira vítima, que deixa a história sem qualquer reação conhecida. De quem a culpa, se Caim  agiu motivado por forças externas? Por que Deus não protegeu Abel, se ele era inocente? A culpa não seria do próprio Criador? De qualquer modo, nenhum dos irmãos se beneficiou com a morte de Abel. Cada assassino é um suicida.
        A akedá (amarração) de Isaque é chamada por Wiesel de "a história de um sobrevivente". Isaque caminha com seu pai Abraão para o monte Moriá. Como conciliar um sacrifício ordenado por Deus com este ente que se gaba ser o Criador da vida? E então, no derradeiro momento, o Anjo do Senhor detém o pai de matar o filho, substituindo por um carneiro.
        O cenário é ocupado depois por Jacó. Uma das figuras mais polêmicas das Escrituras, este patriarca hebreu tinha mania de grandeza. Já nasceu segurando no calcanhar do irmão gêmeo, Esaú, e como naturalmente não conseguiu ser o primogênito, aproveitou a fome do irmão anos depois, comprando seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas. Depois vem o exílio, Raquel, Léa, os filhos, o retorno e a mudança de nome para Israel.
        Não menos interessantes são as narrativas sobre José, o tzadik (justo), que traído pelos irmãos vai ao Egito como escravo e se torna príncipe. Moisés, o líder sem querer, que libertou Israel do cativeiro dos faraós. A figura de Jó fecha o livro. O sofredor Jó é nosso contemporâneo, que sofre sem saber o motivo.
        Com a linguagem cristalina de Mensageiros, Wiesel nos torna mais íntimos dos vultos bíblicos.